terça-feira, dezembro 29, 2009



A moralidade em Kant
A concepção de liberdade no âmbito da filosofia kantiana apresenta algumas características que
demandam um certo rigor conceitual no seu trato, para que se possa chegar ao seu bom entendimento. A partir da concepção kantiana de que toda ação racional deve ser uma ação moral -o que é requerido incondicionalmente pelo imperativo categórico - percebemos todo o rigorconceitual envolvido na proposta do dever moral como válido para todos os seres racionais. Posto que a conduta moral é vinculada a uma máxima universalizável - e que esta se constitui em uma lei que não pode ser imposta por algo externo (uma vez que é resultada de um princípio constitutivo apriori da razão) -, a natureza da legislação racional é universal e as leis universais são morais. Dessa forma, a legislação racional assume o caráter de dever ser, tornando-se a ação moral objetivamente necessária, não tendo nenhuma ligação à finalidade material ou substantiva particular: eis uma das características que justamente remetem à liberdade na acepção de liberdade interna, isto é, como intenção moral. A partir do aprofundamento teórico buscaremos caracterizar alguns aspectos do referente problema na filosofia prática de Kant.

Moral e Costume
"ser moral, morigerado, ético" significa prestar obediência a uma lei ou tradição há muito estabelecida. Se alguém se sujeita a ela com dificuldade ou com prazer é indiferente, bastando que o faça, "Bom" é chamado aquele que, após longa hereditariedade e quase por natureza, pratica facilmente e de bom grado o que é moral, conforme seja (por exemplo, exerce a vingança quando exercê-la faz parte do bom costume, como entre os antigos gregos). Ele é denominado bom porque é bom "para algo"; mas como, na mudança dos costumes, a benevolência, a compaixão e similares sempre foram sentidos como "bons para algo", como úteis, agora sobretudo o benevolente, o prestativo, é chamado de "bom". Mau é ser "não moral" (imoral), praticar o mau costume, ofender a tradição, seja ela racional ou estúpida; especialmente prejudicar o próximo foi visto nas leis morais das diferentes épocas como nocivo, de modo que hoje a palavra "mau" nos faz pensar sobretudo no dano voluntário ao próximo. "Egoísta" e "altruísta" não é a oposição fundamental que levou os homens à diferenciação entre moral e imoral, bom e mau, mas sim estar ligado a uma tradição, uma lei, ou desligar-se dela. Nisso não importa saber como surgiu a tradição, de todo modo ela o fez sem consideração pelo bem e o mal, ou por algum imperativo categórico imanente, mas antes de tudo a fim de conservar uma comunidade, um povo; cada hábito supersticioso, surgido a partir de um acaso erroneamente interpretado, determina uma tradição que é moral seguir; afastar-se dela é perigoso, ainda mais nocivo para a comunidade que para o indivíduo (pois a divindade pune a comunidade pelo sacrilégio e por toda violação de suas prerrogativas, e apenas ao fazê-lo pune também o indivíduo). Ora, toda tradição se torna mais respeitável à medida que fica mais distante a sua origem, quanto mais esquecida for esta; o respeito que lhe é tributado aumenta a cada geração, a tradição se torna enfim sagrada, despertando temor e veneração; assim, de todo modo a moral da piedade é muito mais antiga do que a que exige ações altruístas."
(Friedrich Nietzsche, "Humano, demasiado humano", Cia de Letras, p. 73, aforismo 96, ano 2001, São Paulo)