EXORTAÇÃO APOSTÓLICA
EVANGELII GAUDIUM
DO PAPA FRANCISCO
AO EPISCOPADO
AO CLERO
ÀS PESSOAS CONSAGRADAS
E AOS FIÉIS LEIGOS
SOBRE O ANÚNCIO DO EVANGELHO NO MUNDO ATUAL
Rádio Vaticano
1. A ALEGRIA DO EVANGELHO enche o
coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Quantos se
deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio
interior, do isolamento. Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria.
Quero, com esta Exortação, dirigir-me aos fiéis cristãos a fim de os
convidar para uma nova etapa evangelizadora marcada por esta alegria e
indicar caminhos para o percurso da Igreja nos próximos anos.
I. Alegria que se renova e comunica
2. O grande risco do mundo actual, com
sua múltipla e avassaladora oferta de consumo, é uma tristeza
individualista que brota do coração comodista e mesquinho, da busca
desordenada de prazeres superficiais, da consciência isolada. Quando a
vida interior se fecha nos próprios interesses, deixa de haver espaço
para os outros, já não entram os pobres, já não se ouve a voz de Deus,
já não se goza da doce alegria do seu amor, nem fervilha o entusiasmo de
fazer o bem. Este é um risco, certo e permanente, que correm também os
crentes. Muitos caem nele, transformando-se em pessoas ressentidas,
queixosas, sem vida. Esta não é a escolha duma vida digna e plena, este
não é o desígnio que Deus tem para nós, esta não é a vida no Espírito
que jorra do coração de Cristo ressuscitado.
3. Convido todo o cristão, em qualquer
lugar e situação que se encontre, a renovar hoje mesmo o seu encontro
pessoal com Jesus Cristo ou, pelo menos, a tomar a decisão de se deixar
encontrar por Ele, de O procurar dia a dia sem cessar. Não há motivo
para alguém poder pensar que este convite não lhe diz respeito, já que
«da alegria trazida pelo Senhor ninguém é excluído». Quem arrisca, o
Senhor não o desilude; e, quando alguém dá um pequeno passo em direcção a
Jesus, descobre que Ele já aguardava de braços abertos a sua chegada.
Este é o momento para dizer a Jesus Cristo: «Senhor, deixei-me enganar,
de mil maneiras fugi do vosso amor, mas aqui estou novamente para
renovar a minha aliança convosco. Preciso de Vós. Resgatai-me de novo,
Senhor; aceitai-me mais uma vez nos vossos braços redentores». Como nos
faz bem voltar para Ele, quando nos perdemos! Insisto uma vez mais: Deus
nunca Se cansa de perdoar, somos nós que nos cansamos de pedir a sua
misericórdia. Aquele que nos convidou a perdoar «setenta vezes sete» (Mt
18, 22) dá-nos o exemplo: Ele perdoa setenta vezes sete. Volta uma vez e
outra a carregar-nos aos seus ombros. Ninguém nos pode tirar a
dignidade que este amor infinito e inabalável nos confere. Ele
permite-nos levantar a cabeça e recomeçar, com uma ternura que nunca nos
defrauda e sempre nos pode restituir a alegria. Não fujamos da
ressurreição de Jesus; nunca nos demos por mortos, suceda o que suceder.
Que nada possa mais do que a sua vida que nos impele para diante!
4. Os livros do Antigo Testamento
preanunciaram a alegria da salvação, que havia de tornar-se
superabundante nos tempos messiânicos. O profeta Isaías dirige-se ao
Messias esperado, saudando-O com regozijo: «Multiplicaste a alegria,
aumentaste o júbilo» (9, 2). E anima os habitantes de Sião a recebê-Lo
com cânticos: «Exultai de alegria!» (12, 6). A quem já O avistara no
horizonte, o profeta convida-o a tornar-se mensageiro para os outros:
«Sobe a um alto monte, arauto de Sião! Grita com voz forte, arauto de
Jerusalém» (40, 9). A criação inteira participa nesta alegria da
salvação: «Cantai, ó céus! Exulta de alegria, ó terra! Rompei em
exclamações, ó montes! Na verdade, o Senhor consola o seu povo e se
compadece dos desamparados» (49, 13).
Zacarias, vendo o dia do Senhor, convida a vitoriar o Rei que chega
«humilde, montado num jumento»: «Exulta de alegria, filha de Sião! Solta
gritos de júbilo, filha de Jerusalém! Eis que o teu rei vem a ti. Ele é
justo e vitorioso» (9, 9). Mas o convite mais tocante talvez seja o do
profeta Sofonias, que nos mostra o próprio Deus como um centro
irradiante de festa e de alegria, que quer comunicar ao seu povo este
júbilo salvífico. Enche-me de vida reler este texto: «O Senhor, teu
Deus, está no meio de ti como poderoso salvador! Ele exulta de alegria
por tua causa, pelo seu amor te renovará. Ele dança e grita de alegria
por tua causa» (3, 17).
É a alegria que se vive no meio das pequenas coisas da vida quotidiana,
como resposta ao amoroso convite de Deus nosso Pai: «Meu filho, se tens
com quê, trata-te bem (…). Não te prives da felicidade presente» (Sir
14, 11.14). Quanta ternura paterna se vislumbra por detrás destas
palavras!
5. O Evangelho, onde resplandece
gloriosa a Cruz de Cristo, convida insistentemente à alegria. Apenas
alguns exemplos: «Alegra-te» é a saudação do anjo a Maria (Lc 1, 28). A
visita de Maria a Isabel faz com que João salte de alegria no ventre de
sua mãe (cf. Lc 1, 41). No seu cântico, Maria proclama: «O meu espírito
se alegra em Deus, meu Salvador» (Lc 1, 47). E, quando Jesus começa o
seu ministério, João exclama: «Esta é a minha alegria! E tornou-se
completa!» (Jo 3, 29). O próprio Jesus «estremeceu de alegria sob a
acção do Espírito Santo» (Lc 10, 21). A sua mensagem é fonte de alegria:
«Manifestei-vos estas coisas, para que esteja em vós a minha alegria, e
a vossa alegria seja completa» (Jo 15, 11). A nossa alegria cristã
brota da fonte do seu coração transbordante. Ele promete aos seus
discípulos: «Vós haveis de estar tristes, mas a vossa tristeza há-de
converter-se em alegria» (Jo 16, 20). E insiste: «Eu hei-de ver-vos de
novo! Então, o vosso coração há-de alegrar-se e ninguém vos poderá tirar
a vossa alegria» (Jo 16, 22).
Depois, ao verem-No ressuscitado,
«encheram-se de alegria» (Jo 20, 20). O livro dos Actos dos Apóstolos
conta que, na primitiva comunidade, «tomavam o alimento com alegria» (2,
46). Por onde passaram os discípulos, «houve grande alegria» (8, 8); e
eles, no meio da perseguição, «estavam cheios de alegria» (13, 52). Um
eunuco, recém-baptizado, «seguiu o seu caminho cheio de alegria» (8,
39); e o carcereiro «entregou-se, com a família, à alegria de ter
acreditado em Deus» (16, 34). Porque não havemos de entrar, também nós,
nesta torrente de alegria?
6. Há cristãos que parecem ter escolhido
viver uma Quaresma sem Páscoa. Reconheço, porém, que a alegria não se
vive da mesma maneira em todas as etapas e circunstâncias da vida, por
vezes muito duras. Adapta-se e transforma-se, mas sempre permanece pelo
menos como um feixe de luz que nasce da certeza pessoal de, não obstante
o contrário, sermos infinitamente amados. Compreendo as pessoas que se
vergam à tristeza por causa das graves dificuldades que têm de suportar,
mas aos poucos é preciso permitir que a alegria da fé comece a
despertar, como uma secreta mas firme confiança, mesmo no meio das
piores angústias: «A paz foi desterrada da minha alma, já nem sei o que é
a felicidade (…). Isto, porém, guardo no meu coração; por isso,
mantenho a esperança. É que a misericórdia do Senhor não acaba, não se
esgota a sua compaixão. Cada manhã ela se renova; é grande a tua
fidelidade. (…) Bom é esperar em silêncio a salvação do Senhor» (Lm 3,
17.21-23.26).
7. A tentação apresenta-se,
frequentemente, sob forma de desculpas e queixas, como se tivesse de
haver inúmeras condições para ser possível a alegria. Habitualmente isto
acontece, porque «a sociedade técnica teve a possibilidade de
multiplicar as ocasiões de prazer; no entanto ela encontra dificuldades
grandes no engendrar também a alegria». Posso dizer que as alegrias mais
belas e espontâneas, que vi ao longo da minha vida, são as alegrias de
pessoas muito pobres que têm pouco a que se agarrar. Recordo também a
alegria genuína daqueles que, mesmo no meio de grandes compromissos
profissionais, souberam conservar um coração crente, generoso e simples.
De várias maneiras, estas alegrias bebem na fonte do amor maior, que é o
de Deus, a nós manifestado em Jesus Cristo. Não me cansarei de repetir
estas palavras de Bento XVI que nos levam ao centro do Evangelho: «Ao
início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas
o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo
horizonte e, desta forma, o rumo decisivo».
8. Somente graças a este encontro – ou
reencontro – com o amor de Deus, que se converte em amizade feliz, é que
somos resgatados da nossa consciência isolada e da
auto-referencialidade. Chegamos a ser plenamente humanos, quando somos
mais do que humanos, quando permitimos a Deus que nos conduza para além
de nós mesmos a fim de alcançarmos o nosso ser mais verdadeiro. Aqui
está a fonte da acção evangelizadora. Porque, se alguém acolheu este
amor que lhe devolve o sentido da vida, como é que pode conter o desejo
de o comunicar aos outros?
II. A doce e reconfortante alegria de evangelizar
9. O bem tende sempre a comunicar-se.
Toda a experiência autêntica de verdade e de beleza procura, por si
mesma, a sua expansão; e qualquer pessoa que viva uma libertação
profunda adquire maior sensibilidade face às necessidades dos outros. E,
uma vez comunicado, o bem radica-se e desenvolve-se. Por isso, quem
deseja viver com dignidade e em plenitude, não tem outro caminho senão
reconhecer o outro e buscar o seu bem. Assim, não nos deveriam
surpreender frases de São Paulo como estas: «O amor de Cristo nos
absorve completamente» (2 Cor 5, 14); «ai de mim, se eu não
evangelizar!» (1 Cor 9, 16).
10. A proposta é viver a um nível
superior, mas não com menor intensidade: «Na doação, a vida se
fortalece; e se enfraquece no comodismo e no isolamento. De facto, os
que mais desfrutam da vida são os que deixam a segurança da margem e se
apaixonam pela missão de comunicar a vida aos demais». Quando a Igreja
faz apelo ao compromisso evangelizador, não faz mais do que indicar aos
cristãos o verdadeiro dinamismo da realização pessoal: «Aqui descobrimos
outra profunda lei da realidade: “A vida se alcança e amadurece à
medida que é entregue para dar vida aos outros”. Isto é,
definitivamente, a missão». Consequentemente, um evangelizador não
deveria ter constantemente uma cara de funeral. Recuperemos e aumentemos
o fervor de espírito, «a suave e reconfortante alegria de evangelizar,
mesmo quando for preciso semear com lágrimas! (…) E que o mundo do nosso
tempo, que procura ora na angústia ora com esperança, possa receber a
Boa Nova dos lábios, não de evangelizadores tristes e descoroçoados,
impacientes ou ansiosos, mas sim de ministros do Evangelho cuja vida
irradie fervor, pois foram quem recebeu primeiro em si a alegria de
Cristo».
Uma eterna novidade
11. Um anúncio renovado proporciona aos
crentes, mesmo tíbios ou não praticantes, uma nova alegria na fé e uma
fecundidade evangelizadora. Na realidade, o seu centro e a sua essência
são sempre o mesmo: o Deus que manifestou o seu amor imenso em Cristo
morto e ressuscitado. Ele torna os seus fiéis sempre novos; ainda que
sejam idosos, «renovam as suas forças. Têm asas como a águia, correm sem
se cansar, marcham sem desfalecer» (Is 40, 31). Cristo é a «Boa-Nova de
valor eterno» (Ap 14, 6), sendo «o mesmo ontem, hoje e pelos séculos»
(Heb 13, 8), mas a sua riqueza e a sua beleza são inesgotáveis. Ele é
sempre jovem, e fonte de constante novidade. A Igreja não cessa de se
maravilhar com a «profundidade de riqueza, de sabedoria e de ciência de
Deus» (Rm 11, 33). São João da Cruz dizia: «Esta espessura de sabedoria e
ciência de Deus é tão profunda e imensa, que, por mais que a alma saiba
dela, sempre pode penetrá-la mais profundamente». Ou ainda, como
afirmava Santo Ireneu: «Na sua vinda, [Cristo] trouxe consigo toda a
novidade». Com a sua novidade, Ele pode sempre renovar a nossa vida e a
nossa comunidade, e a proposta cristã, ainda que atravesse períodos
obscuros e fraquezas eclesiais, nunca envelhece. Jesus Cristo pode
romper também os esquemas enfadonhos em que pretendemos aprisioná-Lo, e
surpreende-nos com a sua constante criatividade divina. Sempre que
procuramos voltar à fonte e recuperar o frescor original do Evangelho,
despontam novas estradas, métodos criativos, outras formas de expressão,
sinais mais eloquentes, palavras cheias de renovado significado para o
mundo actual. Na realidade, toda a acção evangelizadora autêntica é
sempre «nova».
12. Embora esta missão nos exija uma
entrega generosa, seria um erro considerá-la como uma heróica tarefa
pessoal, dado que ela é, primariamente e acima de tudo o que possamos
sondar e compreender, obra de Deus. Jesus é «o primeiro e o maior
evangelizador». Em qualquer forma de evangelização, o primado é sempre
de Deus, que quis chamar-nos para cooperar com Ele e impelir-nos com a
força do seu Espírito. A verdadeira novidade é aquela que o próprio Deus
misteriosamente quer produzir, aquela que Ele inspira, aquela que Ele
provoca, aquela que Ele orienta e acompanha de mil e uma maneiras. Em
toda a vida da Igreja, deve-se sempre manifestar que a iniciativa
pertence a Deus, «porque Ele nos amou primeiro» (1 Jo 4, 19) e é «só
Deus que faz crescer» (1 Cor 3, 7). Esta convicção permite-nos manter a
alegria no meio duma tarefa tão exigente e desafiadora que ocupa
inteiramente a nossa vida. Pede-nos tudo, mas ao mesmo tempo dá-nos
tudo.
13. E também não deveremos entender a
novidade desta missão como um desenraizamento, como um esquecimento da
história viva que nos acolhe e impele para diante. A memória é uma
dimensão da nossa fé, que, por analogia com a memória de Israel,
poderíamos chamar «deuteronómica». Jesus deixa-nos a Eucaristia como
memória quotidiana da Igreja, que nos introduz cada vez mais na Páscoa
(cf. Lc 22, 19). A alegria evangelizadora refulge sempre sobre o
horizonte da memória agradecida: é uma graça que precisamos de pedir. Os
Apóstolos nunca mais esqueceram o momento em que Jesus lhes tocou o
coração: «Eram as quatro horas da tarde» (Jo 1, 39). A memória faz-nos
presente, juntamente com Jesus, uma verdadeira «nuvem de testemunhas»
(Heb 12, 1). De entre elas, distinguem-se algumas pessoas que incidiram
de maneira especial para fazer germinar a nossa alegria crente:
«Recordai-vos dos vossos guias, que vos pregaram a palavra de Deus» (Heb
13, 7). Às vezes, trata-se de pessoas simples e próximas de nós, que
nos iniciaram na vida da fé: «Trago à memória a tua fé sem fingimento,
que se encontrava já na tua avó Lóide e na tua mãe Eunice» (2 Tm 1, 5). O
crente é, fundamentalmente, «uma pessoa que faz memória».
III. A nova evangelização para a transmissão da fé
14. À escuta do Espírito, que nos ajuda a
reconhecer comunitariamente os sinais dos tempos, celebrou-se de 7 a 28
de Outubro de 2012 a XIII Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos
Bispos, sobre o tema A nova evangelização para a transmissão da fé
cristã. Lá foi recordado que a nova evangelização interpela a todos,
realizando-se fundamentalmente em três âmbitos. Em primeiro lugar,
mencionamos o âmbito da pastoral ordinária, «animada pelo fogo do
Espírito a fim de incendiar os corações dos fiéis que frequentam
regularmente a comunidade, reunindo-se no dia do Senhor, para se
alimentarem da sua Palavra e do Pão de vida eterna». Devem ser incluídos
também neste âmbito os fiéis que conservam uma fé católica intensa e
sincera, exprimindo-a de diversos modos, embora não participem
frequentemente no culto. Esta pastoral está orientada para o crescimento
dos crentes, a fim de corresponderem cada vez melhor e com toda a sua
vida ao amor de Deus.
Em segundo lugar, lembramos o âmbito das «pessoas baptizadas que, porém,
não vivem as exigências do Baptismo», não sentem uma pertença cordial à
Igreja e já não experimentam a consolação da fé. Mãe sempre solícita, a
Igreja esforça-se para que elas vivam uma conversão que lhes restitua a
alegria da fé e o desejo de se comprometerem com o Evangelho.
Por fim, frisamos que a evangelização está essencialmente relacionada
com a proclamação do Evangelho àqueles que não conhecem Jesus Cristo ou
que sempre O recusaram. Muitos deles buscam secretamente a Deus, movidos
pela nostalgia do seu rosto, mesmo em países de antiga tradição cristã.
Todos têm o direito de receber o Evangelho. Os cristãos têm o dever de o
anunciar, sem excluir ninguém, e não como quem impõe uma nova
obrigação, mas como quem partilha uma alegria, indica um horizonte
estupendo, oferece um banquete apetecível. A Igreja não cresce por
proselitismo, mas «por atracção».
15. João Paulo II convidou-nos a
reconhecer que «não se pode perder a tensão para o anúncio» àqueles que
estão longe de Cristo, «porque esta é a tarefa primária da Igreja». A
actividade missionária «ainda hoje representa o máximo desafio para a
Igreja» e «a causa missionária deve ser (…) a primeira de todas as
causas». Que sucederia se tomássemos realmente a sério estas palavras?
Simplesmente reconheceríamos que a acção missionária é o paradigma de
toda a obra da Igreja. Nesta linha, os Bispos latino-americanos
afirmaram que «não podemos ficar tranquilos, em espera passiva, em
nossos templos», sendo necessário passar «de uma pastoral de mera
conservação para uma pastoral decididamente missionária». Esta tarefa
continua a ser a fonte das maiores alegrias para a Igreja: «Haverá mais
alegria no Céu por um só pecador que se converte, do que por noventa e
nove justos que não necessitam de conversão» (Lc 15, 7).
A proposta desta Exortação e seus contornos
16. Com prazer, aceitei o convite dos
Padres sinodais para redigir esta Exortação. Para o efeito, recolho a
riqueza dos trabalhos do Sínodo; consultei também várias pessoas e
pretendo, além disso, exprimir as preocupações que me movem neste
momento concreto da obra evangelizadora da Igreja. Os temas relacionados
com a evangelização no mundo actual, que se poderiam desenvolver aqui,
são inumeráveis. Mas renunciei a tratar detalhadamente esta
multiplicidade de questões que devem ser objecto de estudo e
aprofundamento cuidadoso. Penso, aliás, que não se deve esperar do
magistério papal uma palavra definitiva ou completa sobre todas as
questões que dizem respeito à Igreja e ao mundo. Não convém que o Papa
substitua os episcopados locais no discernimento de todas as
problemáticas que sobressaem nos seus territórios. Neste sentido, sinto a
necessidade de proceder a uma salutar «descentralização».
17. Aqui escolhi propor algumas
directrizes que possam encorajar e orientar, em toda a Igreja, uma nova
etapa evangelizadora, cheia de ardor e dinamismo. Neste quadro e com
base na doutrina da Constituição dogmática Lumen gentium, decidi, entre
outros temas, de me deter amplamente sobre as seguintes questões:
a) A reforma da Igreja em saída missionária.
b) As tentações dos agentes pastorais.
c) A Igreja vista como a totalidade do povo de Deus que evangeliza.
d) A homilia e a sua preparação.
e) A inclusão social dos pobres.
f) A paz e o diálogo social.
g) As motivações espirituais para o compromisso missionário.
a) A reforma da Igreja em saída missionária.
b) As tentações dos agentes pastorais.
c) A Igreja vista como a totalidade do povo de Deus que evangeliza.
d) A homilia e a sua preparação.
e) A inclusão social dos pobres.
f) A paz e o diálogo social.
g) As motivações espirituais para o compromisso missionário.
18. Demorei-me nestes temas,
desenvolvendo-os dum modo que talvez possa parecer excessivo. Mas não o
fiz com a intenção de oferecer um tratado, mas só para mostrar a
relevante incidência prática destes assuntos na missão actual da Igreja.
De facto, todos eles ajudam a delinear um preciso estilo evangelizador,
que convido a assumir em qualquer actividade que se realize. E, desta
forma, podemos assumir, no meio do nosso trabalho diário, esta exortação
da Palavra de Deus: «Alegrai-vos sempre no Senhor! De novo vos digo:
alegrai-vos!» (Fl 4, 4).
Capítulo I
A TRANSFORMAÇÃO MISSIONÁRIA DA IGREJA
19. A evangelização obedece ao mandato
missionário de Jesus: «Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos,
baptizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os
a cumprir tudo quanto vos tenho mandado» (Mt 28, 19-20). Nestes
versículos, aparece o momento em que o Ressuscitado envia os seus a
pregar o Evangelho em todos os tempos e lugares, para que a fé n’Ele se
estenda a todos os cantos da terra.
I. Uma Igreja «em saída»
20. Na Palavra de Deus, aparece
constantemente este dinamismo de «saída», que Deus quer provocar nos
crentes. Abraão aceitou a chamada para partir rumo a uma nova terra (cf.
Gn 12, 1-3). Moisés ouviu a chamada de Deus: «Vai; Eu te envio» (Ex 3,
10), e fez sair o povo para a terra prometida (cf. Ex 3, 17). A Jeremias
disse: «Irás aonde Eu te enviar» (Jr 1, 7). Naquele «ide» de Jesus,
estão presentes os cenários e os desafios sempre novos da missão
evangelizadora da Igreja, e hoje todos somos chamados a esta nova
«saída» missionária. Cada cristão e cada comunidade há-de discernir qual
é o caminho que o Senhor lhe pede, mas todos somos convidados a aceitar
esta chamada: sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar
todas as periferias que precisam da luz do Evangelho.
21. A alegria do Evangelho, que enche a
vida da comunidade dos discípulos, é uma alegria missionária.
Experimentam-na os setenta e dois discípulos, que voltam da missão
cheios de alegria (cf. Lc 10, 17). Vive-a Jesus, que exulta de alegria
no Espírito Santo e louva o Pai, porque a sua revelação chega aos pobres
e aos pequeninos (cf. Lc 10, 21). Sentem-na, cheios de admiração, os
primeiros que se convertem no Pentecostes, ao ouvir «cada um na sua
própria língua» (Act 2, 6) a pregação dos Apóstolos. Esta alegria é um
sinal de que o Evangelho foi anunciado e está a frutificar. Mas contém
sempre a dinâmica do êxodo e do dom, de sair de si mesmo, de caminhar e
de semear sempre de novo, sempre mais além. O Senhor diz: «Vamos para
outra parte, para as aldeias vizinhas, a fim de pregar aí, pois foi para
isso que Eu vim» (Mc 1, 38). Ele, depois de lançar a semente num lugar,
não se demora lá a explicar melhor ou a cumprir novos sinais, mas o
Espírito leva-O a partir para outras aldeias.
22. A Palavra possui, em si mesma, uma
tal potencialidade, que não a podemos prever. O Evangelho fala da
semente que, uma vez lançada à terra, cresce por si mesma, inclusive
quando o agricultor dorme (cf. Mc 4, 26-29). A Igreja deve aceitar esta
liberdade incontrolável da Palavra, que é eficaz a seu modo e sob formas
tão variadas que muitas vezes nos escapam, superando as nossas
previsões e quebrando os nossos esquemas.
23. A intimidade da Igreja com Jesus é
uma intimidade itinerante, e a comunhão «reveste essencialmente a forma
de comunhão missionária». Fiel ao modelo do Mestre, é vital que hoje a
Igreja saia para anunciar o Evangelho a todos, em todos os lugares, em
todas as ocasiões, sem demora, sem repugnâncias e sem medo. A alegria do
Evangelho é para todo o povo, não se pode excluir ninguém; assim foi
anunciada pelo anjo aos pastores de Belém: «Não temais, pois anuncio-vos
uma grande alegria, que o será para todo o povo» (Lc 2, 10). O
Apocalipse fala de «uma Boa-Nova de valor eterno para anunciar aos
habitantes da terra: a todas as nações, tribos, línguas e povos» (Ap 14,
6).
«Primeirear», envolver-se, acompanhar, frutificar e festejar
24. A Igreja «em saída» é a comunidade
de discípulos missionários que «primeireiam», que se envolvem, que
acompanham, que frutificam e festejam. Primeireiam – desculpai o
neologismo –, tomam a iniciativa! A comunidade missionária experimenta
que o Senhor tomou a iniciativa, precedeu-a no amor (cf. 1 Jo 4, 10), e,
por isso, ela sabe ir à frente, sabe tomar a iniciativa sem medo, ir ao
encontro, procurar os afastados e chegar às encruzilhadas dos caminhos
para convidar os excluídos. Vive um desejo inexaurível de oferecer
misericórdia, fruto de ter experimentado a misericórdia infinita do Pai e
a sua força difusiva. Ousemos um pouco mais no tomar a iniciativa! Como
consequência, a Igreja sabe «envolver-se». Jesus lavou os pés aos seus
discípulos. O Senhor envolve-Se e envolve os seus, pondo-Se de joelhos
diante dos outros para os lavar; mas, logo a seguir, diz aos discípulos:
«Sereis felizes se o puserdes em prática» (Jo 13, 17). Com obras e
gestos, a comunidade missionária entra na vida diária dos outros,
encurta as distâncias, abaixa-se – se for necessário – até à humilhação e
assume a vida humana, tocando a carne sofredora de Cristo no povo. Os
evangelizadores contraem assim o «cheiro de ovelha», e estas escutam a
sua voz. Em seguida, a comunidade evangelizadora dispõe-se a
«acompanhar». Acompanha a humanidade em todos os seus processos, por
mais duros e demorados que sejam. Conhece as longas esperas e a
suportação apostólica. A evangelização patenteia muita paciência, e
evita deter-se a considerar as limitações. Fiel ao dom do Senhor, sabe
também «frutificar». A comunidade evangelizadora mantém-se atenta aos
frutos, porque o Senhor a quer fecunda. Cuida do trigo e não perde a paz
por causa do joio. O semeador, quando vê surgir o joio no meio do
trigo, não tem reacções lastimosas ou alarmistas. Encontra o modo para
fazer com que a Palavra se encarne numa situação concreta e dê frutos de
vida nova, apesar de serem aparentemente imperfeitos ou defeituosos. O
discípulo sabe oferecer a vida inteira e jogá-la até ao martírio como
testemunho de Jesus Cristo, mas o seu sonho não é estar cheio de
inimigos, mas antes que a Palavra seja acolhida e manifeste a sua força
libertadora e renovadora. Por fim, a comunidade evangelizadora jubilosa
sabe sempre «festejar»: celebra e festeja cada pequena vitória, cada
passo em frente na evangelização. No meio desta exigência diária de
fazer avançar o bem, a evangelização jubilosa torna-se beleza na
liturgia. A Igreja evangeliza e se evangeliza com a beleza da liturgia,
que é também celebração da actividade evangelizadora e fonte dum
renovado impulso para se dar.
II. Pastoral em conversão
25. Não ignoro que hoje os documentos
não suscitam o mesmo interesse que noutras épocas, acabando rapidamente
esquecidos. Apesar disso sublinho que, aquilo que pretendo deixar
expresso aqui, possui um significado programático e tem consequências
importantes. Espero que todas as comunidades se esforcem por actuar os
meios necessários para avançar no caminho duma conversão pastoral e
missionária, que não pode deixar as coisas como estão. Neste momento,
não nos serve uma «simples administração». Constituamo-nos em «estado
permanente de missão», em todas as regiões da terra.
26. Paulo VI convidou a alargar o apelo à
renovação de modo que ressalte, com força, que não se dirige apenas aos
indivíduos, mas à Igreja inteira. Lembremos este texto memorável, que
não perdeu a sua força interpeladora: «A Igreja deve aprofundar a
consciência de si mesma, meditar sobre o seu próprio mistério (…). Desta
consciência esclarecida e operante deriva espontaneamente um desejo de
comparar a imagem ideal da Igreja, tal como Cristo a viu, quis e amou,
ou seja, como sua Esposa santa e imaculada (Ef 5, 27), com o rosto real
que a Igreja apresenta hoje. (…) Em consequência disso, surge uma
necessidade generosa e quase impaciente de renovação, isto é, de emenda
dos defeitos, que aquela consciência denuncia e rejeita, como se fosse
um exame interior ao espelho do modelo que Cristo nos deixou de Si
mesmo».
O Concílio Vaticano II apresentou a conversão eclesial como a abertura a
uma reforma permanente de si mesma por fidelidade a Jesus Cristo: «Toda
a renovação da Igreja consiste essencialmente numa maior fidelidade à
própria vocação. (…) A Igreja peregrina é chamada por Cristo a esta
reforma perene. Como instituição humana e terrena, a Igreja necessita
perpetuamente desta reforma».
Há estruturas eclesiais que podem chegar a condicionar um dinamismo
evangelizador; de igual modo, as boas estruturas servem quando há uma
vida que as anima, sustenta e avalia. Sem vida nova e espírito
evangélico autêntico, sem «fidelidade da Igreja à própria vocação», toda
e qualquer nova estrutura se corrompe em pouco tempo. Uma renovação eclesial inadiável
27. Sonho com uma opção missionária
capaz de transformar tudo, para que os costumes, os estilos, os
horários, a linguagem e toda a estrutura eclesial se tornem um canal
proporcionado mais à evangelização do mundo actual que à
auto-preservação. A reforma das estruturas, que a conversão pastoral
exige, só se pode entender neste sentido: fazer com que todas elas se
tornem mais missionárias, que a pastoral ordinária em todas as suas
instâncias seja mais comunicativa e aberta, que coloque os agentes
pastorais em atitude constante de «saída» e, assim, favoreça a resposta
positiva de todos aqueles a quem Jesus oferece a sua amizade. Como dizia
João Paulo II aos Bispos da Oceânia, «toda a renovação na Igreja há-de
ter como alvo a missão, para não cair vítima duma espécie de introversão
eclesial».
28. A paróquia não é uma estrutura
caduca; precisamente porque possui uma grande plasticidade, pode assumir
formas muito diferentes que requerem a docilidade e a criatividade
missionária do Pastor e da comunidade. Embora não seja certamente a
única instituição evangelizadora, se for capaz de se reformar e adaptar
constantemente, continuará a ser «a própria Igreja que vive no meio das
casas dos seus filhos e das suas filhas». Isto supõe que esteja
realmente em contacto com as famílias e com a vida do povo, e não se
torne uma estrutura complicada, separada das pessoas, nem um grupo de
eleitos que olham para si mesmos. A paróquia é presença eclesial no
território, âmbito para a escuta da Palavra, o crescimento da vida
cristã, o diálogo, o anúncio, a caridade generosa, a adoração e a
celebração. Através de todas as suas actividades, a paróquia incentiva e
forma os seus membros para serem agentes da evangelização. É comunidade
de comunidades, santuário onde os sedentos vão beber para continuarem a
caminhar, e centro de constante envio missionário. Temos, porém, de
reconhecer que o apelo à revisão e renovação das paróquias ainda não deu
suficientemente fruto, tornando-se ainda mais próximas das pessoas,
sendo âmbitos de viva comunhão e participação e orientando-se
completamente para a missão.
29. As outras instituições eclesiais,
comunidades de base e pequenas comunidades, movimentos e outras formas
de associação são uma riqueza da Igreja que o Espírito suscita para
evangelizar todos os ambientes e sectores. Frequentemente trazem um novo
ardor evangelizador e uma capacidade de diálogo com o mundo que renovam
a Igreja. Mas é muito salutar que não percam o contacto com esta
realidade muito rica da paróquia local e que se integrem de bom grado na
pastoral orgânica da Igreja particular. Esta integração evitará que
fiquem só com uma parte do Evangelho e da Igreja, ou que se transformem
em nómades sem raízes.
30. Cada Igreja particular, porção da
Igreja Católica sob a guia do seu Bispo, está, também ela, chamada à
conversão missionária. Ela é o sujeito primário da evangelização,
enquanto é a manifestação concreta da única Igreja num lugar da terra e,
nela, «está verdadeiramente presente e opera a Igreja de Cristo, una,
santa, católica e apostólica». É a Igreja encarnada num espaço concreto,
dotada de todos os meios de salvação dados por Cristo, mas com um rosto
local. A sua alegria de comunicar Jesus Cristo exprime-se tanto na sua
preocupação por anunciá-Lo noutros lugares mais necessitados, como numa
constante saída para as periferias do seu território ou para os novos
âmbitos socioculturais. Procura estar sempre onde fazem mais falta a luz
e a vida do Ressuscitado. Para que este impulso missionário seja cada
vez mais intenso, generoso e fecundo, exorto também cada uma das Igrejas
particulares a entrar decididamente num processo de discernimento,
purificação e reforma.
31. O Bispo deve favorecer sempre a
comunhão missionária na sua Igreja diocesana, seguindo o ideal das
primeiras comunidades cristãs, em que os crentes tinham um só coração e
uma só alma (cf. Act 4, 32) . Para isso, às vezes pôr-se-á à frente para
indicar a estrada e sustentar a esperança do povo, outras vezes
manter-se-á simplesmente no meio de todos com a sua proximidade simples e
misericordiosa e, em certas circunstâncias, deverá caminhar atrás do
povo, para ajudar aqueles que se atrasaram e sobretudo porque o próprio
rebanho possui o olfacto para encontrar novas estradas. Na sua missão de
promover uma comunhão dinâmica, aberta e missionária, deverá estimular e
procurar o amadurecimento dos organismos de participação propostos pelo
Código de Direito Canónico e de outras formas de diálogo pastoral, com o
desejo de ouvir a todos, e não apenas alguns sempre prontos a
lisonjeá-lo. Mas o objectivo destes processos participativos não há-de
ser principalmente a organização eclesial, mas o sonho missionário de
chegar a todos.
32. Dado que sou chamado a viver aquilo
que peço aos outros, devo pensar também numa conversão do papado.
Compete-me, como Bispo de Roma, permanecer aberto às sugestões tendentes
a um exercício do meu ministério que o torne mais fiel ao significado
que Jesus Cristo pretendeu dar-lhe e às necessidades actuais da
evangelização. O Papa João Paulo II pediu que o ajudassem a encontrar
«uma forma de exercício do primado que, sem renunciar de modo algum ao
que é essencial da sua missão, se abra a uma situação nova». Pouco temos
avançado neste sentido. Também o papado e as estruturas centrais da
Igreja universal precisam de ouvir este apelo a uma conversão pastoral. O
Concílio Vaticano II afirmou que, à semelhança das antigas Igrejas
patriarcais, as conferências episcopais podem «aportar uma contribuição
múltipla e fecunda, para que o sentimento colegial leve a aplicações
concretas». Mas este desejo não se realizou plenamente, porque ainda não
foi suficientemente explicitado um estatuto das conferências episcopais
que as considere como sujeitos de atribuições concretas, incluindo
alguma autêntica autoridade doutrinal. Uma centralização excessiva, em
vez de ajudar, complica a vida da Igreja e a sua dinâmica missionária.
33. A pastoral em chave missionária
exige o abandono deste cómodo critério pastoral: «fez-se sempre assim».
Convido todos a serem ousados e criativos nesta tarefa de repensar os
objectivos, as estruturas, o estilo e os métodos evangelizadores das
respectivas comunidades. Uma identificação dos fins, sem uma condigna
busca comunitária dos meios para os alcançar, está condenada a
traduzir-se em mera fantasia. A todos exorto a aplicarem, com
generosidade e coragem, as orientações deste documento, sem impedimentos
nem receios. Importante é não caminhar sozinho, mas ter sempre em conta
os irmãos e, de modo especial, a guia dos Bispos, num discernimento
pastoral sábio e realista.
III. A partir do coração do Evangelho
34. Se pretendemos colocar tudo em chave
missionária, isso aplica-se também à maneira de comunicar a mensagem.
No mundo actual, com a velocidade das comunicações e a selecção
interessada dos conteúdos feita pelos mass-media, a mensagem que
anunciamos corre mais do que nunca o risco de aparecer mutilada e
reduzida a alguns dos seus aspectos secundários. Consequentemente,
algumas questões que fazem parte da doutrina moral da Igreja ficam fora
do contexto que lhes dá sentido. O problema maior ocorre quando a
mensagem que anunciamos parece então identificada com tais aspectos
secundários, que, apesar de serem relevantes, por si sozinhos não
manifestam o coração da mensagem de Jesus Cristo. Portanto, convém ser
realistas e não dar por suposto que os nossos interlocutores conhecem o
horizonte completo daquilo que dizemos ou que eles podem relacionar o
nosso discurso com o núcleo essencial do Evangelho que lhe confere
sentido, beleza e fascínio.
35. Uma pastoral em chave missionária
não está obsessionada pela transmissão desarticulada de uma imensidade
de doutrinas que se tentam impor à força de insistir. Quando se assume
um objectivo pastoral e um estilo missionário, que chegue realmente a
todos sem excepções nem exclusões, o anúncio concentra-se no essencial,
no que é mais belo, mais importante, mais atraente e, ao mesmo tempo,
mais necessário. A proposta acaba simplificada, sem com isso perder
profundidade e verdade, e assim se torna mais convincente e radiosa.
36. Todas as verdades reveladas procedem
da mesma fonte divina e são acreditadas com a mesma fé, mas algumas
delas são mais importantes por exprimir mais directamente o coração do
Evangelho. Neste núcleo fundamental, o que sobressai é a beleza do amor
salvífico de Deus manifestado em Jesus Cristo morto e ressuscitado.
Neste sentido, o Concílio Vaticano II afirmou que «existe uma ordem ou
“hierarquia” das verdades da doutrina católica, já que o nexo delas com o
fundamento da fé cristã é diferente». Isto é válido tanto para os
dogmas da fé como para o conjunto dos ensinamentos da Igreja, incluindo a
doutrina moral.
37. São Tomás de Aquino ensinava que,
também na mensagem moral da Igreja, há uma hierarquia nas virtudes e
acções que delas procedem. Aqui o que conta é, antes de mais nada, «a fé
que actua pelo amor» (Gal 5, 6). As obras de amor ao próximo são a
manifestação externa mais perfeita da graça interior do Espírito: «O
elemento principal da Nova Lei é a graça do Espírito Santo, que se
manifesta através da fé que opera pelo amor». Por isso afirma que,
relativamente ao agir exterior, a misericórdia é a maior de todas as
virtudes: «Em si mesma, a misericórdia é a maior das virtudes; na
realidade, compete-lhe debruçar-se sobre os outros e – o que mais conta –
remediar as misérias alheias. Ora, isto é tarefa especialmente de quem é
superior; é por isso que se diz que é próprio de Deus usar de
misericórdia e é, sobretudo nisto, que se manifesta a sua omnipotência».
38. É importante tirar as consequências
pastorais desta doutrina conciliar, que recolhe uma antiga convicção da
Igreja. Antes de mais nada, deve-se dizer que, no anúncio do Evangelho, é
necessário que haja uma proporção adequada. Esta reconhece-se na
frequência com que se mencionam alguns temas e nas acentuações postas na
pregação. Por exemplo, se um pároco, durante um ano litúrgico, fala dez
vezes sobre a temperança e apenas duas ou três vezes sobre a caridade
ou sobre a justiça, gera-se uma desproporção, acabando obscurecidas
precisamente aquelas virtudes que deveriam estar mais presentes na
pregação e na catequese. E o mesmo acontece quando se fala mais da lei
que da graça, mais da Igreja que de Jesus Cristo, mais do Papa que da
Palavra de Deus.
39. Tal como existe uma unidade orgânica
entre as virtudes que impede de excluir qualquer uma delas do ideal
cristão, assim também nenhuma verdade é negada. Não é preciso mutilar a
integridade da mensagem do Evangelho. Além disso, cada verdade
entende-se melhor se a colocarmos em relação com a totalidade harmoniosa
da mensagem cristã: e, neste contexto, todas as verdades têm a sua
própria importância e iluminam-se reciprocamente. Quando a pregação é
fiel ao Evangelho, manifesta-se com clareza a centralidade de algumas
verdades e fica claro que a pregação moral cristã não é uma ética
estóica, é mais do que uma ascese, não é uma mera filosofia prática nem
um catálogo de pecados e erros. O Evangelho convida, antes de tudo, a
responder a Deus que nos ama e salva, reconhecendo-O nos outros e saindo
de nós mesmos para procurar o bem de todos. Este convite não há-de ser
obscurecido em nenhuma circunstância! Todas as virtudes estão ao serviço
desta resposta de amor. Se tal convite não refulge com vigor e
fascínio, o edifício moral da Igreja corre o risco de se tornar um
castelo de cartas, sendo este o nosso pior perigo; é que, então, não
estaremos propriamente a anunciar o Evangelho, mas algumas acentuações
doutrinais ou morais, que derivam de certas opções ideológicas. A
mensagem correrá o risco de perder o seu frescor e já não ter «o perfume
do Evangelho».
IV. A missão que se encarna nas limitações humanas
40. A Igreja, que é discípula
missionária, tem necessidade de crescer na sua interpretação da Palavra
revelada e na sua compreensão da verdade. A tarefa dos exegetas e
teólogos ajuda a «amadurecer o juízo da Igreja». Embora de modo
diferente, fazem-no também as outras ciências. Referindo-se às ciências
sociais, por exemplo, João Paulo II disse que a Igreja presta atenção às
suas contribuições «para obter indicações concretas que a ajudem no
cumprimento da sua missão de Magistério». Além disso, dentro da Igreja,
há inúmeras questões à volta das quais se indaga e reflecte com grande
liberdade. As diversas linhas de pensamento filosófico, teológico e
pastoral, se se deixam harmonizar pelo Espírito no respeito e no amor,
podem fazer crescer a Igreja, enquanto ajudam a explicitar melhor o
tesouro riquíssimo da Palavra. A quantos sonham com uma doutrina
monolítica defendida sem nuances por todos, isto poderá parecer uma
dispersão imperfeita; mas a realidade é que tal variedade ajuda a
manifestar e desenvolver melhor os diversos aspectos da riqueza
inesgotável do Evangelho.
41. Ao mesmo tempo, as enormes e rápidas
mudanças culturais exigem que prestemos constante atenção ao tentar
exprimir as verdades de sempre numa linguagem que permita reconhecer a
sua permanente novidade; é que, no depósito da doutrina cristã, «uma
coisa é a substância (…) e outra é a formulação que a reveste». Por
vezes, mesmo ouvindo uma linguagem totalmente ortodoxa, aquilo que os
fiéis recebem, devido à linguagem que eles mesmos utilizam e
compreendem, é algo que não corresponde ao verdadeiro Evangelho de Jesus
Cristo. Com a santa intenção de lhes comunicar a verdade sobre Deus e o
ser humano, nalgumas ocasiões, damos-lhes um falso deus ou um ideal
humano que não é verdadeiramente cristão. Deste modo, somos fiéis a uma
formulação, mas não transmitimos a substância. Este é o risco mais
grave. Lembremo-nos de que «a expressão da verdade pode ser multiforme. E
a renovação das formas de expressão torna-se necessária para transmitir
ao homem de hoje a mensagem evangélica no seu significado imutável».
42. Isto possui uma grande relevância no
anúncio do Evangelho, se temos verdadeiramente a peito fazer perceber
melhor a sua beleza e fazê-la acolher por todos. Em todo o caso, não
poderemos jamais tornar os ensinamentos da Igreja uma realidade
facilmente compreensível e felizmente apreciada por todos; a fé conserva
sempre um aspecto de cruz, certa obscuridade que não tira firmeza à sua
adesão. Há coisas que se compreendem e apreciam só a partir desta
adesão que é irmã do amor, para além da clareza com que se possam
compreender as razões e os argumentos. Por isso, é preciso recordar-se
de que cada ensinamento da doutrina deve situar-se na atitude
evangelizadora que desperte a adesão do coração com a proximidade, o
amor e o testemunho.
43. No seu constante discernimento, a
Igreja pode chegar também a reconhecer costumes próprios não
directamente ligados ao núcleo do Evangelho, alguns muito radicados no
curso da história, que hoje já não são interpretados da mesma maneira e
cuja mensagem habitualmente não é percebida de modo adequado. Podem até
ser belos, mas agora não prestam o mesmo serviço à transmissão do
Evangelho. Não tenhamos medo de os rever! Da mesma forma, há normas ou
preceitos eclesiais que podem ter sido muito eficazes noutras épocas,
mas já não têm a mesma força educativa como canais de vida. São Tomás de
Aquino sublinhava que os preceitos dados por Cristo e pelos Apóstolos
ao povo de Deus «são pouquíssimos». E, citando Santo Agostinho,
observava que os preceitos adicionados posteriormente pela Igreja se
devem exigir com moderação, «para não tornar pesada a vida aos fiéis»
nem transformar a nossa religião numa escravidão, quando «a misericórdia
de Deus quis que fosse livre». Esta advertência, feita há vários
séculos, tem uma actualidade tremenda. Deveria ser um dos critérios a
considerar, quando se pensa numa reforma da Igreja e da sua pregação que
permita realmente chegar a todos.
44. Aliás, tanto os Pastores como todos
os fiéis que acompanham os seus irmãos na fé ou num caminho de abertura a
Deus não podem esquecer aquilo que ensina, com muita clareza, o
Catecismo da Igreja Católica: «A imputabilidade e responsabilidade dum
acto podem ser diminuídas, e até anuladas, pela ignorância, a
inadvertência, a violência, o medo, os hábitos, as afeições desordenadas
e outros factores psíquicos ou sociais».
Portanto, sem diminuir o valor do ideal evangélico, é preciso acompanhar, com misericórdia e paciência, as possíveis etapas de crescimento das pessoas, que se vão construindo dia após dia. Aos sacerdotes, lembro que o confessionário não deve ser uma câmara de tortura, mas o lugar da misericórdia do Senhor que nos incentiva a praticar o bem possível. Um pequeno passo, no meio de grandes limitações humanas, pode ser mais agradável a Deus do que a vida externamente correcta de quem transcorre os seus dias sem enfrentar sérias dificuldades. A todos deve chegar a consolação e o estímulo do amor salvífico de Deus, que opera misteriosamente em cada pessoa, para além dos seus defeitos e das suas quedas.
Portanto, sem diminuir o valor do ideal evangélico, é preciso acompanhar, com misericórdia e paciência, as possíveis etapas de crescimento das pessoas, que se vão construindo dia após dia. Aos sacerdotes, lembro que o confessionário não deve ser uma câmara de tortura, mas o lugar da misericórdia do Senhor que nos incentiva a praticar o bem possível. Um pequeno passo, no meio de grandes limitações humanas, pode ser mais agradável a Deus do que a vida externamente correcta de quem transcorre os seus dias sem enfrentar sérias dificuldades. A todos deve chegar a consolação e o estímulo do amor salvífico de Deus, que opera misteriosamente em cada pessoa, para além dos seus defeitos e das suas quedas.
45. Vemos assim que o compromisso
evangelizador se move por entre as limitações da linguagem e das
circunstâncias. Procura comunicar cada vez melhor a verdade do Evangelho
num contexto determinado, sem renunciar à verdade, ao bem e à luz que
pode dar quando a perfeição não é possível. Um coração missionário está
consciente destas limitações, fazendo-se «fraco com os fracos (…) e tudo
para todos» (1 Cor 9, 22). Nunca se fecha, nunca se refugia nas
próprias seguranças, nunca opta pela rigidez auto-defensiva. Sabe que
ele mesmo deve crescer na compreensão do Evangelho e no discernimento
das sendas do Espírito, e assim não renuncia ao bem possível, ainda que
corra o risco de sujar-se com a lama da estrada.
V. Uma mãe de coração aberto
46. A Igreja «em saída» é uma Igreja com
as portas abertas. Sair em direcção aos outros para chegar às
periferias humanas não significa correr pelo mundo sem direcção nem
sentido. Muitas vezes é melhor diminuir o ritmo, pôr de parte a
ansiedade para olhar nos olhos e escutar, ou renunciar às urgências para
acompanhar quem ficou caído à beira do caminho. Às vezes, é como o pai
do filho pródigo, que continua com as portas abertas para, quando este
voltar, poder entrar sem dificuldade.
47. A Igreja é chamada a ser sempre a
casa aberta do Pai. Um dos sinais concretos desta abertura é ter, por
todo o lado, igrejas com as portas abertas. Assim, se alguém quiser
seguir uma moção do Espírito e se aproximar à procura de Deus, não
esbarrará com a frieza duma porta fechada. Mas há outras portas que
também não se devem fechar: todos podem participar de alguma forma na
vida eclesial, todos podem fazer parte da comunidade, e nem sequer as
portas dos sacramentos se deveriam fechar por uma razão qualquer. Isto
vale sobretudo quando se trata daquele sacramento que é a «porta»: o
Baptismo. A Eucaristia, embora constitua a plenitude da vida
sacramental, não é um prémio para os perfeitos, mas um remédio generoso e
um alimento para os fracos. Estas convicções têm também consequências
pastorais, que somos chamados a considerar com prudência e audácia.
Muitas vezes agimos como controladores da graça e não como
facilitadores. Mas a Igreja não é uma alfândega; é a casa paterna, onde
há lugar para todos com a sua vida fadigosa.
48. Se a Igreja inteira assume este
dinamismo missionário, há-de chegar a todos, sem excepção. Mas, a quem
deveria privilegiar? Quando se lê o Evangelho, encontramos uma
orientação muito clara: não tanto aos amigos e vizinhos ricos, mas
sobretudo aos pobres e aos doentes, àqueles que muitas vezes são
desprezados e esquecidos, «àqueles que não têm com que te retribuir» (Lc
14, 14). Não devem subsistir dúvidas nem explicações que debilitem esta
mensagem claríssima. Hoje e sempre, «os pobres são os destinatários
privilegiados do Evangelho», e a evangelização dirigida gratuitamente a
eles é sinal do Reino que Jesus veio trazer. Há que afirmar sem rodeios
que existe um vínculo indissolúvel entre a nossa fé e os pobres. Não os
deixemos jamais sozinhos!
49. Saiamos, saiamos para oferecer a
todos a vida de Jesus Cristo! Repito aqui, para toda a Igreja, aquilo
que muitas vezes disse aos sacerdotes e aos leigos de Buenos Aires:
prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas
estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se
agarrar às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada com ser o
centro, e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos.
Se alguma coisa nos deve santamente inquietar e preocupar a nossa
consciência é que haja tantos irmãos nossos que vivem sem a força, a luz
e a consolação da amizade com Jesus Cristo, sem uma comunidade de fé
que os acolha, sem um horizonte de sentido e de vida. Mais do que o
temor de falhar, espero que nos mova o medo de nos encerrarmos nas
estruturas que nos dão uma falsa protecção, nas normas que nos
transformam em juízes implacáveis, nos hábitos em que nos sentimos
tranquilos, enquanto lá fora há uma multidão faminta e Jesus repete-nos
sem cessar: «Dai-lhes vós mesmos de comer» (Mc 6, 37).
Capítulo II
NA CRISE DO COMPROMISSO COMUNITÁRIO
50. Antes de falar de algumas questões
fundamentais relativas à acção evangelizadora, convém recordar
brevemente o contexto em que temos de viver e agir. É habitual hoje
falar-se dum «excesso de diagnóstico», que nem sempre é acompanhado por
propostas resolutivas e realmente aplicáveis. Por outro lado, também não
nos seria de grande proveito um olhar puramente sociológico, que
tivesse a pretensão, com a sua metodologia, de abraçar toda a realidade
de maneira supostamente neutra e asséptica. O que quero oferecer
situa-se mais na linha dum discernimento evangélico. É o olhar do
discípulo missionário que «se nutre da luz e da força do Espírito
Santo».
51. Não é função do Papa oferecer uma
análise detalhada e completa da realidade contemporânea, mas animo todas
as comunidades a «uma capacidade sempre vigilante de estudar os sinais
dos tempos». Trata-se duma responsabilidade grave, pois algumas
realidades hodiernas, se não encontrarem boas soluções, podem
desencadear processos de desumanização tais que será difícil depois
retroceder. É preciso esclarecer o que pode ser um fruto do Reino e
também o que atenta contra o projecto de Deus. Isto implica não só
reconhecer e interpretar as moções do espírito bom e do espírito mau,
mas também – e aqui está o ponto decisivo – escolher as do espírito bom e
rejeitar as do espírito mau. Pressuponho as várias análises que
ofereceram os outros documentos do Magistério universal, bem como as
propostas pelos episcopados regionais e nacionais. Nesta Exortação,
pretendo debruçar-me, brevemente e numa perspectiva pastoral, apenas
sobre alguns aspectos da realidade que podem deter ou enfraquecer os
dinamismos de renovação missionária da Igreja, seja porque afectam a
vida e a dignidade do povo de Deus, seja porque incidem sobre os
sujeitos que mais directamente participam nas instituições eclesiais e
nas tarefas de evangelização.
I. Alguns desafios do mundo atual
52. A humanidade vive, neste momento,
uma viragem histórica, que podemos constatar nos progressos que se
verificam em vários campos. São louváveis os sucessos que contribuem
para o bem-estar das pessoas, por exemplo, no âmbito da saúde, da
educação e da comunicação. Todavia não podemos esquecer que a maior
parte dos homens e mulheres do nosso tempo vive o seu dia a dia
precariamente, com funestas consequências. Aumentam algumas doenças. O
medo e o desespero apoderam-se do coração de inúmeras pessoas, mesmo nos
chamados países ricos. A alegria de viver frequentemente se desvanece;
crescem a falta de respeito e a violência, a desigualdade social
torna-se cada vez mais patente. É preciso lutar para viver, e muitas
vezes viver com pouca dignidade. Esta mudança de época foi causada pelos
enormes saltos qualitativos, quantitativos, velozes e acumulados que se
verificam no progresso científico, nas inovações tecnológicas e nas
suas rápidas aplicações em diversos âmbitos da natureza e da vida.
Estamos na era do conhecimento e da informação, fonte de novas formas
dum poder muitas vezes anónimo.
Não a uma economia da exclusão
53. Assim como o mandamento «não matar» põe um limite claro para
assegurar o valor da vida humana, assim também hoje devemos dizer «não a
uma economia da exclusão e da desigualdade social». Esta economia mata.
Não é possível que a morte por enregelamento dum idoso sem abrigo não
seja notícia, enquanto o é a descida de dois pontos na Bolsa. Isto é
exclusão. Não se pode tolerar mais o facto de se lançar comida no lixo,
quando há pessoas que passam fome. Isto é desigualdade social. Hoje,
tudo entra no jogo da competitividade e da lei do mais forte, onde o
poderoso engole o mais fraco. Em consequência desta situação, grandes
massas da população vêem-se excluídas e marginalizadas: sem trabalho,
sem perspectivas, num beco sem saída. O ser humano é considerado, em si
mesmo, como um bem de consumo que se pode usar e depois lançar fora.
Assim teve início a cultura do «descartável», que aliás chega a ser
promovida. Já não se trata simplesmente do fenómeno de exploração e
opressão, mas duma realidade nova: com a exclusão, fere-se, na própria
raiz, a pertença à sociedade onde se vive, pois quem vive nas favelas,
na periferia ou sem poder já não está nela, mas fora. Os excluídos não
são «explorados», mas resíduos, «sobras».
54. Neste contexto, alguns defendem
ainda as teorias da «recaída favorável» que pressupõem que todo o
crescimento económico, favorecido pelo livre mercado, consegue por si
mesmo produzir maior equidade e inclusão social no mundo. Esta opinião,
que nunca foi confirmada pelos factos, exprime uma confiança vaga e
ingénua na bondade daqueles que detêm o poder económico e nos mecanismos
sacralizados do sistema económico reinante. Entretanto, os excluídos
continuam a esperar. Para se poder apoiar um estilo de vida que exclui
os outros ou mesmo entusiasmar-se com este ideal egoísta, desenvolveu-se
uma globalização da indiferença. Quase sem nos dar conta, tornamo-nos
incapazes de nos compadecer ao ouvir os clamores alheios, já não
choramos à vista do drama dos outros, nem nos interessamos por cuidar
deles, como se tudo fosse uma responsabilidade de outrem, que não nos
incumbe. A cultura do bem-estar anestesia-nos, a ponto de perdermos a
serenidade se o mercado oferece algo que ainda não compramos, enquanto
todas estas vidas ceifadas por falta de possibilidades nos parecem um
mero espectáculo que não nos incomoda de forma alguma.
Não à nova idolatria do dinheiro
55. Uma das causas desta situação está
na relação estabelecida com o dinheiro, porque aceitamos pacificamente o
seu domínio sobre nós e as nossas sociedades. A crise financeira que
atravessamos faz-nos esquecer que, na sua origem, há uma crise
antropológica profunda: a negação da primazia do ser humano. Criámos
novos ídolos. A adoração do antigo bezerro de ouro (cf. Ex 32, 1-35)
encontrou uma nova e cruel versão no fetichismo do dinheiro e na
ditadura duma economia sem rosto e sem um objectivo verdadeiramente
humano. A crise mundial, que investe as finanças e a economia, põe a
descoberto os seus próprios desequilíbrios e sobretudo a grave carência
duma orientação antropológica que reduz o ser humano apenas a uma das
suas necessidades: o consumo.
56. Enquanto os lucros de poucos crescem
exponencialmente, os da maioria situam-se cada vez mais longe do
bem-estar daquela minoria feliz. Tal desequilíbrio provém de ideologias
que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação
financeira. Por isso, negam o direito de controle dos Estados,
encarregados de velar pela tutela do bem comum. Instaura-se uma nova
tirania invisível, às vezes virtual, que impõe, de forma unilateral e
implacável, as suas leis e as suas regras. Além disso, a dívida e os
respectivos juros afastam os países das possibilidades viáveis da sua
economia, e os cidadãos do seu real poder de compra. A tudo isto vem
juntar-se uma corrupção ramificada e uma evasão fiscal egoísta, que
assumiram dimensões mundiais. A ambição do poder e do ter não conhece
limites. Neste sistema que tende a fagocitar tudo para aumentar os
benefícios, qualquer realidade que seja frágil, como o meio ambiente,
fica indefesa face aos interesses do mercado divinizado, transformados
em regra absoluta.
Não a um dinheiro que governa em vez de servir
57. Por detrás desta atitude,
escondem-se a rejeição da ética e a recusa de Deus. Para a ética,
olha-se habitualmente com um certo desprezo sarcástico; é considerada
contraproducente, demasiado humana, porque relativiza o dinheiro e o
poder. É sentida como uma ameaça, porque condena a manipulação e
degradação da pessoa. Em última instância, a ética leva a Deus que
espera uma resposta comprometida que está fora das categorias do
mercado. Para estas, se absolutizadas, Deus é incontrolável, não
manipulável e até mesmo perigoso, na medida em que chama o ser humano à
sua plena realização e à independência de qualquer tipo de escravidão. A
ética – uma ética não ideologizada – permite criar um equilíbrio e uma
ordem social mais humana. Neste sentido, animo os peritos financeiros e
os governantes dos vários países a considerarem as palavras dum sábio da
antiguidade: «Não fazer os pobres participar dos seus próprios bens é
roubá-los e tirar-lhes a vida. Não são nossos, mas deles, os bens que
aferrolhamos».
58. Uma reforma financeira que tivesse
em conta a ética exigiria uma vigorosa mudança de atitudes por parte dos
dirigentes políticos, a quem exorto a enfrentar este desafio com
determinação e clarividência, sem esquecer naturalmente a especificidade
de cada contexto. O dinheiro deve servir, e não governar! O Papa ama a
todos, ricos e pobres, mas tem a obrigação, em nome de Cristo, de
lembrar que os ricos devem ajudar os pobres, respeitá-los e promovê-los.
Exorto-vos a uma solidariedade desinteressada e a um regresso da
economia e das finanças a uma ética propícia ao ser humano.
Não à desigualdade social que gera violência
59. Hoje, em muitas partes, reclama-se
maior segurança. Mas, enquanto não se eliminar a exclusão e a
desigualdade dentro da sociedade e entre os vários povos será impossível
desarreigar a violência. Acusam-se da violência os pobres e as
populações mais pobres, mas, sem igualdade de oportunidades, as várias
formas de agressão e de guerra encontrarão um terreno fértil que, mais
cedo ou mais tarde, há-de provocar a explosão. Quando a sociedade –
local, nacional ou mundial – abandona na periferia uma parte de si
mesma, não há programas políticos, nem forças da ordem ou serviços
secretos que possam garantir indefinidamente a tranquilidade. Isto não
acontece apenas porque a desigualdade social provoca a reacção violenta
de quantos são excluídos do sistema, mas porque o sistema social e
económico é injusto na sua raiz. Assim como o bem tende a difundir-se,
assim também o mal consentido, que é a injustiça, tende a expandir a sua
força nociva e a minar, silenciosamente, as bases de qualquer sistema
político e social, por mais sólido que pareça. Se cada acção tem
consequências, um mal embrenhado nas estruturas duma sociedade sempre
contém um potencial de dissolução e de morte. É o mal cristalizado nas
estruturas sociais injustas, a partir do qual não podemos esperar um
futuro melhor. Estamos longe do chamado «fim da história», já que as
condições dum desenvolvimento sustentável e pacífico ainda não estão
adequadamente implantadas e realizadas.
60. Os mecanismos da economia actual
promovem uma exacerbação do consumo, mas sabe-se que o consumismo
desenfreado, aliado à desigualdade social, é duplamente daninho para o
tecido social. Assim, mais cedo ou mais tarde, a desigualdade social
gera uma violência que as corridas armamentistas não resolvem nem
poderão resolver jamais. Servem apenas para tentar enganar aqueles que
reclamam maior segurança, como se hoje não se soubesse que as armas e a
repressão violenta, mais do que dar solução, criam novos e piores
conflitos. Alguns comprazem-se simplesmente em culpar, dos próprios
males, os pobres e os países pobres, com generalizações indevidas, e
pretendem encontrar a solução numa «educação» que os tranquilize e
transforme em seres domesticados e inofensivos. Isto torna-se ainda mais
irritante, quando os excluídos vêem crescer este câncer social que é a
corrupção profundamente radicada em muitos países – nos seus Governos,
empresários e instituições – seja qual for a ideologia política dos
governantes.
Alguns desafios culturais
61. Evangelizamos também procurando
enfrentar os diferentes desafios que se nos podem apresentar. Às vezes,
estes manifestam-se em verdadeiros ataques à liberdade religiosa ou em
novas situações de perseguição aos cristãos, que, nalguns países,
atingiram níveis alarmantes de ódio e violência. Em muitos lugares,
trata-se mais de uma generalizada indiferença relativista, relacionada
com a desilusão e a crise das ideologias que se verificou como reacção a
tudo o que pareça totalitário. Isto não prejudica só a Igreja, mas a
vida social em geral. Reconhecemos que, numa cultura onde cada um
pretende ser portador duma verdade subjectiva própria, torna-se difícil
que os cidadãos queiram inserir-se num projecto comum que vai além dos
benefícios e desejos pessoais.
62. Na cultura dominante, ocupa o
primeiro lugar aquilo que é exterior, imediato, visível, rápido,
superficial, provisório. O real cede o lugar à aparência. Em muitos
países, a globalização comportou uma acelerada deterioração das raízes
culturais com a invasão de tendências pertencentes a outras culturas,
economicamente desenvolvidas mas eticamente debilitadas. Assim se
exprimiram, em distintos Sínodos, os Bispos de vários continentes. Há
alguns anos, os Bispos da África, por exemplo, retomando a Encíclica
Sollicitudo rei socialis, assinalaram que muitas vezes se quer
transformar os países africanos em meras «peças de um mecanismo, partes
de uma engrenagem gigantesca. Isto verifica-se com frequência também no
domínio dos meios de comunicação social, os quais, sendo na sua maior
parte geridos por centros situados na parte norte do mundo, nem sempre
têm na devida conta as prioridades e os problemas próprios desses países
e não respeitam a sua fisionomia cultural». De igual modo, os Bispos da
Ásia sublinharam «as influências externas que estão a penetrar nas
culturas asiáticas. Vão surgindo formas novas de comportamento
resultantes da orientação dos mass-media (…). Em consequência disso, os
aspectos negativos dos mass-media e espectáculos estão a ameaçar os
valores tradicionais».
63. A fé católica de muitos povos
encontra-se hoje perante o desafio da proliferação de novos movimentos
religiosos, alguns tendentes ao fundamentalismo e outros que parecem
propor uma espiritualidade sem Deus. Isto, por um lado, é o resultado
duma reacção humana contra a sociedade materialista, consumista e
individualista e, por outro, um aproveitamento das carências da
população que vive nas periferias e zonas pobres, sobrevive no meio de
grandes preocupações humanas e procura soluções imediatas para as suas
necessidades. Estes movimentos religiosos, que se caracterizam pela sua
penetração subtil, vêm colmar, dentro do individualismo reinante, um
vazio deixado pelo racionalismo secularista. Além disso, é necessário
reconhecer que, se uma parte do nosso povo baptizado não sente a sua
pertença à Igreja, isso deve-se também à existência de estruturas com
clima pouco acolhedor nalgumas das nossas paróquias e comunidades, ou à
atitude burocrática com que se dá resposta aos problemas, simples ou
complexos, da vida dos nossos povos. Em muitas partes, predomina o
aspecto administrativo sobre o pastoral, bem como uma sacramentalização
sem outras formas de evangelização.
64. O processo de secularização tende a
reduzir a fé e a Igreja ao âmbito privado e íntimo. Além disso, com a
negação de toda a transcendência, produziu-se uma crescente deformação
ética, um enfraquecimento do sentido do pecado pessoal e social e um
aumento progressivo do relativismo; e tudo isso provoca uma
desorientação generalizada, especialmente na fase tão vulnerável às
mudanças da adolescência e juventude. Como justamente observam os Bispos
dos Estados Unidos da América, enquanto a Igreja insiste na existência
de normas morais objectivas, válidas para todos, «há aqueles que
apresentam esta doutrina como injusta, ou seja, contrária aos direitos
humanos básicos. Tais alegações brotam habitualmente de uma forma de
relativismo moral, que se une consistentemente a uma confiança nos
direitos absolutos dos indivíduos. Nesta perspectiva, a Igreja é sentida
como se estivesse promovendo um convencionalismo particular e
interferisse com a liberdade individual». Vivemos numa sociedade da
informação que nos satura indiscriminadamente de dados, todos postos ao
mesmo nível, e acaba por nos conduzir a uma tremenda superficialidade no
momento de enquadrar as questões morais. Por conseguinte, torna-se
necessária uma educação que ensine a pensar criticamente e ofereça um
caminho de amadurecimento nos valores.
65. Apesar de toda a corrente
secularista que invade a sociedade, em muitos países – mesmo onde o
cristianismo está em minoria – a Igreja Católica é uma instituição
credível perante a opinião pública, fiável no que diz respeito ao âmbito
da solidariedade e preocupação pelos mais indigentes. Em repetidas
ocasiões, ela serviu de medianeira na solução de problemas que afectam a
paz, a concórdia, o meio ambiente, a defesa da vida, os direitos
humanos e civis, etc. E como é grande a contribuição das escolas e das
universidades católicas no mundo inteiro! E é muito bom que assim seja.
Mas, quando levantamos outras questões que suscitam menor acolhimento
público, custa-nos a demonstrar que o fazemos por fidelidade às mesmas
convicções sobre a dignidade da pessoa humana e do bem comum.
66. A família atravessa uma crise
cultural profunda, como todas as comunidades e vínculos sociais. No caso
da família, a fragilidade dos vínculos reveste-se de especial
gravidade, porque se trata da célula básica da sociedade, o espaço onde
se aprende a conviver na diferença e a pertencer aos outros e onde os
pais transmitem a fé aos seus filhos. O matrimónio tende a ser visto
como mera forma de gratificação afectiva, que se pode constituir de
qualquer maneira e modificar-se de acordo com a sensibilidade de cada
um. Mas a contribuição indispensável do matrimónio à sociedade supera o
nível da afectividade e o das necessidades ocasionais do casal. Como
ensinam os Bispos franceses, não provém «do sentimento amoroso, efémero
por definição, mas da profundidade do compromisso assumido pelos esposos
que aceitam entrar numa união de vida total».
67. O individualismo pós-moderno e
globalizado favorece um estilo de vida que debilita o desenvolvimento e a
estabilidade dos vínculos entre as pessoas e distorce os vínculos
familiares. A acção pastoral deve mostrar ainda melhor que a relação com
o nosso Pai exige e incentiva uma comunhão que cura, promove e
fortalece os vínculos interpessoais. Enquanto no mundo, especialmente
nalguns países, se reacendem várias formas de guerras e conflitos, nós,
cristãos, insistimos na proposta de reconhecer o outro, de curar as
feridas, de construir pontes, de estreitar laços e de nos ajudarmos «a
carregar as cargas uns dos outros» (Gal 6, 2). Além disso, vemos hoje
surgir muitas formas de agregação para a defesa de direitos e a
consecução de nobres objectivos. Deste modo se manifesta uma sede de
participação de numerosos cidadãos, que querem ser construtores do
desenvolvimento social e cultural.
Desafios da inculturação da fé
68. O substrato cristão dalguns povos –
sobretudo ocidentais – é uma realidade viva. Aqui encontramos,
especialmente nos mais necessitados, uma reserva moral que guarda
valores de autêntico humanismo cristão. Um olhar de fé sobre a realidade
não pode deixar de reconhecer o que semeia o Espírito Santo.
Significaria não ter confiança na sua acção livre e generosa pensar que
não existem autênticos valores cristãos, onde uma grande parte da
população recebeu o Baptismo e exprime de variadas maneiras a sua fé e
solidariedade fraterna. Aqui há que reconhecer muito mais que «sementes
do Verbo», visto que se trata duma autêntica fé católica com modalidades
próprias de expressão e de pertença à Igreja. Não convém ignorar a
enorme importância que tem uma cultura marcada pela fé, porque, não
obstante os seus limites, esta cultura evangelizada tem, contra os
ataques do secularismo actual, muitos mais recursos do que a mera soma
dos crentes. Uma cultura popular evangelizada contém valores de fé e
solidariedade que podem provocar o desenvolvimento duma sociedade mais
justa e crente, e possui uma sabedoria peculiar que devemos saber
reconhecer com olhar agradecido.
69. Há uma necessidade imperiosa de
evangelizar as culturas para inculturar o Evangelho. Nos países de
tradição católica, tratar-se-á de acompanhar, cuidar e fortalecer a
riqueza que já existe e, nos países de outras tradições religiosas ou
profundamente secularizados, há que procurar novos processos de
evangelização da cultura, ainda que suponham projectos a longo prazo.
Entretanto não podemos ignorar que há sempre uma chamada ao crescimento:
toda a cultura e todo o grupo social necessitam de purificação e
amadurecimento. No caso das culturas populares de povos católicos,
podemos reconhecer algumas fragilidades que precisam ainda de ser
curadas pelo Evangelho: o machismo, o alcoolismo, a violência doméstica,
uma escassa participação na Eucaristia, crenças fatalistas ou
supersticiosas que levam a recorrer à bruxaria, etc. Mas o melhor ponto
de partida para curar e ver-se livre de tais fragilidades é precisamente
a piedade popular.
70. Certo é também que, às vezes, se dá
maior realce a formas exteriores das tradições de grupos concretos ou a
supostas revelações privadas, que se absolutizam, do que ao impulso da
piedade cristã. Há certo cristianismo feito de devoções – próprio duma
vivência individual e sentimental da fé – que, na realidade, não
corresponde a uma autêntica «piedade popular». Alguns promovem estas
expressões sem se preocupar com a promoção social e a formação dos
fiéis, fazendo-o nalguns casos para obter benefícios económicos ou algum
poder sobre os outros. Também não podemos ignorar que, nas últimas
décadas, se produziu uma ruptura na transmissão geracional da fé cristã
no povo católico. É inegável que muitos se sentem desiludidos e deixam
de se identificar com a tradição católica, que cresceu o número de pais
que não baptizam os seus filhos nem os ensinam a rezar, e que há um
certo êxodo para outras comunidades de fé. Algumas causas desta ruptura
são a falta de espaços de diálogo familiar, a influência dos meios de
comunicação, o subjectivismo relativista, o consumismo desenfreado que o
mercado incentiva, a falta de cuidado pastoral pelos mais pobres, a
inexistência dum acolhimento cordial nas nossas instituições, e a
dificuldade que sentimos em recriar a adesão mística da fé num cenário
religioso pluralista.
Desafios das culturas urbanas
71. A nova Jerusalém, a cidade santa
(cf. Ap 21, 2-4), é a meta para onde peregrina toda a humanidade. É
interessante que a revelação nos diga que a plenitude da humanidade e da
história se realiza numa cidade. Precisamos de identificar a cidade a
partir dum olhar contemplativo, isto é, um olhar de fé que descubra Deus
que habita nas suas casas, nas suas ruas, nas suas praças. A presença
de Deus acompanha a busca sincera que indivíduos e grupos efectuam para
encontrar apoio e sentido para a sua vida. Ele vive entre os citadinos
promovendo a solidariedade, a fraternidade, o desejo de bem, de verdade,
de justiça. Esta presença não precisa de ser criada, mas descoberta,
desvendada. Deus não Se esconde de quantos O buscam com coração sincero,
ainda que o façam tacteando, de maneira imprecisa e incerta.
72. Na cidade, o elemento religioso é
mediado por diferentes estilos de vida, por costumes ligados a um
sentido do tempo, do território e das relações que difere do estilo das
populações rurais. Na vida quotidiana, muitas vezes os citadinos lutam
para sobreviver e, nesta luta, esconde-se um sentido profundo da
existência que habitualmente comporta também um profundo sentido
religioso. Precisamos de o contemplar para conseguirmos um diálogo
parecido com o que o Senhor teve com a Samaritana, junto do poço onde
ela procurava saciar a sua sede (cf. Jo 4, 7-26).
73. Novas culturas continuam a formar-se
nestas enormes geografias humanas onde o cristão já não costuma ser
promotor ou gerador de sentido, mas recebe delas outras linguagens,
símbolos, mensagens e paradigmas que oferecem novas orientações de vida,
muitas vezes em contraste com o Evangelho de Jesus. Uma cultura inédita
palpita e está em elaboração na cidade. O Sínodo constatou que as
transformações destas grandes áreas e a cultura que exprimem são, hoje,
um lugar privilegiado da nova evangelização. Isto requer imaginar
espaços de oração e de comunhão com características inovadoras, mais
atraentes e significativas para as populações urbanas. Os ambientes
rurais, devido à influência dos mass-media, não estão imunes destas
transformações culturais que também operam mudanças significativas nas
suas formas de vida.
74. Torna-se necessária uma
evangelização que ilumine os novos modos de se relacionar com Deus, com
os outros e com o ambiente, e que suscite os valores fundamentais. É
necessário chegar aonde são concebidas as novas histórias e paradigmas,
alcançar com a Palavra de Jesus os núcleos mais profundos da alma das
cidades. Não se deve esquecer que a cidade é um âmbito multicultural.
Nas grandes cidades, pode observar-se uma trama em que grupos de pessoas
compartilham as mesmas formas de sonhar a vida e ilusões semelhantes,
constituindo-se em novos sectores humanos, em territórios culturais, em
cidades invisíveis. Na realidade, convivem variadas formas culturais,
mas exercem muitas vezes práticas de segregação e violência. A Igreja é
chamada a ser servidora dum diálogo difícil. Enquanto há citadinos que
conseguem os meios adequados para o desenvolvimento da vida pessoal e
familiar, muitíssimos são também os «não-citadinos», os «meio-citadinos»
ou os «resíduos urbanos». A cidade dá origem a uma espécie de
ambivalência permanente, porque, ao mesmo tempo que oferece aos seus
habitantes infinitas possibilidades, interpõe também numerosas
dificuldades ao pleno desenvolvimento da vida de muitos. Esta
contradição provoca sofrimentos lancinantes. Em muitas partes do mundo,
as cidades são cenário de protestos em massa, onde milhares de
habitantes reclamam liberdade, participação, justiça e várias
reivindicações que, se não forem adequadamente interpretadas, nem pela
força poderão ser silenciadas.
75. Não podemos ignorar que, nas
cidades, facilmente se desenvolve o tráfico de drogas e de pessoas, o
abuso e a exploração de menores, o abandono de idosos e doentes, várias
formas de corrupção e crime. Ao mesmo tempo, o que poderia ser um
precioso espaço de encontro e solidariedade, transforma-se muitas vezes
num lugar de retraimento e desconfiança mútua. As casas e os bairros
constroem-se mais para isolar e proteger do que para unir e integrar. A
proclamação do Evangelho será uma base para restabelecer a dignidade da
vida humana nestes contextos, porque Jesus quer derramar nas cidades
vida em abundância (cf. Jo 10, 10). O sentido unitário e completo da
vida humana proposto pelo Evangelho é o melhor remédio para os males
urbanos, embora devamos reparar que um programa e um estilo uniformes e
rígidos de evangelização não são adequados para esta realidade. Mas
viver a fundo a realidade humana e inserir-se no coração dos desafios
como fermento de testemunho, em qualquer cultura, em qualquer cidade,
melhora o cristão e fecunda a cidade.
II. Tentações dos agentes pastorais
76. Sinto uma enorme gratidão pela
tarefa de quantos trabalham na Igreja. Não quero agora deter-me na
exposição das actividades dos vários agentes pastorais, desde os Bispos
até ao mais simples e ignorado dos serviços eclesiais. Prefiro reflectir
sobre os desafios que todos eles enfrentam no meio da cultura
globalizada actual. Mas, antes de tudo e como dever de justiça, tenho a
dizer que é enorme a contribuição da Igreja no mundo actual. A nossa
tristeza e vergonha pelos pecados de alguns membros da Igreja, e pelos
próprios, não devem fazer esquecer os inúmeros cristãos que dão a vida
por amor: ajudam tantas pessoas seja a curar-se seja a morrer em paz em
hospitais precários, acompanham as pessoas que caíram escravas de
diversos vícios nos lugares mais pobres da terra, prodigalizam-se na
educação de crianças e jovens, cuidam de idosos abandonados por todos,
procuram comunicar valores em ambientes hostis, e dedicam-se de muitas
outras maneiras que mostram o imenso amor à humanidade inspirado por
Deus feito homem. Agradeço o belo exemplo que me dão tantos cristãos que
oferecem a sua vida e o seu tempo com alegria. Este testemunho faz-me
muito bem e me apoia na minha aspiração pessoal de superar o egoísmo
para uma dedicação maior.
77. Apesar disso, como filhos desta
época, todos estamos de algum modo sob o influxo da cultura globalizada
actual, que, sem deixar de apresentar valores e novas possibilidades,
pode também limitar-nos, condicionar-nos e até mesmo combalir-nos.
Reconheço que precisamos de criar espaços apropriados para motivar e
sanar os agentes pastorais, «lugares onde regenerar a sua fé em Jesus
crucificado e ressuscitado, onde compartilhar as próprias questões mais
profundas e as preocupações quotidianas, onde discernir em profundidade e
com critérios evangélicos sobre a própria existência e experiência, com
o objectivo de orientar para o bem e a beleza as próprias opções
individuais e sociais». Ao mesmo tempo, quero chamar a atenção para
algumas tentações que afectam, particularmente nos nossos dias, os
agentes pastorais.
Sim ao desafio duma espiritualidade missionária
78. Hoje nota-se em muitos agentes
pastorais, mesmo pessoas consagradas, uma preocupação exacerbada pelos
espaços pessoais de autonomia e relaxamento, que leva a viver os
próprios deveres como mero apêndice da vida, como se não fizessem parte
da própria identidade. Ao mesmo tempo, a vida espiritual confunde-se com
alguns momentos religiosos que proporcionam algum alívio, mas não
alimentam o encontro com os outros, o compromisso no mundo, a paixão
pela evangelização. Assim, é possível notar em muitos agentes
evangelizadores – não obstante rezem – uma acentuação do individualismo,
uma crise de identidade e um declínio do fervor. São três males que se
alimentam entre si.
79. A cultura mediática e alguns
ambientes intelectuais transmitem, às vezes, uma acentuada desconfiança
quanto à mensagem da Igreja, e um certo desencanto. Em consequência
disso, embora rezando, muitos agentes pastorais desenvolvem uma espécie
de complexo de inferioridade que os leva a relativizar ou esconder a sua
identidade cristã e as suas convicções. Gera-se então um círculo
vicioso, porque assim não se sentem felizes com o que são nem com o que
fazem, não se sentem identificados com a missão evangelizadora, e isto
debilita a entrega. Acabam assim por sufocar a alegria da missão numa
espécie de obsessão por serem como todos os outros e terem o que possuem
os demais. Deste modo, a tarefa da evangelização torna-se forçada e
dedica-se-lhe pouco esforço e um tempo muito limitado.
80. Nos agentes pastorais,
independentemente do estilo espiritual ou da linha de pensamento que
possam ter, desenvolve-se um relativismo ainda mais perigoso que o
doutrinal. Tem a ver com as opções mais profundas e sinceras que
determinam uma forma de vida concreta. Este relativismo prático é agir
como se Deus não existisse, decidir como se os pobres não existissem,
sonhar como se os outros não existissem, trabalhar como se aqueles que
não receberam o anúncio não existissem. É impressionante como até
aqueles que aparentemente dispõem de sólidas convicções doutrinais e
espirituais acabam, muitas vezes, por cair num estilo de vida que os
leva a agarrarem-se a seguranças económicas ou a espaços de poder e de
glória humana que se buscam por qualquer meio, em vez de dar a vida
pelos outros na missão. Não nos deixemos roubar o entusiasmo
missionário!
Não à acédia egoísta
81. Quando mais precisamos dum dinamismo
missionário que leve sal e luz ao mundo, muitos leigos temem que alguém
os convide a realizar alguma tarefa apostólica e procuram fugir de
qualquer compromisso que lhes possa roubar o tempo livre. Hoje, por
exemplo, tornou-se muito difícil nas paróquias conseguir catequistas que
estejam preparados e perseverem no seu dever por vários anos. Mas algo
parecido acontece com os sacerdotes que se preocupam obsessivamente com o
seu tempo pessoal. Isto, muitas vezes, fica-se a dever a que as pessoas
sentem imperiosamente necessidade de preservar os seus espaços de
autonomia, como se uma tarefa de evangelização fosse um veneno perigoso e
não uma resposta alegre ao amor de Deus que nos convoca para a missão e
nos torna completos e fecundos. Alguns resistem a provar até ao fundo o
gosto da missão e acabam mergulhados numa acédia paralisadora.
82. O problema não está sempre no
excesso de actividades, mas sobretudo nas actividades mal vividas, sem
as motivações adequadas, sem uma espiritualidade que impregne a acção e a
torne desejável. Daí que as obrigações cansem mais do que é razoável, e
às vezes façam adoecer. Não se trata duma fadiga feliz, mas tensa,
gravosa, desagradável e, em definitivo, não assumida. Esta acédia
pastoral pode ter origens diversas: alguns caem nela por sustentarem
projectos irrealizáveis e não viverem de bom grado o que poderiam
razoavelmente fazer; outros, por não aceitarem a custosa evolução dos
processos e querem que tudo caia do Céu; outros, por se apegarem a
alguns projectos ou a sonhos de sucesso cultivados pela sua vaidade;
outros, por terem perdido o contacto real com o povo, numa
despersonalização da pastoral que leva a prestar mais atenção à
organização do que às pessoas, acabando assim por se entusiasmarem mais
com a «tabela de marcha» do que com a própria marcha; outros ainda caem
na acédia, por não saberem esperar e quererem dominar o ritmo da vida. A
ânsia hodierna de chegar a resultados imediatos faz com que os agentes
pastorais não tolerem facilmente tudo o que signifique alguma
contradição, um aparente fracasso, uma crítica, uma cruz.
83. Assim se gera a maior ameaça, que «é
o pragmatismo cinzento da vida quotidiana da Igreja, no qual
aparentemente tudo procede dentro da normalidade, mas na realidade a fé
vai-se deteriorando e degenerando na mesquinhez». Desenvolve-se a
psicologia do túmulo, que pouco a pouco transforma os cristãos em múmias
de museu. Desiludidos com a realidade, com a Igreja ou consigo mesmos,
vivem constantemente tentados a apegar-se a uma tristeza melosa, sem
esperança, que se apodera do coração como «o mais precioso elixir do
demónio». Chamados para iluminar e comunicar vida, acabam por se deixar
cativar por coisas que só geram escuridão e cansaço interior e corroem o
dinamismo apostólico. Por tudo isto, permiti que insista: Não deixemos
que nos roubem a alegria da evangelização!
Não ao pessimismo estéril
84. A alegria do Evangelho é tal que nada e ninguém no-la poderá tirar
(cf. Jo 16, 22). Os males do nosso mundo – e os da Igreja – não deveriam
servir como desculpa para reduzir a nossa entrega e o nosso ardor.
Vejamo-los como desafios para crescer. Além disso, o olhar crente é
capaz de reconhecer a luz que o Espírito Santo sempre irradia no meio da
escuridão, sem esquecer que, «onde abundou o pecado, superabundou a
graça» (Rm 5, 20). A nossa fé é desafiada a entrever o vinho em que a
água pode ser transformada, e a descobrir o trigo que cresce no meio do
joio. Cinquenta anos depois do Concílio Vaticano II, apesar de nos
entristecerem as misérias do nosso tempo e estarmos longe de optimismos
ingénuos, um maior realismo não deve significar menor confiança no
Espírito nem menor generosidade. Neste sentido, podemos voltar a ouvir
as palavras pronunciadas pelo Beato João XXIII naquele memorável 11 de
Outubro de 1962: «Chegam-nos aos ouvidos insinuações de almas, ardorosas
sem dúvida no zelo, mas não dotadas de grande sentido de discrição e
moderação. Nos tempos actuais, não vêem senão prevaricações e ruínas.
[...] Mas a nós parece-nos que devemos discordar desses profetas de
desgraças, que anunciam acontecimentos sempre infaustos, como se
estivesse iminente o fim do mundo. Na ordem presente das coisas, a
misericordiosa Providência está-nos levantando para uma ordem de
relações humanas que, por obra dos homens e a maior parte das vezes para
além do que eles esperam, se encaminham para o cumprimento dos seus
desígnios superiores e inesperados, e tudo, mesmo as adversidades
humanas, converge para o bem da Igreja».
85. Uma das tentações mais sérias que
sufoca o fervor e a ousadia é a sensação de derrota que nos transforma
em pessimistas lamurientos e desencantados com cara de vinagre. Ninguém
pode empreender uma luta, se de antemão não está plenamente confiado no
triunfo. Quem começa sem confiança, perdeu de antemão metade da batalha e
enterra os seus talentos. Embora com a dolorosa consciência das
próprias fraquezas, há que seguir em frente, sem se dar por vencido, e
recordar o que disse o Senhor a São Paulo: «Basta-te a minha graça,
porque a força manifesta-se na fraqueza» (2 Cor 12, 9). O triunfo
cristão é sempre uma cruz, mas cruz que é, simultaneamente, estandarte
de vitória, que se empunha com ternura batalhadora contra as investidas
do mal. O mau espírito da derrota é irmão da tentação de separar
prematuramente o trigo do joio, resultado de uma desconfiança ansiosa e
egocêntrica.
86. É verdade que, nalguns lugares, se
produziu uma «desertificação» espiritual, fruto do projecto de
sociedades que querem construir sem Deus ou que destroem as suas raízes
cristãs. Lá, «o mundo cristão está a tornar-se estéril e se esgota como
uma terra excessivamente desfrutada que se transforma em poeira».
Noutros países, a resistência violenta ao cristianismo obriga os
cristãos a viverem a sua fé às escondidas no país que amam. Esta é outra
forma muito triste de deserto. E a própria família ou o lugar de
trabalho podem ser também o tal ambiente árido, onde há que conservar a
fé e procurar irradiá-la. Mas «é precisamente a partir da experiência
deste deserto, deste vazio, que podemos redescobrir a alegria de crer, a
sua importância vital para nós, homens e mulheres. No deserto, é
possível redescobrir o valor daquilo que é essencial para a vida; assim
sendo, no mundo de hoje, há inúmeros sinais da sede de Deus, do sentido
último da vida, ainda que muitas vezes expressos implícita ou
negativamente. E, no deserto, existe sobretudo a necessidade de pessoas
de fé que, com suas próprias vidas, indiquem o caminho para a Terra
Prometida, mantendo assim viva a esperança». Em todo o caso, lá somos
chamados a ser pessoas-cântaro para dar de beber aos outros. Às vezes o
cântaro transforma-se numa pesada cruz, mas foi precisamente na Cruz que
o Senhor, trespassado, Se nos entregou como fonte de água viva. Não
deixemos que nos roubem a esperança!
Sim às relações novas geradas por Jesus Cristo
87. Neste tempo em que as redes e demais
instrumentos da comunicação humana alcançaram progressos inauditos,
sentimos o desafio de descobrir e transmitir a «mística» de viver
juntos, misturar-nos, encontrar-nos, dar o braço, apoiar-nos, participar
nesta maré um pouco caótica que pode transformar-se numa verdadeira
experiência de fraternidade, numa caravana solidária, numa peregrinação
sagrada. Assim, as maiores possibilidades de comunicação traduzir-se-ão
em novas oportunidades de encontro e solidariedade entre todos. Como
seria bom, salutar, libertador, esperançoso, se pudéssemos trilhar este
caminho! Sair de si mesmo para se unir aos outros faz bem. Fechar-se em
si mesmo é provar o veneno amargo da imanência, e a humanidade perderá
com cada opção egoísta que fizermos.
88. O ideal cristão convidará sempre a
superar a suspeita, a desconfiança permanente, o medo de sermos
invadidos, as atitudes defensivas que nos impõe o mundo actual. Muitos
tentam escapar dos outros fechando-se na sua privacidade confortável ou
no círculo reduzido dos mais íntimos, e renunciam ao realismo da
dimensão social do Evangelho. Porque, assim como alguns quiseram um
Cristo puramente espiritual, sem carne nem cruz, também se pretendem
relações interpessoais mediadas apenas por sofisticados aparatos, por
ecrãs e sistemas que se podem acender e apagar à vontade. Entretanto o
Evangelho convida-nos sempre a abraçar o risco do encontro com o rosto
do outro, com a sua presença física que interpela, com o seu sofrimentos
e suas reivindicações, com a sua alegria contagiosa permanecendo lado a
lado. A verdadeira fé no Filho de Deus feito carne é inseparável do dom
de si mesmo, da pertença à comunidade, do serviço, da reconciliação com
a carne dos outros. Na sua encarnação, o Filho de Deus convidou-nos à
revolução da ternura.
89. O isolamento, que é uma
concretização do imanentismo, pode exprimir-se numa falsa autonomia que
exclui Deus, mas pode também encontrar na religião uma forma de
consumismo espiritual à medida do próprio individualismo doentio. O
regresso ao sagrado e a busca espiritual, que caracterizam a nossa
época. são fenómenos ambíguos. Mais do que o ateísmo, o desafio que hoje
se nos apresenta é responder adequadamente à sede de Deus de muitas
pessoas, para que não tenham de ir apagá-la com propostas alienantes ou
com um Jesus Cristo sem carne e sem compromisso com o outro. Se não
encontram na Igreja uma espiritualidade que os cure, liberte, encha de
vida e de paz, ao mesmo tempo que os chame à comunhão solidária e à
fecundidade missionária, acabarão enganados por propostas que não
humanizam nem dão glória a Deus.
90. As formas próprias da religiosidade
popular são encarnadas, porque brotaram da encarnação da fé cristã numa
cultura popular. Por isso mesmo, incluem uma relação pessoal, não com
energias harmonizadoras, mas com Deus, Jesus Cristo, Maria, um Santo.
Têm carne, têm rostos. Estão aptas para alimentar potencialidades
relacionais e não tanto fugas individualistas. Noutros sectores da nossa
sociedade, cresce o apreço por várias formas de «espiritualidade do
bem-estar» sem comunidade, por uma «teologia da prosperidade» sem
compromissos fraternos ou por experiências subjectivas sem rostos, que
se reduzem a uma busca interior imanentista.
91. Um desafio importante é mostrar que a
solução nunca consistirá em escapar de uma relação pessoal e
comprometida com Deus, que ao mesmo tempo nos comprometa com os outros.
Isto é o que se verifica hoje quando os crentes procuram esconder-se e
livrar-se dos outros, e quando subtilmente escapam de um lugar para
outro ou de uma tarefa para outra, sem criar vínculos profundos e
estáveis: «A imaginação e mudança de lugares enganou a muitos». É um
remédio falso que faz adoecer o coração e, às vezes, o corpo. Faz falta
ajudar a reconhecer que o único caminho é aprender a encontrar os demais
com a atitude adequada, que é valorizá-los e aceitá-los como
companheiros de estrada, sem resistências interiores. Melhor ainda,
trata-se de aprender a descobrir Jesus no rosto dos outros, na sua voz,
nas suas reivindicações; e aprender também a sofrer, num abraço com
Jesus crucificado, quando recebemos agressões injustas ou ingratidões,
sem nos cansarmos jamais de optar pela fraternidade.
92. Nisto está a verdadeira cura: de
facto, o modo de nos relacionarmos com os outros que, em vez de nos
adoecer, nos cura é uma fraternidade mística, contemplativa, que sabe
ver a grandeza sagrada do próximo, que sabe descobrir Deus em cada ser
humano, que sabe tolerar as moléstias da convivência agarrando-se ao
amor de Deus, que sabe abrir o coração ao amor divino para procurar a
felicidade dos outros como a procura o seu Pai bom. Precisamente nesta
época, inclusive onde são um «pequenino rebanho» (Lc 12, 32), os
discípulos do Senhor são chamados a viver como comunidade que seja sal
da terra e luz do mundo (cf. Mt 5, 13-16). São chamados a testemunhar,
de forma sempre nova, uma pertença evangelizadora. Não deixemos que nos
roubem a comunidade!
Não ao mundanismo espiritual
93. O mundanismo espiritual, que se
esconde por detrás de aparências de religiosidade e até mesmo de amor à
Igreja, é buscar, em vez da glória do Senhor, a glória humana e o
bem-estar pessoal. É aquilo que o Senhor censurava aos fariseus: «Como
vos é possível acreditar, se andais à procura da glória uns dos outros, e
não procurais a glória que vem do Deus único?» (Jo 5, 44). É uma
maneira subtil de procurar «os próprios interesses, não os interesses de
Jesus Cristo» (Fl 2, 21). Reveste-se de muitas formas, de acordo com o
tipo de pessoas e situações em que penetra. Por cultivar o cuidado da
aparência, nem sempre suscita pecados de domínio público, pelo que
externamente tudo parece correcto. Mas, se invadisse a Igreja, «seria
infinitamente mais desastroso do que qualquer outro mundanismo meramente
moral».
94. Este mundanismo pode alimentar-se
sobretudo de duas maneiras profundamente relacionadas. Uma delas é o
fascínio do gnosticismo, uma fé fechada no subjectivismo, onde apenas
interessa uma determinada experiência ou uma série de raciocínios e
conhecimentos que supostamente confortam e iluminam, mas, em última
instância, a pessoa fica enclausurada na imanência da sua própria razão
ou dos seus sentimentos. A outra maneira é o neopelagianismo
auto-referencial e prometeuco de quem, no fundo, só confia nas suas
próprias forças e se sente superior aos outros por cumprir determinadas
normas ou por ser irredutivelmente fiel a um certo estilo católico
próprio do passado. É uma suposta segurança doutrinal ou disciplinar que
dá lugar a um elitismo narcisista e autoritário, onde, em vez de
evangelizar, se analisam e classificam os demais e, em vez de facilitar o
acesso à graça, consomem-se as energias a controlar. Em ambos os casos,
nem Jesus Cristo nem os outros interessam verdadeiramente. São
manifestações dum imanentismo antropocêntrico. Não é possível imaginar
que, destas formas desvirtuadas do cristianismo, possa brotar um
autêntico dinamismo evangelizador.
95. Este obscuro mundanismo manifesta-se
em muitas atitudes, aparentemente opostas mas com a mesma pretensão de
«dominar o espaço da Igreja». Nalguns, há um cuidado exibicionista da
liturgia, da doutrina e do prestígio da Igreja, mas não se preocupam que
o Evangelho adquira uma real inserção no povo fiel de Deus e nas
necessidades concretas da história. Assim, a vida da Igreja
transforma-se numa peça de museu ou numa possessão de poucos. Noutros, o
próprio mundanismo espiritual esconde-se por detrás do fascínio de
poder mostrar conquistas sociais e políticas, ou numa vanglória ligada à
gestão de assuntos práticos, ou numa atracção pelas dinâmicas de
auto-estima e de realização autoreferencial. Também se pode traduzir em
várias formas de se apresentar a si mesmo envolvido numa densa vida
social cheia de viagens, reuniões, jantares, recepções. Ou então
desdobra-se num funcionalismo empresarial, carregado de estatísticas,
planificações e avaliações, onde o principal beneficiário não é o povo
de Deus mas a Igreja como organização. Em qualquer um dos casos, não
traz o selo de Cristo encarnado, crucificado e ressuscitado, encerra-se
em grupos de elite, não sai realmente à procura dos que andam perdidos
nem das imensas multidões sedentas de Cristo. Já não há ardor
evangélico, mas o gozo espúrio duma autocomplacência egocêntrica.
96. Neste contexto, alimenta-se a
vanglória de quantos se contentam com ter algum poder e preferem ser
generais de exércitos derrotados antes que simples soldados dum batalhão
que continua a lutar. Quantas vezes sonhamos planos apostólicos
expansionistas, meticulosos e bem traçados, típicos de generais
derrotados! Assim negamos a nossa história de Igreja, que é gloriosa por
ser história de sacrifícios, de esperança, de luta diária, de vida
gasta no serviço, de constância no trabalho fadigoso, porque todo o
trabalho é «suor do nosso rosto». Em vez disso, entretemo-nos vaidosos a
falar sobre «o que se deveria fazer» – o pecado do «deveriaqueísmo» –
como mestres espirituais e peritos de pastoral que dão instruções
ficando de fora. Cultivamos a nossa imaginação sem limites e perdemos o
contacto com a dolorosa realidade do nosso povo fiel.
97. Quem caiu neste mundanismo olha de
cima e de longe, rejeita a profecia dos irmãos, desqualifica quem o
questiona, faz ressaltar constantemente os erros alheios e vive obcecado
pela aparência. Circunscreveu os pontos de referência do coração ao
horizonte fechado da sua imanência e dos seus interesses e,
consequentemente, não aprende com os seus pecados nem está
verdadeiramente aberto ao perdão. É uma tremenda corrupção, com
aparências de bem. Devemos evitá-lo, pondo a Igreja em movimento de
saída de si mesma, de missão centrada em Jesus Cristo, de entrega aos
pobres. Deus nos livre de uma Igreja mundana sob vestes espirituais ou
pastorais! Este mundanismo asfixiante cura-se saboreando o ar puro do
Espírito Santo, que nos liberta de estarmos centrados em nós mesmos,
escondidos numa aparência religiosa vazia de Deus. Não deixemos que nos
roubem o Evangelho!
Não à guerra entre nós
98. Dentro do povo de Deus e nas
diferentes comunidades, quantas guerras! No bairro, no local de
trabalho, quantas guerras por invejas e ciúmes, mesmo entre cristãos! O
mundanismo espiritual leva alguns cristãos a estar em guerra com outros
cristãos que se interpõem na sua busca pelo poder, prestígio, prazer ou
segurança económica. Além disso, alguns deixam de viver uma adesão
cordial à Igreja por alimentar um espírito de contenda. Mais do que
pertencer à Igreja inteira, com a sua rica diversidade, pertencem a este
ou àquele grupo que se sente diferente ou especial.
99. O mundo está dilacerado pelas
guerras e a violência, ou ferido por um generalizado individualismo que
divide os seres humanos e põe-nos uns contra os outros visando o próprio
bem-estar. Em vários países, ressurgem conflitos e antigas divisões que
se pensavam em parte superados. Aos cristãos de todas as comunidades do
mundo, quero pedir-lhes de modo especial um testemunho de comunhão
fraterna, que se torne fascinante e resplandecente. Que todos possam
admirar como vos preocupais uns pelos outros, como mutuamente vos
encorajais animais e ajudais: «Por isto é que todos conhecerão que sois
meus discípulos: se vos amardes uns aos outros» (Jo 13, 35). Foi o que
Jesus, com uma intensa oração, Jesus pediu ao Pai: «Que todos sejam um
só (…) em nós [para que] o mundo creia» (Jo 17, 21). Cuidado com a
tentação da inveja! Estamos no mesmo barco e vamos para o mesmo porto!
Peçamos a graça de nos alegrarmos com os frutos alheios, que são de
todos.
100. Para quantos estão feridos por
antigas divisões, resulta difícil aceitar que os exortemos ao perdão e à
reconciliação, porque pensam que ignoramos a sua dor ou pretendemos
fazer-lhes perder a memória e os ideais. Mas, se virem o testemunho de
comunidades autenticamente fraternas e reconciliadas, isso é sempre uma
luz que atrai. Por isso me dói muito comprovar como nalgumas comunidades
cristãs, e mesmo entre pessoas consagradas, se dá espaço a várias
formas de ódio, divisão, calúnia, difamação, vingança, ciúme, a desejos
de impor as próprias ideias a todo o custo, e até perseguições que
parecem uma implacável caça às bruxas. Quem queremos evangelizar com
estes comportamentos?
101. Peçamos ao Senhor que nos faça
compreender a lei do amor. Que bom é termos esta lei! Como nos faz bem,
apesar de tudo amar-nos uns aos outros! Sim, apesar de tudo! A cada um
de nós é dirigida a exortação de Paulo: «Não te deixes vencer pelo mal,
mas vence o mal com o bem» (Rm 12, 21). E ainda: «Não nos cansemos de
fazer o bem» (Gal 6, 9). Todos nós provamos simpatias e antipatias, e
talvez neste momento estejamos chateados com alguém. Pelo menos digamos
ao Senhor: «Senhor, estou chateado com este, com aquela. Peço-Vos por
ele e por ela». Rezar pela pessoa com quem estamos irritados é um belo
passo rumo ao amor, e é um acto de evangelização. Façamo-lo hoje mesmo.
Não deixemos que nos roubem o ideal do amor fraterno!
Outros desafios eclesiais
102. A imensa maioria do povo de Deus é
constituída por leigos. Ao seu serviço, está uma minoria: os ministros
ordenados. Cresceu a consciência da identidade e da missão dos leigos na
Igreja. Embora não suficiente, pode-se contar com um numeroso laicado,
dotado de um arreigado sentido de comunidade e uma grande fidelidade ao
compromisso da caridade, da catequese, da celebração da fé. Mas, a
tomada de consciência desta responsabilidade laical que nasce do
Baptismo e da Confirmação não se manifesta de igual modo em toda a
parte; nalguns casos, porque não se formaram para assumir
responsabilidades importantes, noutros por não encontrar espaço nas suas
Igrejas particulares para poderem exprimir-se e agir por causa dum
excessivo clericalismo que os mantém à margem das decisões. Apesar de se
notar uma maior participação de muitos nos ministérios laicais, este
compromisso não se reflecte na penetração dos valores cristãos no mundo
social, político e económico; limita-se muitas vezes às tarefas no seio
da Igreja, sem um empenhamento real pela aplicação do Evangelho na
transformação da sociedade. A formação dos leigos e a evangelização das
categorias profissionais e intelectuais constituem um importante desafio
pastoral.
103. A Igreja reconhece a indispensável
contribuição da mulher na sociedade, com uma sensibilidade, uma intuição
e certas capacidades peculiares, que habitualmente são mais próprias
das mulheres que dos homens. Por exemplo, a especial solicitude feminina
pelos outros, que se exprime de modo particular, mas não
exclusivamente, na maternidade. Vejo, com prazer, como muitas mulheres
partilham responsabilidades pastorais juntamente com os sacerdotes,
contribuem para o acompanhamento de pessoas, famílias ou grupos e
prestam novas contribuições para a reflexão teológica. Mas ainda é
preciso ampliar os espaços para uma presença feminina mais incisiva na
Igreja. Porque «o génio feminino é necessário em todas as expressões da
vida social; por isso deve ser garantida a presença das mulheres também
no âmbito do trabalho» e nos vários lugares onde se tomam as decisões
importantes, tanto na Igreja como nas estruturas sociais.
104. As reivindicações dos legítimos
direitos das mulheres, a partir da firme convicção de que homens e
mulheres têm a mesma dignidade, colocam à Igreja questões profundas que a
desafiam e não se podem iludir superficialmente. O sacerdócio reservado
aos homens, como sinal de Cristo Esposo que Se entrega na Eucaristia, é
uma questão que não se põe em discussão, mas pode tornar-se
particularmente controversa se se identifica demasiado a potestade
sacramental com o poder. Não se esqueça que, quando falamos da potestade
sacerdotal, «estamos na esfera da função e não na da dignidade e da
santidade». O sacerdócio ministerial é um dos meios que Jesus utiliza ao
serviço do seu povo, mas a grande dignidade vem do Baptismo, que é
acessível a todos. A configuração do sacerdote com Cristo Cabeça – isto
é, como fonte principal da graça – não comporta uma exaltação que o
coloque por cima dos demais. Na Igreja, as funções «não dão justificação
à superioridade de uns sobre os outros». Com efeito, uma mulher, Maria,
é mais importante do que os Bispos. Mesmo quando a função do sacerdócio
ministerial é considerada «hierárquica», há que ter bem presente que
«se ordena integralmente à santidade dos membros do corpo místico de
Cristo». A sua pedra de fecho e o seu fulcro não são o poder entendido
como domínio, mas a potestade de administrar o sacramento da Eucaristia;
daqui deriva a sua autoridade, que é sempre um serviço ao povo. Aqui
está um grande desafio para os Pastores e para os teólogos, que poderiam
ajudar a reconhecer melhor o que isto implica no que se refere ao
possível lugar das mulheres onde se tomam decisões importantes, nos
diferentes âmbitos da Igreja.
105. A pastoral juvenil, tal como
estávamos habituados a desenvolvê-la, sofreu o impacto das mudanças
sociais. Nas estruturas ordinárias, os jovens habitualmente não
encontram respostas para as suas preocupações, necessidades, problemas e
feridas. A nós, adultos, custa-nos ouvi-los com paciência, compreender
as suas preocupações ou as suas reivindicações, e aprender a falar-lhes
na linguagem que eles entendem. Pela mesma razão, as propostas
educacionais não produzem os frutos esperados. A proliferação e o
crescimento de associações e movimentos predominantemente juvenis podem
ser interpretados como uma acção do Espírito que abre caminhos novos em
sintonia com as suas expectativas e a busca de espiritualidade profunda e
dum sentido mais concreto de pertença. Todavia é necessário tornar mais
estável a participação destas agregações no âmbito da pastoral de
conjunto da Igreja.
106. Embora nem sempre seja fácil
abordar os jovens, houve crescimento em dois aspectos: a consciência de
que toda a comunidade os evangeliza e educa, e a urgência de que eles
tenham um protagonismo maior. Deve-se reconhecer que, no actual contexto
de crise do compromisso e dos laços comunitários, são muitos os jovens
que se solidarizam contra os males do mundo, aderindo a várias formas de
militância e voluntariado. Alguns participam na vida da Igreja,
integram grupos de serviço e diferentes iniciativas missionárias nas
suas próprias dioceses ou noutros lugares. Como é bom que os jovens
sejam «caminheiros da fé», felizes por levarem Jesus Cristo a cada
esquina, a cada praça, a cada canto da terra!
107. Em muitos lugares, há escassez de
vocações ao sacerdócio e à vida consagrada. Frequentemente isso fica-se a
dever à falta de ardor apostólico contagioso nas comunidades, pelo que
estas não entusiasmam nem fascinam. Onde há vida, fervor, paixão de
levar Cristo aos outros, surgem vocações genuínas. Mesmo em paróquias
onde os sacerdotes não são muito disponíveis nem alegres, é a vida
fraterna e fervorosa da comunidade que desperta o desejo de se consagrar
inteiramente a Deus e à evangelização, especialmente se essa comunidade
vivente reza insistentemente pelas vocações e tem a coragem de propor
aos seus jovens um caminho de especial consagração. Por outro lado,
apesar da escassez vocacional, hoje temos noção mais clara da
necessidade de melhor selecção dos candidatos ao sacerdócio. Não se
podem encher os seminários com qualquer tipo de motivações, e menos
ainda se estas estão relacionadas com insegurança afectiva, busca de
formas de poder, glória humana ou bem-estar económico.
108. Como já disse, não pretendi
oferecer um diagnóstico completo, mas convido as comunidades a
completarem e a enriquecerem estas perspectivas a partir da consciência
dos desafios próprios e das comunidades vizinhas. Espero que, ao
fazê-lo, tenham em conta que, todas as vezes que intentamos ler os
sinais dos tempos na realidade actual, é conveniente ouvir os jovens e
os idosos. Tanto uns como outros são a esperança dos povos. Os idosos
fornecem a memória e a sabedoria da experiência, que convida a não
repetir tontamente os mesmos erros do passado. Os jovens chamam-nos a
despertar e a aumentar a esperança, porque trazem consigo as novas
tendências da humanidade e abrem-nos ao futuro, de modo que não fiquemos
encalhados na nostalgia de estruturas e costumes que já não são fonte
de vida no mundo actual.
109. Os desafios existem para ser
superados. Sejamos realistas, mas sem perder a alegria, a audácia e a
dedicação cheia de esperança. Não deixemos que nos roubem a força
missionária!
Capítulo III
O ANÚNCIO DO EVANGELHO
O ANÚNCIO DO EVANGELHO
110. Depois de considerar alguns
desafios da realidade actual, quero agora recordar o dever que incumbe
sobre nós em toda e qualquer época e lugar, porque «não pode haver
verdadeira evangelização sem o anúncio explícito de Jesus como Senhor» e
sem existir uma «primazia do anúncio de Jesus Cristo em qualquer
trabalho de evangelização». Recolhendo as preocupações dos Bispos
asiáticos, João Paulo II afirmou que, se a Igreja «deve realizar o seu
destino providencial, então uma evangelização entendida como o jubiloso,
paciente e progressivo anúncio da Morte salvífica e Ressurreição de
Jesus Cristo há-de ser a vossa prioridade absoluta». Isto é válido para
todos.
I. Todo o povo de Deus anuncia o Evangelho
111. A evangelização é dever da Igreja.
Este sujeito da evangelização, porém, é mais do que uma instituição
orgânica e hierárquica; é, antes de tudo, um povo que peregrina para
Deus. Trata-se certamente de um mistério que mergulha as raízes na
Trindade, mas tem a sua concretização histórica num povo peregrino e
evangelizador, que sempre transcende toda a necessária expressão
institucional. Proponho que nos detenhamos um pouco nesta forma de
compreender a Igreja, que tem o seu fundamento último na iniciativa
livre e gratuita de Deus.
Um povo para todos
112. A salvação, que Deus nos oferece, é
obra da sua misericórdia. Não há acção humana, por melhor que seja, que
nos faça merecer tão grande dom. Por pura graça, Deus atrai-nos para
nos unir a Si. Envia o seu Espírito aos nossos corações, para nos fazer
seus filhos, para nos transformar e tornar capazes de responder com a
nossa vida ao seu amor. A Igreja é enviada por Jesus Cristo como
sacramento da salvação oferecida por Deus. Através da sua acção
evangelizadora, ela colabora como instrumento da graça divina, que opera
incessantemente para além de toda e qualquer possível supervisão. Bem o
exprimiu Bento XVI, ao abrir as reflexões do Sínodo: «É sempre
importante saber que a primeira palavra, a iniciativa verdadeira, a
actividade verdadeira vem de Deus e só inserindo-nos nesta iniciativa
divina, só implorando esta iniciativa divina, nos podemos tornar também –
com Ele e n’Ele – evangelizadores». O princípio da primazia da graça
deve ser um farol que ilumine constantemente as nossas reflexões sobre a
evangelização.
113. Esta salvação, que Deus realiza e a
Igreja jubilosamente anuncia, é para todos, e Deus criou um caminho
para Se unir a cada um dos seres humanos de todos os tempos. Escolheu
convocá-los como povo, e não como seres isolados. Ninguém se salva
sozinho, isto é, nem como indivíduo isolado, nem por suas próprias
forças. Deus atrai-nos, no respeito da complexa trama de relações
interpessoais que a vida numa comunidade humana supõe. Este povo, que
Deus escolheu para Si e convocou, é a Igreja. Jesus não diz aos
Apóstolos para formarem um grupo exclusivo, um grupo de elite. Jesus
diz: «Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos» (Mt 28, 19). São
Paulo afirma que no povo de Deus, na Igreja, «não há judeu nem grego
(…), porque todos sois um só em Cristo Jesus» (Gal 3, 28). Eu gostaria
de dizer àqueles que se sentem longe de Deus e da Igreja, aos que têm
medo ou aos indiferentes: o Senhor também te chama para seres parte do
seu povo, e fá-lo com grande respeito e amor!
114. Ser Igreja significa ser povo de
Deus, de acordo com o grande projecto de amor do Pai. Isto implica ser o
fermento de Deus no meio da humanidade; quer dizer anunciar e levar a
salvação de Deus a este nosso mundo, que muitas vezes se sente perdido,
necessitado de ter respostas que encorajem, dêem esperança e novo vigor
para o caminho. A Igreja deve ser o lugar da misericórdia gratuita, onde
todos possam sentir-se acolhidos, amados, perdoados e animados a
viverem segundo a vida boa do Evangelho.
Um povo com muitos rostos
115. Este Povo de Deus encarna-se nos
povos da Terra, cada um dos quais tem a sua cultura própria. A noção de
cultura é um instrumento precioso para compreender as diversas
expressões da vida cristã que existem no povo de Deus. Trata-se do
estilo de vida que uma determinada sociedade possui, da forma peculiar
que têm os seus membros de se relacionar entre si, com as outras
criaturas e com Deus. Assim entendida, a cultura abrange a totalidade da
vida dum povo. Cada povo, na sua evolução histórica, desenvolve a
própria cultura com legítima autonomia. Isso fica-se a dever ao facto de
que a pessoa humana, «por sua natureza, necessita absolutamente da vida
social» e mantém contínua referência à sociedade, na qual vive uma
maneira concreta de se relacionar com a realidade. O ser humano está
sempre culturalmente situado: «natureza e cultura encontram-se
intimamente ligadas». A graça supõe a cultura, e o dom de Deus
encarna-se na cultura de quem o recebe.
116. Ao longo destes dois milénios de
cristianismo, uma quantidade inumerável de povos recebeu a graça da fé,
fê-la florir na sua vida diária e transmitiu-a segundo as próprias
modalidades culturais. Quando uma comunidade acolhe o anúncio da
salvação, o Espírito Santo fecunda a sua cultura com a força
transformadora do Evangelho. E assim, como podemos ver na história da
Igreja, o cristianismo não dispõe de um único modelo cultural, mas
«permanecendo o que é, na fidelidade total ao anúncio evangélico e à
tradição da Igreja, o cristianismo assumirá também o rosto das diversas
culturas e dos vários povos onde for acolhido e se radicar». Nos
diferentes povos, que experimentam o dom de Deus segundo a própria
cultura, a Igreja exprime a sua genuína catolicidade e mostra «a beleza
deste rosto pluriforme». Através das manifestações cristãs dum povo
evangelizado, o Espírito Santo embeleza a Igreja, mostrando-lhe novos
aspectos da Revelação e presenteando-a com um novo rosto. Pela
inculturação, a Igreja «introduz os povos com as suas culturas na sua
própria comunidade», porque «cada cultura oferece formas e valores
positivos que podem enriquecer o modo como o Evangelho é pregado,
compreendido e vivido». Assim, «a Igreja, assumindo os valores das
diversas culturas, torna-se sponsa ornata monilibus suis, a noiva que se
adorna com suas jóias (cf. Is 61, 10)».
117. Se for bem entendida, a diversidade
cultural não ameaça a unidade da Igreja. É o Espírito Santo, enviado
pelo Pai e o Filho, que transforma os nossos corações e nos torna
capazes de entrar na comunhão perfeita da Santíssima Trindade, onde tudo
encontra a sua unidade. O Espírito Santo constrói a comunhão e a
harmonia do povo de Deus. Ele mesmo é a harmonia, tal como é o vínculo
de amor entre o Pai e o Filho. É Ele que suscita uma abundante e
diversificada riqueza de dons e, ao mesmo tempo, constrói uma unidade
que nunca é uniformidade, mas multiforme harmonia que atrai. A
evangelização reconhece com alegria estas múltiplas riquezas que o
Espírito gera na Igreja. Não faria justiça à lógica da encarnação pensar
num cristianismo monocultural e monocórdico. É verdade que algumas
culturas estiveram intimamente ligadas à pregação do Evangelho e ao
desenvolvimento do pensamento cristão, mas a mensagem revelada não se
identifica com nenhuma delas e possui um conteúdo transcultural. Por
isso, na evangelização de novas culturas ou de culturas que não
acolheram a pregação cristã, não é indispensável impor uma determinada
forma cultural, por mais bela e antiga que seja, juntamente com a
proposta do Evangelho. A mensagem, que anunciamos, sempre apresenta
alguma roupagem cultural, mas às vezes, na Igreja, caímos na vaidosa
sacralização da própria cultura, o que pode mostrar mais fanatismo do
que autêntico ardor evangelizador.
118. Os Bispos da Oceânia pediram que a
Igreja neste continente «desenvolva uma compreensão e exposição da
verdade de Cristo partindo das tradições e culturas locais», e instaram
todos os missionários «a trabalhar de harmonia com os cristãos indígenas
para garantir que a doutrina e a vida da Igreja sejam expressas em
formas legítimas e apropriadas a cada cultura». Não podemos pretender
que todos os povos dos vários continentes, ao exprimir a fé cristã,
imitem as modalidades adoptadas pelos povos europeus num determinado
momento da história, porque a fé não se pode confinar dentro dos limites
de compreensão e expressão duma cultura. É indiscutível que uma única
cultura não esgota o mistério da redenção de Cristo.
Todos somos discípulos missionários
119. Em todos os baptizados, desde o
primeiro ao último, actua a força santificadora do Espírito que impele a
evangelizar. O povo de Deus é santo em virtude desta unção, que o torna
infalível «in credendo», ou seja, ao crer, não pode enganar-se, ainda
que não encontre palavras para explicar a sua fé. O Espírito guia-o na
verdade e condu-lo à salvação. Como parte do seu mistério de amor pela
humanidade, Deus dota a totalidade dos fiéis com um instinto da fé – o
sensus fidei – que os ajuda a discernir o que vem realmente de Deus. A
presença do Espírito confere aos cristãos uma certa conaturalidade com
as realidades divinas e uma sabedoria que lhes permite captá-las
intuitivamente, embora não possuam os meios adequados para expressá-las
com precisão.
120. Em virtude do Baptismo recebido,
cada membro do povo de Deus tornou-se discípulo missionário (cf. Mt 28,
19). Cada um dos baptizados, independentemente da própria função na
Igreja e do grau de instrução da sua fé, é um sujeito activo de
evangelização, e seria inapropriado pensar num esquema de evangelização
realizado por agentes qualificados enquanto o resto do povo fiel seria
apenas receptor das suas acções. A nova evangelização deve implicar um
novo protagonismo de cada um dos baptizados. Esta convicção
transforma-se num apelo dirigido a cada cristão para que ninguém
renuncie ao seu compromisso de evangelização, porque, se uma pessoa
experimentou verdadeiramente o amor de Deus que o salva, não precisa de
muito tempo de preparação para sair a anunciá-lo, não pode esperar que
lhe dêem muitas lições ou longas instruções. Cada cristão é missionário
na medida em que se encontrou com o amor de Deus em Cristo Jesus; não
digamos mais que somos «discípulos» e «missionários», mas sempre que
somos «discípulos missionários». Se não estivermos convencidos disto,
olhemos para os primeiros discípulos, que logo depois de terem conhecido
o olhar de Jesus, saíram proclamando cheios de alegria: «Encontrámos o
Messias» (Jo 1, 41). A Samaritana, logo que terminou o seu diálogo com
Jesus, tornou-se missionária, e muitos samaritanos acreditaram em Jesus
«devido às palavras da mulher» (Jo 4, 39). Também São Paulo, depois do
seu encontro com Jesus Cristo, «começou imediatamente a proclamar (…)
que Jesus era o Filho de Deus» (Act 9, 20). Porque esperamos nós?
121. Certamente todos somos chamados a
crescer como evangelizadores. Devemos procurar simultaneamente uma
melhor formação, um aprofundamento do nosso amor e um testemunho mais
claro do Evangelho. Neste sentido, todos devemos deixar que os outros
nos evangelizem constantemente; isto não significa que devemos renunciar
à missão evangelizadora, mas encontrar o modo de comunicar Jesus que
corresponda à situação em que vivemos. Seja como for, todos somos
chamados a dar aos outros o testemunho explícito do amor salvífico do
Senhor, que, sem olhar às nossas imperfeições, nos oferece a sua
proximidade, a sua Palavra, a sua força, e dá sentido à nossa vida. O
teu coração sabe que a vida não é a mesma coisa sem Ele; pois bem,
aquilo que descobriste, o que te ajuda a viver e te dá esperança, isso é
o que deves comunicar aos outros. A nossa imperfeição não deve ser
desculpa; pelo contrário, a missão é um estímulo constante para não nos
acomodarmos na mediocridade, mas continuarmos a crescer. O testemunho de
fé, que todo o cristão é chamado a oferecer, implica dizer como São
Paulo: «Não que já o tenha alcançado ou já seja perfeito; mas corro para
ver se o alcanço, (…) lançando-me para o que vem à frente» (Fl 3,
12-13).
A força evangelizadora da piedade popular
122. Da mesma forma, podemos pensar que
os diferentes povos, nos quais foi inculturado o Evangelho, são sujeitos
colectivos activos, agentes da evangelização. Assim é, porque cada povo
é o criador da sua cultura e o protagonista da sua história. A cultura é
algo de dinâmico, que um povo recria constantemente, e cada geração
transmite à seguinte um conjunto de atitudes relativas às diversas
situações existenciais, que esta nova geração deve reelaborar face aos
próprios desafios. O ser humano «é simultaneamente filho e pai da
cultura onde está inserido». Quando o Evangelho se inculturou num povo,
no seu processo de transmissão cultural também transmite a fé de maneira
sempre nova; daí a importância da evangelização entendida como
inculturação. Cada porção do povo de Deus, ao traduzir na vida o dom de
Deus segundo a sua índole própria, dá testemunho da fé recebida e
enriquece-a com novas expressões que falam por si. Pode dizer-se que «o
povo se evangeliza continuamente a si mesmo». Aqui ganha importância a
piedade popular, verdadeira expressão da actividade missionária
espontânea do povo de Deus. Trata-se de uma realidade em permanente
desenvolvimento, cujo protagonista é o Espírito Santo.
123. Na piedade popular, pode-se captar a
modalidade em que a fé recebida se encarnou numa cultura e continua a
transmitir-se. Vista por vezes com desconfiança, a piedade popular foi
objecto de revalorização nas décadas posteriores ao Concílio. Quem deu
um impulso decisivo nesta direcção, foi Paulo VI na sua Exortação
Apostólica Evangelii Nuntiandi. Nela explica que a piedade popular
«traduz em si uma certa sede de Deus, que somente os pobres e os simples
podem experimentar» e «torna as pessoas capazes para terem rasgos de
generosidade e predispõe-nas para o sacrifício até ao heroísmo, quando
se trata de manifestar a fé». Já mais perto dos nossos dias, Bento XVI,
na América Latina, assinalou que se trata de um «precioso tesouro da
Igreja Católica» e que nela «aparece a alma dos povos
latino-americanos».
124. No Documento de Aparecida,
descrevem-se as riquezas que o Espírito Santo explicita na piedade
popular por sua iniciativa gratuita. Naquele amado Continente, onde uma
multidão imensa de cristãos exprime a sua fé através da piedade popular,
os Bispos chamam-na também «espiritualidade popular» ou «mística
popular». Trata-se de uma verdadeira «espiritualidade encarnada na
cultura dos simples». Não é vazia de conteúdos, mas descobre-os e
exprime-os mais pela via simbólica do que pelo uso da razão instrumental
e, no acto de fé, acentua mais o credere in Deum que o credere Deum. É
«uma maneira legítima de viver a fé, um modo de se sentir parte da
Igreja e uma forma de ser missionários»; comporta a graça da
missionariedade, do sair de si e do peregrinar: «O caminhar juntos para
os santuários e o participar em outras manifestações da piedade popular,
levando também os filhos ou convidando a outras pessoas, é em si mesmo
um gesto evangelizador». Não coarctemos nem pretendamos controlar esta
força missionária!
125. Para compreender esta necessidade, é
preciso abordá-la com o olhar do Bom Pastor, que não procura julgar mas
amar. Só a partir da conaturalidade afectiva que dá o amor é que
podemos apreciar a vida teologal presente na piedade dos povos cristãos,
especialmente nos pobres. Penso na fé firme das mães ao pé da cama do
filho doente, que se agarram a um terço ainda que não saibam elencar os
artigos do Credo; ou na carga imensa de esperança contida numa vela que
se acende, numa casa humilde, para pedir ajuda a Maria, ou nos olhares
de profundo amor a Cristo crucificado. Quem ama o povo fiel de Deus, não
pode ver estas acções unicamente como uma busca natural da divindade;
são a manifestação duma vida teologal animada pela acção do Espírito
Santo, que foi derramado em nossos corações (cf. Rm 5, 5).
126. Na piedade popular, por ser fruto
do Evangelho inculturado, subjaz uma força activamente evangelizadora
que não podemos subestimar: seria ignorar a obra do Espírito Santo. Ao
contrário, somos chamados a encorajá-la e fortalecê-la para aprofundar o
processo de inculturação, que é uma realidade nunca acabada. As
expressões da piedade popular têm muito que nos ensinar e, para quem as
sabe ler, são um lugar teológico a que devemos prestar atenção
particularmente na hora de pensar a nova evangelização.
De pessoa a pessoa
127. Hoje que a Igreja deseja viver uma
profunda renovação missionária, há uma forma de pregação que nos compete
a todos como tarefa diária: é cada um levar o Evangelho às pessoas com
quem se encontra, tanto aos mais íntimos como aos desconhecidos. É a
pregação informal que se pode realizar durante uma conversa, e é também a
que realiza um missionário quando visita um lar. Ser discípulo
significa ter a disposição permanente de levar aos outros o amor de
Jesus; e isto sucede espontaneamente em qualquer lugar: na rua, na
praça, no trabalho, num caminho.
128. Nesta pregação, sempre respeitosa e
amável, o primeiro momento é um diálogo pessoal, no qual a outra pessoa
se exprime e partilha as suas alegrias, as suas esperanças, as
preocupações com os seus entes queridos e muitas coisas que enchem o
coração. Só depois desta conversa é que se pode apresentar-lhe a
Palavra, seja pela leitura de algum versículo ou de modo narrativo, mas
sempre recordando o anúncio fundamental: o amor pessoal de Deus que Se
fez homem, entregou-Se a Si mesmo por nós e, vivo, oferece a sua
salvação e a sua amizade. É o anúncio que se partilha com uma atitude
humilde e testemunhal de quem sempre sabe aprender, com a consciência de
que esta mensagem é tão rica e profunda que sempre nos ultrapassa. Umas
vezes exprime-se de maneira mais directa, outras através dum testemunho
pessoal, uma história, um gesto, ou outra forma que o próprio Espírito
Santo possa suscitar numa circunstância concreta. Se parecer prudente e
houver condições, é bom que este encontro fraterno e missionário conclua
com uma breve oração que se relacione com as preocupações que a pessoa
manifestou. Assim ela sentirá mais claramente que foi ouvida e
interpretada, que a sua situação foi posta nas mãos de Deus, e
reconhecerá que a Palavra de Deus fala realmente à sua própria vida.
129. Contudo não se deve pensar que o
anúncio evangélico tenha de ser transmitido sempre com determinadas
fórmulas pré-estabelecidas ou com palavras concretas que exprimam um
conteúdo absolutamente invariável. Transmite-se com formas tão diversas
que seria impossível descrevê-las ou catalogá-las, e cujo sujeito
colectivo é o povo de Deus com seus gestos e sinais inumeráveis. Por
conseguinte, se o Evangelho se encarnou numa cultura, já não se comunica
apenas através do anúncio de pessoa a pessoa. Isto deve fazer-nos
pensar que, nos países onde o cristianismo é minoria, para além de
animar cada baptizado a anunciar o Evangelho, as Igrejas particulares
hão-de promover activamente formas, pelo menos incipientes, de
inculturação. Enfim, o que se deve procurar é que a pregação do
Evangelho, expressa com categorias próprias da cultura onde é anunciado,
provoque uma nova síntese com essa cultura. Embora estes processos
sejam sempre lentos, às vezes o medo paralisa-nos demasiado. Se deixamos
que as dúvidas e os medos sufoquem toda a ousadia, é possível que, em
vez de sermos criativos, nos deixemos simplesmente ficar cómodos sem
provocar qualquer avanço e, neste caso, não seremos participantes dos
processos históricos com a nossa cooperação, mas simplesmente
espectadores duma estagnação estéril da Igreja.
Carismas ao serviço da comunhão evangelizadora
130. O Espírito Santo enriquece toda a
Igreja evangelizadora também com diferentes carismas. São dons para
renovar e edificar a Igreja. Não se trata de um património fechado,
entregue a um grupo para que o guarde; mas são presentes do Espírito
integrados no corpo eclesial, atraídos para o centro que é Cristo, donde
são canalizados num impulso evangelizador. Um sinal claro da
autenticidade dum carisma é a sua eclesialidade, a sua capacidade de se
integrar harmoniosamente na vida do povo santo de Deus para o bem de
todos. Uma verdadeira novidade suscitada pelo Espírito não precisa de
fazer sombra sobre outras espiritualidades e dons para se afirmar a si
mesma. Quanto mais um carisma dirigir o seu olhar para o coração do
Evangelho, tanto mais eclesial será o seu exercício. É na comunhão,
mesmo que seja fadigosa, que um carisma se revela autêntica e
misteriosamente fecundo. Se vive este desafio, a Igreja pode ser um
modelo para a paz no mundo.
131. As diferenças entre as pessoas e as
comunidades por vezes são incómodas, mas o Espírito Santo, que suscita
esta diversidade, de tudo pode tirar algo de bom e transformá-lo em
dinamismo evangelizador que actua por atracção. A diversidade deve ser
sempre conciliada com a ajuda do Espírito Santo; só Ele pode suscitar a
diversidade, a pluralidade, a multiplicidade e, ao mesmo tempo, realizar
a unidade. Ao invés, quando somos nós que pretendemos a diversidade e
nos fechamos em nossos particularismos, em nossos exclusivismos,
provocamos a divisão; e, por outro lado, quando somos nós que queremos
construir a unidade com os nossos planos humanos, acabamos por impor a
uniformidade, a homologação. Isto não ajuda a missão da Igreja.
Cultura, pensamento e educação
132. O anúncio às culturas implica
também um anúncio às culturas profissionais, científicas e académicas. É
o encontro entre a fé, a razão e as ciências, que visa desenvolver um
novo discurso sobre a credibilidade, uma apologética original que ajude a
criar as predisposições para que o Evangelho seja escutado por todos.
Quando algumas categorias da razão e das ciências são acolhidas no
anúncio da mensagem, tais categorias tornam-se instrumentos de
evangelização; é a água transformada em vinho. É aquilo que, uma vez
assumido, não só é redimido, mas torna-se instrumento do Espírito para
iluminar e renovar o mundo.
133. Uma vez que não basta a preocupação
do evangelizador por chegar a cada pessoa, mas o Evangelho também se
anuncia às culturas no seu conjunto, a teologia – e não só a teologia
pastoral – em diálogo com outras ciências e experiências humanas tem
grande importância para pensar como fazer chegar a proposta do Evangelho
à variedade dos contextos culturais e dos destinatários. A Igreja,
comprometida na evangelização, aprecia e encoraja o carisma dos teólogos
e o seu esforço na investigação teológica, que promove o diálogo com o
mundo da cultura e da ciência. Faço apelo aos teólogos para que cumpram
este serviço como parte da missão salvífica da Igreja. Mas, para isso, é
necessário que tenham a peito a finalidade evangelizadora da Igreja e
da própria teologia, e não se contentem com uma teologia de gabinete.
134. As universidades são um âmbito
privilegiado para pensar e desenvolver este compromisso de evangelização
de modo interdisciplinar e inclusivo. As escolas católicas, que sempre
procuram conjugar a tarefa educacional com o anúncio explícito do
Evangelho, constituem uma contribuição muito válida para a evangelização
da cultura, mesmo em países e cidades onde uma situação adversa nos
incentiva a usar a nossa criatividade para se encontrar os caminhos
adequados.
II. A homilia
135. Consideremos agora a pregação
dentro da Liturgia, que requer uma séria avaliação por parte dos
Pastores. Deter-me-ei particularmente, e até com certa meticulosidade,
na homilia e sua preparação, porque são muitas as reclamações
relacionadas com este ministério importante, e não podemos fechar os
ouvidos. A homilia é o ponto de comparação para avaliar a proximidade e a
capacidade de encontro de um Pastor com o seu povo. De facto, sabemos
que os fiéis lhe dão muita importância; e, muitas vezes, tanto eles como
os próprios ministros ordenados sofrem: uns a ouvir e os outros a
pregar. É triste que assim seja. A homilia pode ser, realmente, uma
experiência intensa e feliz do Espírito, um consolador encontro com a
Palavra, uma fonte constante de renovação e crescimento.
136. Renovemos a nossa confiança na
pregação, que se funda na convicção de que é Deus que deseja alcançar os
outros através do pregador e de que Ele mostra o seu poder através da
palavra humana. São Paulo fala vigorosamente sobre a necessidade de
pregar, porque o Senhor quis chegar aos outros por meio também da nossa
palavra (cf. Rm 10, 14-17). Com a palavra, Nosso Senhor conquistou o
coração da gente. De todas as partes, vinham para O ouvir (cf. Mc 1,
45). Ficavam maravilhados, «bebendo» os seus ensinamentos (cf. Mc 6, 2).
Sentiam que lhes falava como quem tem autoridade (cf. Mc 1, 27). E os
Apóstolos, que Jesus estabelecera «para estarem com Ele e para os enviar
a pregar» (Mc 3, 14), atraíram para o seio da Igreja todos os povos com
a palavra (cf. Mc 16, 15.20).
O contexto litúrgico
137. Agora é oportuno recordar que «a
proclamação litúrgica da Palavra de Deus, principalmente no contexto da
assembleia eucarística, não é tanto um momento de meditação e de
catequese, como sobretudo o diálogo de Deus com o seu povo, no qual se
proclamam as maravilhas da salvação e se propõem continuamente as
exigências da Aliança». Reveste-se de um valor especial a homilia,
derivado do seu contexto eucarístico, que supera toda a catequese por
ser o momento mais alto do diálogo entre Deus e o seu povo, antes da
comunhão sacramental. A homilia é um retomar este diálogo que já está
estabelecido entre o Senhor e o seu povo. Aquele que prega deve conhecer
o coração da sua comunidade para identificar onde está vivo e ardente o
desejo de Deus e também onde é que este diálogo de amor foi sufocado ou
não pôde dar fruto.
138. A homilia não pode ser um
espectáculo de divertimento, não corresponde à lógica dos recursos
mediáticos, mas deve dar fervor e significado à celebração. É um género
peculiar, já que se trata de uma pregação no quadro duma celebração
litúrgica; por conseguinte, deve ser breve e evitar que se pareça com
uma conferência ou uma lição. O pregador pode até ser capaz de manter
vivo o interesse das pessoas por uma hora, mas assim a sua palavra
torna-se mais importante que a celebração da fé. Se a homilia se
prolonga demasiado, lesa duas características da celebração litúrgica: a
harmonia entre as suas partes e o seu ritmo. Quando a pregação se
realiza no contexto da Liturgia, incorpora-se como parte da oferenda que
se entrega ao Pai e como mediação da graça que Cristo derrama na
celebração. Este mesmo contexto exige que a pregação oriente a
assembleia, e também o pregador, para uma comunhão com Cristo na
Eucaristia, que transforme a vida. Isto requer que a palavra do pregador
não ocupe um lugar excessivo, para que o Senhor brilhe mais que o
ministro.
A conversa da mãe
139. Dissemos que o povo de Deus, pela
acção constante do Espírito nele, se evangeliza continuamente a si
mesmo. Que implicações tem esta convicção para o pregador? Lembra-nos
que a Igreja é mãe e prega ao povo como uma mãe fala ao seu filho,
sabendo que o filho tem confiança de que tudo o que se lhe ensina é para
seu bem, porque se sente amado. Além disso, a boa mãe sabe reconhecer
tudo o que Deus semeou no seu filho, escuta as suas preocupações e
aprende com ele. O espírito de amor que reina numa família guia tanto a
mãe como o filho nos seus diálogos, nos quais se ensina e aprende, se
corrige e valoriza o que é bom; assim deve acontecer também na homilia. O
Espírito que inspirou os Evangelhos e actua no povo de Deus, inspira
também como se deve escutar a fé do povo e como se deve pregar em cada
Eucaristia. Portanto a pregação cristã encontra, no coração da cultura
do povo, um manancial de água viva tanto para saber o que se deve dizer
como para encontrar o modo mais apropriado para o dizer. Assim como
todos gostamos que nos falem na nossa língua materna, assim também, na
fé, gostamos que nos falem em termos da «cultura materna», em termos do
idioma materno (cf. 2 Mac 7, 21.27), e o coração dispõe-se a ouvir
melhor. Esta linguagem é uma tonalidade que transmite coragem,
inspiração, força, impulso.
140. Este âmbito materno-eclesial, onde
se desenrola o diálogo do Senhor com o seu povo, deve ser encarecido e
cultivado através da proximidade cordial do pregador, do tom caloroso da
sua voz, da mansidão do estilo das suas frases, da alegria dos seus
gestos. Mesmo que às vezes a homilia seja um pouco maçante, se houver
este espírito materno-eclesial, será sempre fecunda, tal como os
conselhos maçantes duma mãe, com o passar do tempo, dão fruto no coração
dos filhos.
141. Ficamos admirados com os recursos
empregues pelo Senhor para dialogar com o seu povo, revelar o seu
mistério a todos, cativar a gente comum com ensinamentos tão elevados e
exigentes. Creio que o segredo de Jesus esteja escondido naquele seu
olhar o povo mais além das suas fraquezas e quedas: «Não temais,
pequenino rebanho, porque aprouve ao vosso Pai dar-vos o Reino» (Lc 12,
32); Jesus prega com este espírito. Transbordando de alegria no
Espírito, bendiz o Pai por Lhe atrair os pequeninos: «Bendigo-Te, ó Pai,
Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e
aos inteligentes e as revelaste aos pequeninos» (Lc 10, 21). O Senhor
compraz-Se verdadeiramente em dialogar com o seu povo, e compete ao
pregador fazer sentir este gosto do Senhor ao seu povo.
Palavras que abrasam os corações
142. Um diálogo é muito mais do que a
comunicação duma verdade. Realiza-se pelo prazer de falar e pelo bem
concreto que se comunica através das palavras entre aqueles que se amam.
É um bem que não consiste em coisas, mas nas próprias pessoas que
mutuamente se dão no diálogo. A pregação puramente moralista ou
doutrinadora e também a que se transforma numa lição de exegese reduzem
esta comunicação entre os corações que se verifica na homilia e que deve
ter um carácter quase sacramental: «A fé surge da pregação, e a
pregação surge pela palavra de Cristo» (Rm 10, 17). Na homilia, a
verdade anda de mãos dadas com a beleza e o bem. Não se trata de
verdades abstractas ou de silogismos frios, porque se comunica também a
beleza das imagens que o Senhor utilizava para incentivar a prática do
bem. A memória do povo fiel, como a de Maria, deve ficar transbordante
das maravilhas de Deus. O seu coração, esperançado na prática alegre e
possível do amor que lhe foi anunciado, sente que toda a palavra na
Escritura, antes de ser exigência, é dom.
143. O desafio duma pregação inculturada
consiste em transmitir a síntese da mensagem evangélica, e não ideias
ou valores soltos. Onde está a tua síntese, ali está o teu coração. A
diferença entre fazer luz com sínteses e o fazê-lo com ideias soltas é a
mesma que há entre o ardor do coração e o tédio. O pregador tem a
belíssima e difícil missão de unir os corações que se amam: o do Senhor e
os do seu povo. O diálogo entre Deus e o seu povo reforça ainda mais a
aliança entre ambos e estreita o vínculo da caridade. Durante o tempo da
homilia, os corações dos crentes fazem silêncio e deixam-No falar a
Ele. O Senhor e o seu povo falam-se de mil e uma maneiras directamente,
sem intermediários, mas, na homilia, querem que alguém sirva de
instrumento e exprima os sentimentos, de modo que, depois, cada um possa
escolher como continuar a sua conversa. A palavra é, essencialmente,
mediadora e necessita não só dos dois dialogantes mas também de um
pregador que a represente como tal, convencido de que «não nos pregamos a
nós mesmos, mas a Cristo Jesus, o Senhor, e nos consideramos vossos
servos, por amor de Jesus» (2 Cor 4, 5).
144. Falar com o coração implica
mantê-lo não só ardente, mas também iluminado pela integridade da
Revelação e pelo caminho que essa Palavra percorreu no coração da Igreja
e do nosso povo fiel ao longo da sua história. A identidade cristã, que
é aquele abraço baptismal que o Pai nos deu em pequeninos, faz-nos
anelar, como filhos pródigos – e predilectos em Maria –, pelo outro
abraço, o do Pai misericordioso que nos espera na glória. Fazer com que o
nosso povo se sinta, de certo modo, no meio destes dois abraços é a
tarefa difícil, mas bela, de quem prega o Evangelho.
III. A preparação da pregação
145. A preparação da pregação é uma
tarefa tão importante que convém dedicar-lhe um tempo longo de estudo,
oração, reflexão e criatividade pastoral. Com muita amizade, quero
deter-me a propor um itinerário de preparação da homilia. Trata-se de
indicações que, para alguns, poderão parecer óbvias, mas considero
oportuno sugeri-las para recordar a necessidade de dedicar um tempo
privilegiado a este precioso ministério. Alguns párocos sustentam
frequentemente que isto não é possível por causa de tantas incumbências
que devem desempenhar; todavia atrevo-me a pedir que todas as semanas se
dedique a esta tarefa um tempo pessoal e comunitário suficientemente
longo, mesmo que se tenha de dar menos tempo a outras tarefas também
importantes. A confiança no Espírito Santo que actua na pregação não é
meramente passiva, mas activa e criativa. Implica oferecer-se como
instrumento (cf. Rm 12, 1), com todas as próprias capacidades, para que
possam ser utilizadas por Deus. Um pregador que não se prepara não é
«espiritual»: é desonesto e irresponsável quanto aos dons que recebeu.
O culto da verdade
146. O primeiro passo, depois de invocar
o Espírito Santo, é prestar toda a atenção ao texto bíblico, que deve
ser o fundamento da pregação. Quando alguém se detém procurando
compreender qual é a mensagem dum texto, exerce o «culto da verdade». É a
humildade do coração que reconhece que a Palavra sempre nos transcende,
que somos, «não os árbitros nem os proprietários, mas os depositários,
os arautos e os servidores». Esta atitude de humilde e deslumbrada
veneração da Palavra exprime-se detendo-se a estudá-la com o máximo
cuidado e com um santo temor de a manipular. Para se poder interpretar
um texto bíblico, faz falta paciência, pôr de parte toda a ansiedade e
atribuir-lhe tempo, interesse e dedicação gratuita. Há que pôr de lado
qualquer preocupação que nos inquiete, para entrar noutro âmbito de
serena atenção. Não vale a pena dedicar-se a ler um texto bíblico, se
aquilo que se quer obter são resultados rápidos, fáceis ou imediatos.
Por isso, a preparação da pregação requer amor. Uma pessoa só dedica um
tempo gratuito e sem pressa às coisas ou às pessoas que ama; e aqui
trata-se de amar a Deus, que quis falar. A partir deste amor, uma pessoa
pode deter-se todo o tempo que for necessário, com a atitude dum
discípulo: «Fala, Senhor; o teu servo escuta» (1 Sam 3, 9).
147. Em primeiro lugar, convém estarmos
seguros de compreender adequadamente o significado das palavras que
lemos. Quero insistir em algo que parece evidente, mas que nem sempre é
tido em conta: o texto bíblico, que estudamos, tem dois ou três mil
anos, a sua linguagem é muito diferente da que usamos agora. Por mais
que nos pareça termos entendido as palavras, que estão traduzidas na
nossa língua, isso não significa que compreendemos correctamente tudo o
que o escritor sagrado queria exprimir. São conhecidos os vários
recursos que proporciona a análise literária: prestar atenção às
palavras que se repetem ou evidenciam, reconhecer a estrutura e o
dinamismo próprio dum texto, considerar o lugar que ocupam os
personagens, etc. Mas o objectivo não é o de compreender todos os
pequenos detalhes dum texto; o mais importante é descobrir qual é a
mensagem principal, a mensagem que confere estrutura e unidade ao texto.
Se o pregador não faz este esforço, é possível que também a sua
pregação não tenha unidade nem ordem; o seu discurso será apenas uma
súmula de várias ideias desarticuladas que não conseguirão mobilizar os
outros. A mensagem central é aquela que o autor quis primariamente
transmitir, o que implica identificar não só uma ideia mas também o
efeito que esse autor quis produzir. Se um texto foi escrito para
consolar, não deveria ser utilizado para corrigir erros; se foi escrito
para exortar, não deveria ser utilizado para instruir; se foi escrito
para ensinar algo sobre Deus, não deveria ser utilizado para explicar
várias opiniões teológicas; se foi escrito para levar ao louvor ou ao
serviço missionário, não o utilizemos para informar sobre as últimas
notícias.
148. É verdade que, para se entender
adequadamente o sentido da mensagem central dum texto, é preciso
colocá-lo em ligação com o ensinamento da Bíblia inteira, transmitida
pela Igreja. Este é um princípio importante da interpretação bíblica,
que tem em conta que o Espírito Santo não inspirou só uma parte, mas a
Bíblia inteira, e que, nalgumas questões, o povo cresceu na sua
compreensão da vontade de Deus a partir da experiência vivida. Assim se
evitam interpretações equivocadas ou parciais, que contradizem outros
ensinamentos da mesma Escritura. Mas isto não significa enfraquecer a
acentuação própria e específica do texto que se deve pregar. Um dos
defeitos duma pregação enfadonha e ineficaz é precisamente não poder
transmitir a força própria do texto que foi proclamado.
A personalização da Palavra
149. O pregador «deve ser o primeiro a
desenvolver uma grande familiaridade pessoal com a Palavra de Deus: não
lhe basta conhecer o aspecto linguístico ou exegético, sem dúvida
necessário; precisa de se abeirar da Palavra com o coração dócil e
orante, a fim de que ela penetre a fundo nos seus pensamentos e
sentimentos e gere nele uma nova mentalidade». Faz-nos bem renovar, cada
dia, cada domingo, o nosso ardor na preparação da homilia, e verificar
se, em nós mesmos, cresce o amor pela Palavra que pregamos. É bom não
esquecer que, «particularmente, a maior ou menor santidade do ministro
influi sobre o anúncio da Palavra». Como diz São Paulo, «falamos, não
para agradar aos homens, mas a Deus que põe à prova os nossos corações»
(1 Ts 2, 4). Se está vivo este desejo de, primeiro, ouvirmos nós a
Palavra que temos de pregar, esta transmitir-se-á duma maneira ou doutra
ao povo fiel de Deus: «A boca fala da abundância do coração» (Mt 12,
34). As leituras do domingo ressoarão com todo o seu esplendor no
coração do povo, se primeiro ressoarem assim no coração do Pastor.
150. Jesus irritava-Se com pretensiosos
mestres, muito exigentes com os outros, que ensinavam a Palavra de Deus
mas não se deixavam iluminar por ela: «Atam fardos pesados e
insuportáveis e colocam-nos aos ombros dos outros, mas eles não põem nem
um dedo para os deslocar» (Mt 23, 4). E o Apóstolo São Tiago exortava:
«Meus irmãos, não haja muitos entre vós que pretendam ser mestres,
sabendo que nós teremos um julgamento mais severo» (3, 1). Quem quiser
pregar, deve primeiro estar disposto a deixar-se tocar pela Palavra e
fazê-la carne na sua vida concreta. Assim, a pregação consistirá na
actividade tão intensa e fecunda que é «comunicar aos outros o que foi
contemplado». Por tudo isto, antes de preparar concretamente o que vai
dizer na pregação, o pregador tem que aceitar ser primeiro trespassado
por essa Palavra que há-de trespassar os outros, porque é uma Palavra
viva e eficaz, que, como uma espada, «penetra até à divisão da alma e do
corpo, das articulações e das medulas, e discerne os sentimentos e
intenções do coração» (Heb 4, 12). Isto tem um valor pastoral. Mesmo
nesta época, a gente prefere escutar as testemunhas: «Tem sede de
autenticidade (…), reclama evangelizadores que lhe falem de um Deus que
eles conheçam e lhes seja familiar como se eles vissem o invisível».
151. Não nos é pedido que sejamos
imaculados, mas que não cessamos de melhorar, vivamos o desejo profundo
de progredir no caminho do Evangelho, e não deixemos cair os braços.
Indispensável é que o pregador esteja seguro de que Deus o ama, de que
Jesus Cristo o salvou, de que o seu amor tem sempre a última palavra. À
vista de tanta beleza, sentirá muitas vezes que a sua vida não lhe dá
plenamente glória e desejará sinceramente corresponder melhor a um amor
tão grande. Todavia, se não se detém com sincera abertura a escutar esta
Palavra, se não deixa que a mesma toque a sua vida, que o interpele,
exorte, mobilize, se não dedica tempo para rezar com esta Palavra, então
na realidade será um falso profeta, um embusteiro ou um charlatão
vazio. Em todo o caso, desde que reconheça a sua pobreza e deseje
comprometer-se mais, sempre poderá dar Jesus Cristo, dizendo como Pedro:
«Não tenho ouro nem prata, mas o que tenho, isto te dou» (Act 3, 6). O
Senhor quer servir-Se de nós como seres vivos, livres e criativos, que
se deixam penetrar pela sua Palavra antes de a transmitir; a sua
mensagem deve passar realmente através do pregador, e não só pela sua
razão, mas tomando posse de todo o seu ser. O Espírito Santo, que
inspirou a Palavra, é quem «hoje ainda, como nos inícios da Igreja, age
em cada um dos evangelizadores que se deixa possuir e conduzir por Ele, e
põe na sua boca as palavras que ele sozinho não poderia encontrar».
A leitura espiritual
152. Há uma modalidade concreta para
escutarmos aquilo que o Senhor nos quer dizer na sua Palavra e nos
deixarmos transformar pelo Espírito: designamo-la por «lectio divina».
Consiste na leitura da Palavra de Deus num tempo de oração, para lhe
permitir que nos ilumine e renove. Esta leitura orante da Bíblia não
está separada do estudo que o pregador realiza para individuar a
mensagem central do texto; antes pelo contrário, é dela que deve partir
para procurar descobrir aquilo que essa mesma mensagem tem a dizer à sua
própria vida. A leitura espiritual dum texto deve partir do seu sentido
literal. Caso contrário, uma pessoa facilmente fará o texto dizer o que
lhe convém, o que serve para confirmar as suas próprias decisões, o que
se adapta aos seus próprios esquemas mentais. E isto seria, em última
análise, usar o sagrado para proveito próprio e passar esta confusão
para o povo de Deus. Nunca devemos esquecer-nos de que, por vezes,
«também Satanás se disfarça em anjo de luz» (2 Cor 11, 14).
153. Na presença de Deus, numa leitura
tranquila do texto, é bom perguntar-se, por exemplo: «Senhor, a mim que
me diz este texto? Com esta mensagem, que quereis mudar na minha vida?
Que é que me dá fastídio neste texto? Porque é que isto não me
interessa?»; ou então: «De que gosto? Em que me estimula esta Palavra?
Que me atrai? E porque me atrai?». Quando se procura ouvir o Senhor, é
normal ter tentações. Uma delas é simplesmente sentir-se chateado e
acabrunhado e dar tudo por encerrado; outra tentação muito comum é
começar a pensar naquilo que o texto diz aos outros, para evitar de o
aplicar à própria vida. Acontece também começar a procurar desculpas,
que nos permitam diluir a mensagem específica do texto. Outras vezes
pensamos que Deus nos exige uma decisão demasiado grande, que ainda não
estamos em condições de tomar. Isto leva muitas pessoas a perderem a
alegria do encontro com a Palavra, mas isso significaria esquecer que
ninguém é mais paciente do que Deus Pai, ninguém compreende e sabe
esperar como Ele. Deus convida sempre a dar um passo mais, mas não exige
uma resposta completa, se ainda não percorremos o caminho que a torna
possível. Apenas quer que olhemos com sinceridade a nossa vida e a
apresentemos sem fingimento diante dos seus olhos, que estejamos
dispostos a continuar a crescer, e peçamos a Ele o que ainda não podemos
conseguir.
À escuta do povo
154. O pregador deve também pôr-se à
escuta do povo, para descobrir aquilo que os fiéis precisam de ouvir. Um
pregador é um contemplativo da Palavra e também um contemplativo do
povo. Desta forma, descobre «as aspirações, as riquezas e as limitações,
as maneiras de orar, de amar, de encarar a vida e o mundo, que
caracterizam este ou aquele aglomerado humano», prestando atenção «ao
povo concreto com os seus sinais e símbolos e respondendo aos problemas
que apresenta». Trata-se de relacionar a mensagem do texto bíblico com
uma situação humana, com algo que as pessoas vivem, com uma experiência
que precisa da luz da Palavra. Esta preocupação não é ditada por uma
atitude oportunista ou diplomática, mas é profundamente religiosa e
pastoral. No fundo, é uma «sensibilidade espiritual para saber ler nos
acontecimentos a mensagem de Deus», e isto é muito mais do que encontrar
algo interessante para dizer. Procura-se descobrir «o que o Senhor tem a
dizer nessas circunstâncias». Então a preparação da pregação
transforma-se num exercício de discernimento evangélico, no qual se
procura reconhecer – à luz do Espírito – «um “apelo” que Deus faz
ressoar na própria situação histórica: também nele e através dele, Deus
chama o crente».
155. Nesta busca, é possível recorrer
apenas a alguma experiência humana frequente, como, por exemplo, a
alegria dum reencontro, as desilusões, o medo da solidão, a compaixão
pela dor alheia, a incerteza perante o futuro, a preocupação com um ser
querido, etc.; mas faz falta intensificar a sensibilidade para se
reconhecer o que isso realmente tem a ver com a vida das pessoas.
Recordemos que nunca se deve responder a perguntas que ninguém se põe,
nem convém fazer a crónica da actualidade para despertar interesse; para
isso, já existem os programas televisivos. Em todo o caso, é possível
partir de algum facto para que a Palavra possa repercutir fortemente no
seu apelo à conversão, à adoração, a atitudes concretas de fraternidade e
serviço, etc., porque acontece, às vezes, que algumas pessoas gostam de
ouvir comentários sobre a realidade na pregação, mas nem por isso se
deixam interpelar pessoalmente.
Recursos pedagógicos
156. Alguns acreditam que podem ser bons
pregadores por saber o que devem dizer, mas descuidam o como, a forma
concreta de desenvolver uma pregação. Zangam-se quando os outros não os
ouvem ou não os apreciam, mas talvez não se tenham empenhado por
encontrar a forma adequada de apresentar a mensagem. Lembremo-nos de que
«a evidente importância do conteúdo da evangelização não deve esconder a
importância dos métodos e dos meios da mesma evangelização». A
preocupação com a forma de pregar também é uma atitude profundamente
espiritual. É responder ao amor de Deus, entregando-nos com todas as
nossas capacidades e criatividade à missão que Ele nos confia; mas
também é um exímio exercício de amor ao próximo, porque não queremos
oferecer aos outros algo de má qualidade. Na Bíblia, por exemplo,
aparece a recomendação para se preparar a pregação de modo a garantir
uma apropriada extensão: «Sê conciso no teu falar: muitas coisas em
poucas palavras» (Sir 32, 8).
157. Apenas, para exemplificar,
recordemos alguns recursos práticos que podem enriquecer uma pregação e
torná-la mais atraente. Um dos esforços mais necessários é aprender a
usar imagens na pregação, isto é, a falar por imagens. Às vezes usam-se
exemplos para tornar mais compreensível algo que se quer explicar, mas
estes exemplos frequentemente dirigem-se apenas ao entendimento,
enquanto as imagens ajudam a apreciar e acolher a mensagem que se quer
transmitir. Uma imagem fascinante faz com que se sinta a mensagem como
algo familiar, próximo, possível, relacionado com a própria vida. Uma
imagem apropriada pode levar a saborear a mensagem que se quer
transmitir, desperta um desejo e motiva a vontade na direcção do
Evangelho. Uma boa homilia, como me dizia um antigo professor, deve
conter «uma ideia, um sentimento, uma imagem».
158. Já dizia Paulo VI que os fiéis
«esperam muito desta pregação e dela poderão tirar fruto, contanto que
ela seja simples, clara, directa, adaptada». A simplicidade tem a ver
com a linguagem utilizada. Deve ser linguagem que os destinatários
compreendam, para não correr o risco de falar ao vento. Acontece
frequentemente que os pregadores usam palavras que aprenderam nos seus
estudos e em certos ambientes, mas que não fazem parte da linguagem
comum das pessoas que os ouvem. Há palavras próprias da teologia ou da
catequese, cujo significado não é compreensível para a maioria dos
cristãos. O maior risco dum pregador é habituar-se à sua própria
linguagem e pensar que todos os outros a usam e compreendem
espontaneamente. Se se quer adaptar à linguagem dos outros, para poder
chegar até eles com a Palavra, deve-se escutar muito, é preciso
partilhar a vida das pessoas e prestar-lhes benévola atenção. A
simplicidade e a clareza são duas coisas diferentes. A linguagem pode
ser muito simples, mas pouco clara a pregação. Pode-se tornar
incompreensível pela desordem, pela sua falta de lógica, ou porque trata
vários temas ao mesmo tempo. Por isso, outro cuidado necessário é
procurar que a pregação tenha unidade temática, uma ordem clara e
ligação entre as frases, de modo que as pessoas possam facilmente seguir
o pregador e captar a lógica do que lhes diz.
159. Outra característica é a linguagem
positiva. Não diz tanto o que não se deve fazer, como sobretudo propõe o
que podemos fazer melhor. E, se aponta algo negativo, sempre procura
mostrar também um valor positivo que atraia, para não se ficar pela
queixa, o lamento, a crítica ou o remorso. Além disso, uma pregação
positiva oferece sempre esperança, orienta para o futuro, não nos deixa
prisioneiros da negatividade. Como é bom que sacerdotes, diáconos e
leigos se reúnam periodicamente para encontrarem, juntos, os recursos
que tornem mais atraente a pregação!
IV. Uma evangelização para o aprofundamento do querigma
160. O mandato missionário do Senhor
inclui o apelo ao crescimento da fé, quando diz: «ensinando-os a cumprir
tudo quanto vos tenho mandado» (Mt 28, 20). Daqui se vê claramente que o
primeiro anúncio deve desencadear também um caminho de formação e de
amadurecimento. A evangelização procura também o crescimento, o que
implica tomar muito a sério em cada pessoa o projecto que Deus tem para
ela. Cada ser humano precisa sempre mais de Cristo, e a evangelização
não deveria deixar que alguém se contente com pouco, mas possa dizer com
plena verdade: «Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim»
(Gal 2, 20).
161. Não seria correcto que este apelo
ao crescimento fosse interpretado, exclusiva ou prioritariamente, como
formação doutrinal. Trata-se de «cumprir» aquilo que o Senhor nos
indicou como resposta ao seu amor, sobressaindo, junto com todas as
virtudes, aquele mandamento novo que é o primeiro, o maior, o que melhor
nos identifica como discípulos: «É este o meu mandamento: que vos ameis
uns aos outros como Eu vos amei» (Jo 15, 12). É evidente que, quando os
autores do Novo Testamento querem reduzir a mensagem moral cristã a uma
última síntese, ao mais essencial, apresentam-nos a exigência
irrenunciável do amor ao próximo: «Quem ama o próximo cumpre plenamente a
lei. (…) É no amor que está o pleno cumprimento da lei» (Rm 13, 8.10).
De igual modo, São Paulo, para quem o mandamento do amor não só resume a
lei mas constitui o centro e a razão de ser da mesma: «Toda a lei se
cumpre plenamente nesta única palavra: Ama o teu próximo como a ti
mesmo» (Gal 5, 14). E, às suas comunidades, apresenta a vida cristã como
um caminho de crescimento no amor: «O Senhor vos faça crescer e
superabundar de caridade uns para com os outros e para com todos» (1 Ts
3, 12). Também São Tiago exorta os cristãos a cumprir «a lei do Reino,
de acordo com a Escritura: Amarás o teu próximo como a ti mesmo» (2, 8),
acabando por não citar nenhum preceito.
162. Entretanto, este caminho de
resposta e crescimento aparece sempre precedido pelo dom, porque o
antecede aquele outro pedido do Senhor: «baptizando-os em nome…» (Mt 28,
19). A adopção como filhos que o Pai oferece gratuitamente e a
iniciativa do dom da sua graça (cf. Ef 2, 8-9; 1 Cor 4, 7) são a
condição que torna possível esta santificação constante, que agrada a
Deus e Lhe dá glória. É deixar-se transformar em Cristo, vivendo
progressivamente «de acordo com o Espírito» (Rm 8, 5).
Uma catequese querigmática e mistagógica
163. A educação e a catequese estão ao
serviço deste crescimento. Já temos à disposição vários textos do
Magistério e subsídios sobre a catequese, preparados pela Santa Sé e por
diversos episcopados. Lembro a Exortação Apostólica Catechesi tradendae
(1979), o Directório Geral para a Catequese (1997) e outros documentos
cujo conteúdo, sempre actual, não é necessário repetir aqui. Queria
deter-me apenas nalgumas considerações que me parece oportuno
evidenciar.
164. Voltámos a descobrir que também na
catequese tem um papel fundamental o primeiro anúncio ou querigma, que
deve ocupar o centro da actividade evangelizadora e de toda a tentativa
de renovação eclesial. O querigma é trinitário. É o fogo do Espírito que
se dá sob a forma de línguas e nos faz crer em Jesus Cristo, que, com a
sua morte e ressurreição, nos revela e comunica a misericórdia infinita
do Pai. Na boca do catequista, volta a ressoar sempre o primeiro
anúncio: «Jesus Cristo ama-te, deu a sua vida para te salvar, e agora
vive contigo todos os dias para te iluminar, fortalecer, libertar». Ao
designar-se como «primeiro» este anúncio, não significa que o mesmo se
situa no início e que, em seguida, se esquece ou substitui por outros
conteúdos que o superam; é o primeiro em sentido qualitativo, porque é o
anúncio principal, aquele que sempre se tem de voltar a ouvir de
diferentes maneiras e aquele que sempre se tem de voltar a anunciar,
duma forma ou doutra, durante a catequese, em todas as suas etapas e
momentos. Por isso, também «o sacerdote, como a Igreja, deve crescer na
consciência da sua permanente necessidade de ser evangelizado».
165. Não se deve pensar que, na
catequese, o querigma é deixado de lado em favor duma formação
supostamente mais «sólida». Nada há de mais sólido, mais profundo, mais
seguro, mais consistente e mais sábio que esse anúncio. Toda a formação
cristã é, primariamente, o aprofundamento do querigma que se vai, cada
vez mais e melhor, fazendo carne, que nunca deixa de iluminar a tarefa
catequética, e permite compreender adequadamente o sentido de qualquer
tema que se desenvolve na catequese. É o anúncio que dá resposta ao
anseio de infinito que existe em todo o coração humano. A centralidade
do querigma requer certas características do anúncio que hoje são
necessárias em toda a parte: que exprima o amor salvífico de Deus como
prévio à obrigação moral e religiosa, que não imponha a verdade mas faça
apelo à liberdade, que seja pautado pela alegria, o estímulo, a
vitalidade e uma integralidade harmoniosa que não reduza a pregação a
poucas doutrinas, por vezes mais filosóficas que evangélicas. Isto exige
do evangelizador certas atitudes que ajudam a acolher melhor o anúncio:
proximidade, abertura ao diálogo, paciência, acolhimento cordial que
não condena.
166. Outra característica da catequese,
que se desenvolveu nas últimas décadas, é a iniciação mistagógica, que
significa essencialmente duas coisas: a necessária progressividade da
experiência formativa na qual intervém toda a comunidade e uma renovada
valorização dos sinais litúrgicos da iniciação cristã. Muitos manuais e
planificações ainda não se deixaram interpelar pela necessidade duma
renovação mistagógica, que poderia assumir formas muito diferentes de
acordo com o discernimento de cada comunidade educativa. O encontro
catequético é um anúncio da Palavra e está centrado nela, mas precisa
sempre duma ambientação adequada e duma motivação atraente, do uso de
símbolos eloquentes, da sua inserção num amplo processo de crescimento e
da integração de todas as dimensões da pessoa num caminho comunitário
de escuta e resposta.
167. É bom que toda a catequese preste
uma especial atenção à «via da beleza (via pulchritudinis)». Anunciar
Cristo significa mostrar que crer n’Ele e segui-Lo não é algo apenas
verdadeiro e justo, mas também belo, capaz de cumular a vida dum novo
esplendor e duma alegria profunda, mesmo no meio das provações. Nesta
perspectiva, todas as expressões de verdadeira beleza podem ser
reconhecidas como uma senda que ajuda a encontrar-se com o Senhor Jesus.
Não se trata de fomentar um relativismo estético, que pode obscurecer o
vínculo indivisível entre verdade, bondade e beleza, mas de recuperar a
estima da beleza para poder chegar ao coração do homem e fazer
resplandecer nele a verdade e a bondade do Ressuscitado. Se nós, como
diz Santo Agostinho, não amamos senão o que é belo, o Filho feito homem,
revelação da beleza infinita, é sumamente amável e atrai-nos para Si
com laços de amor. Por isso, torna-se necessário que a formação na via
pulchritudinis esteja inserida na transmissão da fé. É desejável que
cada Igreja particular incentive o uso das artes na sua obra
evangelizadora, em continuidade com a riqueza do passado, mas também na
vastidão das suas múltiplas expressões actuais, a fim de transmitir a fé
numa nova «linguagem parabólica». É preciso ter a coragem de encontrar
os novos sinais, os novos símbolos, uma nova carne para a transmissão da
Palavra, as diversas formas de beleza que se manifestam em diferentes
âmbitos culturais, incluindo aquelas modalidades não convencionais de
beleza que podem ser pouco significativas para os evangelizadores, mas
tornaram-se particularmente atraentes para os outros.
168. Relativamente à proposta moral da
catequese, que convida a crescer na fidelidade ao estilo de vida do
Evangelho, é oportuno indicar sempre o bem desejável, a proposta de
vida, de maturidade, de realização, de fecundidade, sob cuja luz se pode
entender a nossa denúncia dos males que a podem obscurecer. Mais do que
como peritos em diagnósticos apocalípticos ou juízes sombrios que se
comprazem em detectar qualquer perigo ou desvio, é bom que nos possam
ver como mensageiros alegres de propostas altas, guardiões do bem e da
beleza que resplandecem numa vida fiel ao Evangelho.
O acompanhamento pessoal dos processos de crescimento
169. Numa civilização paradoxalmente
ferida pelo anonimato e, simultaneamente, obcecada com os detalhes da
vida alheia, descaradamente doente de morbosa curiosidade, a Igreja tem
necessidade de um olhar solidário para contemplar, comover-se e parar
diante do outro, tantas vezes quantas forem necessárias. Neste mundo, os
ministros ordenados e os outros agentes de pastoral podem tornar
presente a fragrância da presença solidária de Jesus e o seu olhar
pessoal. A Igreja deverá iniciar os seus membros – sacerdotes,
religiosos e leigos – nesta «arte do acompanhamento», para que todos
aprendam a descalçar sempre as sandálias diante da terra sagrada do
outro (cf. Ex 3, 5). Devemos dar ao nosso caminhar o ritmo salutar da
proximidade, com um olhar respeitoso e cheio de compaixão, mas que ao
mesmo tempo cure, liberte e anime a amadurecer na vida cristã.
170. Embora possa soar óbvio, o
acompanhamento espiritual deve conduzir cada vez mais para Deus, em quem
podemos alcançar a verdadeira liberdade. Alguns crêem-se livres quando
caminham à margem de Deus, sem se dar conta que ficam existencialmente
órfãos, desamparados, sem um lar para onde sempre possam voltar. Deixam
de ser peregrinos para se transformarem em errantes, que giram
indefinidamente ao redor de si mesmos, sem chegar a lado nenhum. O
acompanhamento seria contraproducente, caso se tornasse uma espécie de
terapia que incentive esta reclusão das pessoas na sua imanência e deixe
de ser uma peregrinação com Cristo para o Pai.
171. Hoje mais do que nunca precisamos
de homens e mulheres que conheçam, a partir da sua experiência de
acompanhamento, o modo de proceder onde reine a prudência, a capacidade
de compreensão, a arte de esperar, a docilidade ao Espírito, para no
meio de todos defender as ovelhas a nós confiadas dos lobos que tentam
desgarrar o rebanho. Precisamos de nos exercitar na arte de escutar, que
é mais do que ouvir. Escutar, na comunicação com o outro, é a
capacidade do coração que torna possível a proximidade, sem a qual não
existe um verdadeiro encontro espiritual. Escutar ajuda-nos a individuar
o gesto e a palavra oportunos que nos desinstalam da cómoda condição de
espectadores. Só a partir desta escuta respeitosa e compassiva é que se
pode encontrar os caminhos para um crescimento genuíno, despertar o
desejo do ideal cristão, o anseio de corresponder plenamente ao amor de
Deus e o anelo de desenvolver o melhor de quanto Deus semeou na nossa
própria vida. Mas sempre com a paciência de quem está ciente daquilo que
ensinava São Tomás de Aquino: alguém pode ter a graça e a caridade, mas
não praticar bem nenhuma das virtudes «por causa de algumas inclinações
contrárias» que persistem. Por outras palavras, as virtudes
organizam-se sempre e necessariamente «in habitu», embora os
condicionamentos possam dificultar as operações desses hábitos
virtuosos. Por isso, faz falta «uma pedagogia que introduza a pessoa
passo a passo até chegar à plena apropriação do mistério». Para se
chegar a um estado de maturidade, isto é, para que as pessoas sejam
capazes de decisões verdadeiramente livres e responsáveis, é preciso dar
tempo ao tempo, com uma paciência imensa. Como dizia o Beato Pedro
Fabro: «O tempo é o mensageiro de Deus».
172. Quem acompanha sabe reconhecer que a
situação de cada pessoa diante de Deus e a sua vida em graça é um
mistério que ninguém pode conhecer plenamente a partir do exterior. O
Evangelho propõe-nos que se corrija e ajude a crescer uma pessoa a
partir do reconhecimento da maldade objectiva das suas acções (cf. Mt
18, 15), mas sem proferir juízos sobre a sua responsabilidade e
culpabilidade (cf. Mt 7, 1; Lc 6, 37). Seja como for, um válido
acompanhante não transige com os fatalismos nem com a pusilanimidade.
Sempre convida a querer curar-se, a pegar no catre (cf. Mt 9, 6), a
abraçar a cruz, a deixar tudo e partir sem cessar para anunciar o
Evangelho. A experiência pessoal de nos deixarmos acompanhar e curar,
conseguindo exprimir com plena sinceridade a nossa vida a quem nos
acompanha, ensina-nos a ser pacientes e compreensivos com os outros e
habilita-nos a encontrar as formas para despertar neles a confiança, a
abertura e a vontade de crescer.
173. O acompanhamento espiritual
autêntico começa sempre e prossegue no âmbito do serviço à missão
evangelizadora. A relação de Paulo com Timóteo e Tito é exemplo deste
acompanhamento e desta formação durante a acção apostólica. Ao mesmo
tempo que lhes confia a missão de permanecer numa cidade concreta para
«acabar de organizar o que ainda falta» (Tt 1, 5; cf. 1 Tm 1, 3-5),
dá-lhes os critérios para a vida pessoal e a actividade pastoral. Isto é
claramente distinto de todo o tipo de acompanhamento intimista, de
auto-realização isolada. Os discípulos missionários acompanham
discípulos missionários.
Ao redor da Palavra de Deus
174. Não é só a homilia que se deve
alimentar da Palavra de Deus. Toda a evangelização está fundada sobre
esta Palavra escutada, meditada, vivida, celebrada e testemunhada. A
Sagrada Escritura é fonte da evangelização. Por isso, é preciso
formar-se continuamente na escuta da Palavra. A Igreja não evangeliza,
se não se deixa continuamente evangelizar. É indispensável que a Palavra
de Deus «se torne cada vez mais o coração de toda a actividade
eclesial». A Palavra de Deus ouvida e celebrada, sobretudo na
Eucaristia, alimenta e reforça interiormente os cristãos e torna-os
capazes de um autêntico testemunho evangélico na vida diária. Superámos
já a velha contraposição entre Palavra e Sacramento: a Palavra
proclamada, viva e eficaz, prepara a recepção do Sacramento e, no
Sacramento, essa Palavra alcança a sua máxima eficácia.
175. O estudo da Sagrada Escritura deve
ser uma porta aberta para todos os crentes. É fundamental que a Palavra
revelada fecunde radicalmente a catequese e todos os esforços para
transmitir a fé. A evangelização requer a familiaridade com a Palavra de
Deus, e isto exige que as dioceses, paróquias e todos os grupos
católicos proponham um estudo sério e perseverante da Bíblia e promovam
igualmente a sua leitura orante pessoal e comunitária. Nós não
procuramos Deus tacteando, nem precisamos de esperar que Ele nos dirija a
palavra, porque realmente «Deus falou, já não é o grande desconhecido,
mas mostrou-Se a Si mesmo». Acolhamos o tesouro sublime da Palavra
revelada!
Capítulo IV
A DIMENSÃO SOCIAL DA EVANGELIZAÇÃO
A DIMENSÃO SOCIAL DA EVANGELIZAÇÃO
176. Evangelizar é tornar o Reino de
Deus presente no mundo. «Nenhuma definição parcial e fragmentada, porém,
chegará a dar razão da realidade rica, complexa e dinâmica que é a
evangelização, a não ser com o risco de a empobrecer e até mesmo de a
mutilar». Desejo agora partilhar as minhas preocupações relacionadas com
a dimensão social da evangelização, precisamente porque, se esta
dimensão não for devidamente explicitada, corre-se sempre o risco de
desfigurar o sentido autêntico e integral da missão evangelizadora.
I. As repercussões comunitárias e sociais do querigma
177. O querigma possui um conteúdo
inevitavelmente social: no próprio coração do Evangelho, aparece a vida
comunitária e o compromisso com os outros. O conteúdo do primeiro
anúncio tem uma repercussão moral imediata, cujo centro é a caridade.
Confissão da fé e compromisso social
178. Confessar um Pai que ama
infinitamente cada ser humano implica descobrir que «assim lhe confere
uma dignidade infinita». Confessar que o Filho de Deus assumiu a nossa
carne humana significa que cada pessoa humana foi elevada até ao próprio
coração de Deus. Confessar que Jesus deu o seu sangue por nós
impede-nos de ter qualquer dúvida acerca do amor sem limites que
enobrece todo o ser humano. A sua redenção tem um sentido social, porque
«Deus, em Cristo, não redime somente a pessoa individual, mas também as
relações sociais entre os homens». Confessar que o Espírito Santo actua
em todos implica reconhecer que Ele procura permear toda a situação
humana e todos os vínculos sociais: «O Espírito Santo possui uma
inventiva infinita, própria da mente divina, que sabe prover a desfazer
os nós das vicissitudes humanas mais complexas e impenetráveis». A
evangelização procura colaborar também com esta acção libertadora do
Espírito. O próprio mistério da Trindade nos recorda que somos criados à
imagem desta comunhão divina, pelo que não podemos realizar-nos nem
salvar-nos sozinhos. A partir do coração do Evangelho, reconhecemos a
conexão íntima que existe entre evangelização e promoção humana, que se
deve necessariamente exprimir e desenvolver em toda a acção
evangelizadora. A aceitação do primeiro anúncio, que convida a deixar-se
amar por Deus e a amá-Lo com o amor que Ele mesmo nos comunica, provoca
na vida da pessoa e nas suas acções uma primeira e fundamental reacção:
desejar, procurar e ter a peito o bem dos outros.
179. Este laço indissolúvel entre a
recepção do anúncio salvífico e um efectivo amor fraterno exprime-se
nalguns textos da Escritura, que convém considerar e meditar atentamente
para tirar deles todas as consequências. É uma mensagem a que
frequentemente nos habituamos e repetimos quase mecanicamente, mas sem
nos assegurarmos de que tenha real incidência na nossa vida e nas nossas
comunidades. Como é perigoso e prejudicial este habituar-se que nos
leva a perder a maravilha, a fascinação, o entusiasmo de viver o
Evangelho da fraternidade e da justiça! A Palavra de Deus ensina que, no
irmão, está o prolongamento permanente da Encarnação para cada um de
nós: «Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a
Mim mesmo o fizestes» (Mt 25, 40). O que fizermos aos outros, tem uma
dimensão transcendente: «Com a medida com que medirdes, assim sereis
medidos» (Mt 7, 2); e corresponde à misericórdia divina para connosco:
«Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso. Não julgueis e
não sereis julgados; não condeneis, e não sereis condenados; perdoai, e
sereis perdoados. Dai e ser-vos-á dado (…). A medida que usardes com os
outros será usada convosco» (Lc 6, 36-38). Nestes textos, exprime-se a
absoluta prioridade da «saída de si próprio para o irmão», como um dos
dois mandamentos principais que fundamentam toda a norma moral e como o
sinal mais claro para discernir sobre o caminho de crescimento
espiritual em resposta à doação absolutamente gratuita de Deus. Por isso
mesmo, «também o serviço da caridade é uma dimensão constitutiva da
missão da Igreja e expressão irrenunciável da sua própria essência».
Assim como a Igreja é missionária por natureza, também brota
inevitavelmente dessa natureza a caridade efectiva para com o próximo, a
compaixão que compreende, assiste e promove.
O Reino que nos chama
180. Ao lermos as Escrituras, fica bem
claro que a proposta do Evangelho não consiste só numa relação pessoal
com Deus. E a nossa resposta de amor também não deveria ser entendida
como uma mera soma de pequenos gestos pessoais a favor de alguns
indivíduos necessitados, o que poderia constituir uma «caridade por
receita», uma série de acções destinadas apenas a tranquilizar a própria
consciência. A proposta é o Reino de Deus (cf. Lc 4, 43); trata-se de
amar a Deus, que reina no mundo. Na medida em que Ele conseguir reinar
entre nós, a vida social será um espaço de fraternidade, de justiça, de
paz, de dignidade para todos. Por isso, tanto o anúncio como a
experiência cristã tendem a provocar consequências sociais. Procuremos o
seu Reino: «Procurai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o
mais se vos dará por acréscimo» (Mt 6, 33). O projecto de Jesus é
instaurar o Reino de seu Pai; por isso, pede aos seus discípulos:
«Proclamai que o Reino do Céu está perto» (Mt 10, 7).
181. O Reino, que se antecipa e cresce
entre nós, abrange tudo, como nos recorda aquele princípio de
discernimento que Paulo VI propunha a propósito do verdadeiro
desenvolvimento: «Todos os homens e o homem todo». Sabemos que «a
evangelização não seria completa, se ela não tomasse em consideração a
interpelação recíproca que se fazem constantemente o Evangelho e a vida
concreta, pessoal e social, dos homens». É o critério da universalidade,
próprio da dinâmica do Evangelho, dado que o Pai quer que todos os
homens se salvem; e o seu plano de salvação consiste em «submeter tudo a
Cristo, reunindo n’Ele o que há no céu e na terra» (Ef 1, 10). O
mandato é: «Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda
criatura» (Mc 16, 15), porque toda «a criação se encontra em expectativa
ansiosa, aguardando a revelação dos filhos de Deus» (Rm 8, 19). Toda a
criação significa também todos os aspectos da vida humana, de tal modo
que «a missão do anúncio da Boa Nova de Jesus Cristo tem destinação
universal. Seu mandato de caridade alcança todas as dimensões da
existência, todas as pessoas, todos os ambientes da convivência e todos
os povos. Nada do humano pode lhe parecer estranho». A verdadeira
esperança cristã, que procura o Reino escatológico, gera sempre
história.
A doutrina da Igreja sobre as questões sociais
182. Os ensinamentos da Igreja acerca de
situações contingentes estão sujeitos a maiores ou novos
desenvolvimentos e podem ser objecto de discussão, mas não podemos
evitar de ser concretos – sem pretender entrar em detalhes – para que os
grandes princípios sociais não fiquem meras generalidades que não
interpelam ninguém. É preciso tirar as suas consequências práticas, para
que «possam incidir com eficácia também nas complexas situações
hodiernas». Os Pastores, acolhendo as contribuições das diversas
ciências, têm o direito de exprimir opiniões sobre tudo aquilo que diz
respeito à vida das pessoas, dado que a tarefa da evangelização implica e
exige uma promoção integral de cada ser humano. Já não se pode afirmar
que a religião deve limitar-se ao âmbito privado e serve apenas para
preparar as almas para o céu. Sabemos que Deus deseja a felicidade dos
seus filhos também nesta terra, embora estejam chamados à plenitude
eterna, porque Ele criou todas as coisas «para nosso usufruto» (1 Tm 6,
17), para que todos possam usufruir delas. Por isso, a conversão cristã
exige rever «especialmente tudo o que diz respeito à ordem social e
consecução do bem comum».
183. Por conseguinte, ninguém pode
exigir-nos que releguemos a religião para a intimidade secreta das
pessoas, sem qualquer influência na vida social e nacional, sem nos
preocupar com a saúde das instituições da sociedade civil, sem nos
pronunciar sobre os acontecimentos que interessam aos cidadãos. Quem
ousaria encerrar num templo e silenciar a mensagem de São Francisco de
Assis e da Beata Teresa de Calcutá? Eles não o poderiam aceitar. Uma fé
autêntica – que nunca é cómoda nem individualista – comporta sempre um
profundo desejo de mudar o mundo, transmitir valores, deixar a terra um
pouco melhor depois da nossa passagem por ela. Amamos este magnífico
planeta, onde Deus nos colocou, e amamos a humanidade que o habita, com
todos os seus dramas e cansaços, com os seus anseios e esperanças, com
os seus valores e fragilidades. A terra é a nossa casa comum, e todos
somos irmãos. Embora «a justa ordem da sociedade e do Estado seja dever
central da política», a Igreja «não pode nem deve ficar à margem na luta
pela justiça». Todos os cristãos, incluindo os Pastores, são chamados a
preocupar-se com a construção dum mundo melhor. É disto mesmo que se
trata, pois o pensamento social da Igreja é primariamente positivo e
construtivo, orienta uma acção transformadora e, neste sentido, não
deixa de ser um sinal de esperança que brota do coração amoroso de Jesus
Cristo. Ao mesmo tempo, «une o próprio empenho ao esforço em campo
social das demais Igrejas e Comunidades eclesiais, tanto na reflexão
doutrinal como na prática».
184. Aqui não é o momento para explanar
todas as graves questões sociais que afectam o mundo actual, algumas das
quais já comentei no terceiro capítulo. Este não é um documento social
e, para nos ajudar a reflectir sobre estes vários temas, temos um
instrumento muito apropriado no Compêndio da Doutrina Social da Igreja,
cujo uso e estudo vivamente recomendo. Além disso, nem o Papa nem a
Igreja possui o monopólio da interpretação da realidade social ou da
apresentação de soluções para os problemas contemporâneos. Posso repetir
aqui o que indicava, com grande lucidez, Paulo VI: «Perante situações,
assim tão diversificadas, torna-se-nos difícil tanto o pronunciar uma
palavra única, como o propor uma solução que tenha um valor universal.
Mas, isso não é ambição nossa, nem mesmo a nossa missão. É às
comunidades cristãs que cabe analisarem, com objectividade, a situação
própria do seu país».
185. Em seguida, procurarei
concentrar-me sobre duas grandes questões que me parecem fundamentais
neste momento da história. Desenvolvê-las-ei com uma certa amplitude,
porque considero que irão determinar o futuro da humanidade. A primeira é
a inclusão social dos pobres; e a segunda, a questão da paz e do
diálogo social.
II. A inclusão social dos pobres
186. Deriva da nossa fé em Cristo, que
Se fez pobre e sempre Se aproximou dos pobres e marginalizados, a
preocupação pelo desenvolvimento integral dos mais abandonados da
sociedade.
Unidos a Deus, ouvimos um clamor
187. Cada cristão e cada comunidade são
chamados a ser instrumentos de Deus ao serviço da libertação e promoção
dos pobres, para que possam integrar-se plenamente na sociedade; isto
supõe estar docilmente atentos, para ouvir o clamor do pobre e
socorrê-lo. Basta percorrer as Escrituras, para descobrir como o Pai bom
quer ouvir o clamor dos pobres: «Eu bem vi a opressão do meu povo que
está no Egipto, e ouvi o seu clamor diante dos seus inspectores;
conheço, na verdade, os seus sofrimentos. Desci a fim de os libertar
(…). E agora, vai; Eu te envio…» (Ex 3, 7-8.10). E Ele mostra-Se
solícito com as suas necessidades: «Os filhos de Israel clamaram, então,
ao Senhor, e o Senhor enviou-lhes um salvador» (Jz 3, 15). Ficar surdo a
este clamor, quando somos os instrumentos de Deus para ouvir o pobre,
coloca-nos fora da vontade do Pai e do seu projecto, porque esse pobre
«clamaria ao Senhor contra ti, e aquilo tornar-se-ia para ti um pecado»
(Dt 15, 9). E a falta de solidariedade, nas suas necessidades, influi
directamente sobre a nossa relação com Deus: «Se te amaldiçoa na
amargura da sua alma, Aquele que o criou ouvirá a sua oração» (Sir 4,
6). Sempre retorna a antiga pergunta: «Se alguém possuir bens deste
mundo e, vendo o seu irmão com necessidade, lhe fechar o seu coração,
como é que o amor de Deus pode permanecer nele?» (1 Jo 3, 17). Lembremos
também com quanta convicção o Apóstolo São Tiago retomava a imagem do
clamor dos oprimidos: «Olhai que o salário que não pagastes, aos
trabalhadores que ceifaram os vossos campos, está a clamar; e os
clamores dos ceifeiros chegaram aos ouvidos do Senhor do universo» (5,
4).
188. A Igreja reconheceu que a exigência
de ouvir este clamor deriva da própria obra libertadora da graça em
cada um de nós, pelo que não se trata de uma missão reservada apenas a
alguns: «A Igreja, guiada pelo Evangelho da Misericórdia e pelo amor ao
homem, escuta o clamor pela justiça e deseja responder com todas as suas
forças». Nesta linha, se pode entender o pedido de Jesus aos seus
discípulos: «Dai-lhes vós mesmos de comer» (Mc 6, 37), que envolve tanto
a cooperação para resolver as causas estruturais da pobreza e promover o
desenvolvimento integral dos pobres, como os gestos mais simples e
diários de solidariedade para com as misérias muito concretas que
encontramos. Embora um pouco desgastada e, por vezes, até mal
interpretada, a palavra «solidariedade» significa muito mais do que
alguns actos esporádicos de generosidade; supõe a criação duma nova
mentalidade que pense em termos de comunidade, de prioridade da vida de
todos sobre a apropriação dos bens por parte de alguns.
189. A solidariedade é uma reacção
espontânea de quem reconhece a função social da propriedade e o destino
universal dos bens como realidades anteriores à propriedade privada. A
posse privada dos bens justifica-se para cuidar deles e aumentá-los de
modo a servirem melhor o bem comum, pelo que a solidariedade deve ser
vivida como a decisão de devolver ao pobre o que lhe corresponde. Estas
convicções e práticas de solidariedade, quando se fazem carne, abrem
caminho a outras transformações estruturais e tornam-nas possíveis. Uma
mudança nas estruturas, sem se gerar novas convicções e atitudes, fará
com que essas mesmas estruturas, mais cedo ou mais tarde, se tornem
corruptas, pesadas e ineficazes.
190. Às vezes trata-se de ouvir o clamor
de povos inteiros, dos povos mais pobres da terra, porque «a paz
funda-se não só no respeito pelos direitos do homem, mas também no
respeito pelo direito dos povos». Lamentavelmente, até os direitos
humanos podem ser usados como justificação para uma defesa exacerbada
dos direitos individuais ou dos direitos dos povos mais ricos.
Respeitando a independência e a cultura de cada nação, é preciso
recordar-se sempre de que o planeta é de toda a humanidade e para toda a
humanidade, e que o simples facto de ter nascido num lugar com menores
recursos ou menor desenvolvimento não justifica que algumas pessoas
vivam menos dignamente. É preciso repetir que «os mais favorecidos devem
renunciar a alguns dos seus direitos, para poderem colocar, com mais
liberalidade, os seus bens ao serviço dos outros». Para falarmos
adequadamente dos nossos direitos, é preciso alongar mais o olhar e
abrir os ouvidos ao clamor dos outros povos ou de outras regiões do
próprio país. Precisamos de crescer numa solidariedade que «permita a
todos os povos tornarem-se artífices do seu destino», tal como «cada
homem é chamado a desenvolver-se».
191. Animados pelos seus Pastores, os
cristãos são chamados, em todo o lugar e circunstância, a ouvir o clamor
dos pobres, como bem se expressaram os Bispos do Brasil: «Desejamos
assumir, a cada dia, as alegrias e esperanças, as angústias e tristezas
do povo brasileiro, especialmente das populações das periferias urbanas e
das zonas rurais – sem terra, sem teto, sem pão, sem saúde – lesadas em
seus direitos. Vendo a sua miséria, ouvindo os seus clamores e
conhecendo o seu sofrimento, escandaliza-nos o fato de saber que existe
alimento suficiente para todos e que a fome se deve à má repartição dos
bens e da renda. O problema se agrava com a prática generalizada do
desperdício».
192. Mas queremos ainda mais, o nosso
sonho voa mais alto. Não se fala apenas de garantir a comida ou um
decoroso «sustento» para todos, mas «prosperidade e civilização em seus
múltiplos aspectos». Isto engloba educação, acesso aos cuidados de saúde
e especialmente trabalho, porque, no trabalho livre, criativo,
participativo e solidário, o ser humano exprime e engrandece a dignidade
da sua vida. O salário justo permite o acesso adequado aos outros bens
que estão destinados ao uso comum.
Fidelidade ao Evangelho, para não correr em vão
193. Este imperativo de ouvir o clamor
dos pobres faz-se carne em nós, quando no mais íntimo de nós mesmos nos
comovemos à vista do sofrimento alheio. Voltemos a ler alguns
ensinamentos da Palavra de Deus sobre a misericórdia, para que ressoem
vigorosamente na vida da Igreja. O Evangelho proclama: «Felizes os
misericordiosos, porque alcançarão misericórdia» (Mt 5, 7). O Apóstolo
São Tiago ensina que a misericórdia para com os outros permite-nos sair
triunfantes no juízo divino: «Falai e procedei como pessoas que hão-de
ser julgadas segundo a lei da liberdade. Porque, quem não pratica a
misericórdia, será julgado sem misericórdia. Mas a misericórdia não teme
o julgamento» (2, 12-13). Neste texto, São Tiago aparece-nos como
herdeiro do que tinha de mais rico a espiritualidade judaica do
pós-exílio, a qual atribuía um especial valor salvífico à misericórdia:
«Redime o teu pecado pela justiça, e as tuas iniquidades, pela piedade
para com os infelizes; talvez isto consiga prolongar a tua prosperidade»
(Dn 4, 24). Nesta mesma perspectiva, a literatura sapiencial fala da
esmola como exercício concreto da misericórdia para com os necessitados:
«A esmola livra da morte e limpa de todo o pecado» (Tb 12, 9). E de
forma ainda mais sensível se exprime Ben-Sirá: «A água apaga o fogo
ardente, e a esmola expia o pecado» (3, 30). Encontramos a mesma síntese
no Novo Testamento: «Mantende entre vós uma intensa caridade, porque o
amor cobre a multidão dos pecados» (1 Pd 4, 8). Esta verdade permeou
profundamente a mentalidade dos Padres da Igreja, tendo exercido uma
resistência profética como alternativa cultural face ao individualismo
hedonista pagão. Recordemos apenas um exemplo: «Tal como, em perigo de
incêndio, correríamos a buscar água para o apagar (…), o mesmo
deveríamos fazer quando nos turvamos porque, da nossa palha, irrompeu a
chama do pecado; assim, quando se nos proporciona a ocasião de uma obra
cheia de misericórdia, alegremo-nos por ela como se fosse uma fonte que
nos é oferecida e na qual podemos extinguir o incêndio».
194. É uma mensagem tão clara, tão
directa, tão simples e eloquente que nenhuma hermenêutica eclesial tem o
direito de relativizar. A reflexão da Igreja sobre estes textos não
deveria ofuscar nem enfraquecer o seu sentido exortativo, mas antes
ajudar a assumi-los com coragem e ardor. Para quê complicar o que é tão
simples? As elaborações conceptuais hão-de favorecer o contacto com a
realidade que pretendem explicar, e não afastar-nos dela. Isto vale
sobretudo para as exortações bíblicas que convidam, com tanta
determinação, ao amor fraterno, ao serviço humilde e generoso, à
justiça, à misericórdia para com o pobre. Jesus ensinou-nos este caminho
de reconhecimento do outro, com as suas palavras e com os seus gestos.
Para quê ofuscar o que é tão claro? Não nos preocupemos só com não cair
em erros doutrinais, mas também com ser fiéis a este caminho luminoso de
vida e sabedoria. Porque «é frequente dirigir aos defensores da
“ortodoxia” a acusação de passividade, de indulgência ou de cumplicidade
culpáveis frente a situações intoleráveis de injustiça e de regimes
políticos que mantêm estas situações».
195. Quando São Paulo foi ter com os
Apóstolos a Jerusalém para discernir «se estava a correr ou tinha
corrido em vão» (Gal 2, 2), o critério-chave de autenticidade que lhe
indicaram foi que não se esquecesse dos pobres (cf. Gal 2, 10). Este
critério importante para que as comunidades paulinas não se deixassem
arrastar pelo estilo de vida individualista dos pagãos, tem uma grande
actualidade no contexto actual em que tende a desenvolver-se um novo
paganismo individualista. A própria beleza do Evangelho nem sempre a
conseguimos manifestar adequadamente, mas há um sinal que nunca deve
faltar: a opção pelos últimos, por aqueles que a sociedade descarta e
lança fora.
196. Às vezes somos duros de coração e
de mente, esquecemo-nos, entretemo-nos, extasiamo-nos com as imensas
possibilidades de consumo e de distracção que esta sociedade oferece.
Gera-se assim uma espécie de alienação que nos afecta a todos, pois
«alienada é a sociedade que, nas suas formas de organização social, de
produção e de consumo, torna mais difícil a realização deste dom e a
constituição dessa solidariedade inter-humana».
O lugar privilegiado dos pobres no povo de Deus
197. No coração de Deus, ocupam lugar
preferencial os pobres, tanto que até Ele mesmo «Se fez pobre» (2 Cor 8,
9). Todo o caminho da nossa redenção está assinalado pelos pobres. Esta
salvação veio a nós, através do «sim» duma jovem humilde, duma pequena
povoação perdida na periferia dum grande império. O Salvador nasceu num
presépio, entre animais, como sucedia com os filhos dos mais pobres; foi
apresentado no Templo, juntamente com dois pombinhos, a oferta de quem
não podia permitir-se pagar um cordeiro (cf. Lc 2, 24; Lv 5, 7); cresceu
num lar de simples trabalhadores, e trabalhou com suas mãos para ganhar
o pão. Quando começou a anunciar o Reino, seguiam-No multidões de
deserdados, pondo assim em evidência o que Ele mesmo dissera: «O
Espírito do Senhor está sobre Mim, porque Me ungiu para anunciar a
Boa-Nova aos pobres» (Lc 4, 18). A quantos sentiam o peso do sofrimento,
acabrunhados pela pobreza, assegurou que Deus os tinha no âmago do seu
coração: «Felizes vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus» (Lc 6,
20); e com eles Se identificou: «Tive fome e destes-Me de comer»,
ensinando que a misericórdia para com eles é a chave do Céu (cf. Mt 25,
34-40).
198. Para a Igreja, a opção pelos pobres
é mais uma categoria teológica que cultural, sociológica, política ou
filosófica. Deus «manifesta a sua misericórdia antes de mais» a eles.
Esta preferência divina tem consequências na vida de fé de todos os
cristãos, chamados a possuírem «os mesmos sentimentos que estão em
Cristo Jesus» (Fl 2, 5). Inspirada por tal preferência, a Igreja fez uma
opção pelos pobres, entendida como uma «forma especial de primado na
prática da caridade cristã, testemunhada por toda a Tradição da Igreja».
Como ensinava Bento XVI, esta opção «está implícita na fé cristológica
naquele Deus que Se fez pobre por nós, para enriquecer-nos com sua
pobreza». Por isso, desejo uma Igreja pobre para os pobres. Estes têm
muito para nos ensinar. Além de participar do sensus fidei, nas suas
próprias dores conhecem Cristo sofredor. É necessário que todos nos
deixemos evangelizar por eles. A nova evangelização é um convite a
reconhecer a força salvífica das suas vidas, e a colocá-los no centro do
caminho da Igreja. Somos chamados a descobrir Cristo neles: não só a
emprestar-lhes a nossa voz nas suas causas, mas também a ser seus
amigos, a escutá-los, a compreendê-los e a acolher a misteriosa
sabedoria que Deus nos quer comunicar através deles.
199. O nosso compromisso não consiste
exclusivamente em acções ou em programas de promoção e assistência;
aquilo que o Espírito põe em movimento não é um excesso de activismo,
mas primariamente uma atenção prestada ao outro «considerando-o como um
só consigo mesmo». Esta atenção amiga é o início duma verdadeira
preocupação pela sua pessoa e, a partir dela, desejo procurar
efectivamente o seu bem. Isto implica apreciar o pobre na sua bondade
própria, com o seu modo de ser, com a sua cultura, com a sua forma de
viver a fé. O amor autêntico é sempre contemplativo, permitindo-nos
servir o outro não por necessidade ou vaidade, mas porque ele é belo,
independentemente da sua aparência: «Do amor, pelo qual uma pessoa é
agradável a outra, depende que lhe dê algo de graça». Quando amado, o
pobre «é estimado como de alto valor», e isto diferencia a autêntica
opção pelos pobres de qualquer ideologia, de qualquer tentativa de
utilizar os pobres ao serviço de interesses pessoais ou políticos.
Unicamente a partir desta proximidade real e cordial é que podemos
acompanhá-los adequadamente no seu caminho de libertação. Só isto
tornará possível que «os pobres se sintam, em cada comunidade cristã,
como “em casa”. Não seria, este estilo, a maior e mais eficaz
apresentação da boa nova do Reino?» Sem a opção preferencial pelos
pobres, «o anúncio do Evangelho – e este anúncio é a primeira caridade –
corre o risco de não ser compreendido ou de afogar-se naquele mar de
palavras que a actual sociedade da comunicação diariamente nos
apresenta».
200. Dado que esta Exortação se dirige
aos membros da Igreja Católica, desejo afirmar, com mágoa, que a pior
discriminação que sofrem os pobres é a falta de cuidado espiritual. A
imensa maioria dos pobres possui uma especial abertura à fé; tem
necessidade de Deus e não podemos deixar de lhe oferecer a sua amizade, a
sua bênção, a sua Palavra, a celebração dos Sacramentos e a proposta
dum caminho de crescimento e amadurecimento na fé. A opção preferencial
pelos pobres deve traduzir-se, principalmente, numa solicitude religiosa
privilegiada e prioritária.
201. Ninguém deveria dizer que se mantém
longe dos pobres, porque as suas opções de vida implicam prestar mais
atenção a outras incumbências. Esta é uma desculpa frequente nos
ambientes académicos, empresariais ou profissionais, e até mesmo
eclesiais. Embora se possa dizer, em geral, que a vocação e a missão
próprias dos fiéis leigos é a transformação das diversas realidades
terrenas para que toda a actividade humana seja transformada pelo
Evangelho, ninguém pode sentir-se exonerado da preocupação pelos pobres e
pela justiça social: «A conversão espiritual, a intensidade do amor a
Deus e ao próximo, o zelo pela justiça e pela paz, o sentido evangélico
dos pobres e da pobreza são exigidos a todos». Temo que também estas
palavras sejam objecto apenas de alguns comentários, sem verdadeira
incidência prática. Apesar disso, tenho confiança na abertura e nas boas
disposições dos cristãos e peço-vos que procureis, comunitariamente,
novos caminhos para acolher esta renovada proposta.
Economia e distribuição das entradas
202. A necessidade de resolver as causas
estruturais da pobreza não pode esperar; e não apenas por uma exigência
pragmática de obter resultados e ordenar a sociedade, mas também para a
curar duma mazela que a torna frágil e indigna e que só poderá levá-la a
novas crises. Os planos de assistência, que acorrem a determinadas
emergências, deveriam considerar-se apenas como respostas provisórias.
Enquanto não forem radicalmente solucionados os problemas dos pobres,
renunciando à autonomia absoluta dos mercados e da especulação
financeira e atacando as causas estruturais da desigualdade social, não
se resolverão os problemas do mundo e, em definitivo, problema algum. A
desigualdade é a raiz dos males sociais.
203. A dignidade de cada pessoa humana e
o bem comum são questões que deveriam estruturar toda a política
económica, mas às vezes parecem somente apêndices adicionados de fora
para completar um discurso político sem perspectivas nem programas de
verdadeiro desenvolvimento integral. Quantas palavras se tornaram
molestas para este sistema! Molesta que se fale de ética, molesta que se
fale de solidariedade mundial, molesta que se fale de distribuição dos
bens, molesta que se fale de defender os postos de trabalho, molesta que
se fale da dignidade dos fracos, molesta que se fale de um Deus que
exige um compromisso em prol da justiça. Outras vezes acontece que estas
palavras se tornam objecto duma manipulação oportunista que as desonra.
A cómoda indiferença diante destas questões esvazia a nossa vida e as
nossas palavras de todo o significado. A vocação dum empresário é uma
nobre tarefa, desde que se deixe interpelar por um sentido mais amplo da
vida; isto permite-lhe servir verdadeiramente o bem comum com o seu
esforço por multiplicar e tornar os bens deste mundo mais acessíveis a
todos.
204. Não podemos mais confiar nas forças
cegas e na mão invisível do mercado. O crescimento equitativo exige
algo mais do que o crescimento económico, embora o pressuponha; requer
decisões, programas, mecanismos e processos especificamente orientados
para uma melhor distribuição das entradas, para a criação de
oportunidades de trabalho, para uma promoção integral dos pobres que
supere o mero assistencialismo. Longe de mim propor um populismo
irresponsável, mas a economia não pode mais recorrer a remédios que são
um novo veneno, como quando se pretende aumentar a rentabilidade
reduzindo o mercado de trabalho e criando assim novos excluídos.
205. Peço a Deus que cresça o número de
políticos capazes de entrar num autêntico diálogo que vise efectivamente
sanar as raízes profundas e não a aparência dos males do nosso mundo. A
política, tão denegrida, é uma sublime vocação, é uma das formas mais
preciosas da caridade, porque busca o bem comum. Temos de nos convencer
que a caridade «é o princípio não só das micro-relações estabelecidas
entre amigos, na família, no pequeno grupo, mas também das
macro-relações como relacionamentos sociais, económicos, políticos».
Rezo ao Senhor para que nos conceda mais políticos, que tenham
verdadeiramente a peito a sociedade, o povo, a vida dos pobres. É
indispensável que os governantes e o poder financeiro levantem o olhar e
alarguem as suas perspectivas, procurando que haja trabalho digno,
instrução e cuidados sanitários para todos os cidadãos. E porque não
acudirem a Deus pedindo-Lhe que inspire os seus planos? Estou convencido
de que, a partir duma abertura à transcendência, poder-se-ia formar uma
nova mentalidade política e económica que ajudaria a superar a
dicotomia absoluta entre a economia e o bem comum social.
206. A economia – como indica o próprio
termo – deveria ser a arte de alcançar uma adequada administração da
casa comum, que é o mundo inteiro. Todo o acto económico duma certa
envergadura, que se realiza em qualquer parte do planeta, repercute-se
no mundo inteiro, pelo que nenhum Governo pode agir à margem duma
responsabilidade comum. Na realidade, torna-se cada vez mais difícil
encontrar soluções a nível local para as enormes contradições globais,
pelo que a política local se satura de problemas por resolver. Se
realmente queremos alcançar uma economia global saudável, precisamos,
neste momento da história, de um modo mais eficiente de interacção que,
sem prejuízo da soberania das nações, assegure o bem-estar económico a
todos os países e não apenas a alguns.
207. E qualquer comunidade da Igreja, na
medida em que pretender subsistir tranquila sem se ocupar criativamente
nem cooperar de forma eficaz para que os pobres vivam com dignidade e
haja a inclusão de todos, correrá também o risco da sua dissolução,
mesmo que fale de temas sociais ou critique os Governos. Facilmente
acabará submersa pelo mundanismo espiritual, dissimulado em práticas
religiosas, reuniões infecundas ou discursos vazios.
208. Se alguém se sentir ofendido com as
minhas palavras, saiba que as exprimo com estima e com a melhor das
intenções, longe de qualquer interesse pessoal ou ideologia política. A
minha palavra não é a dum inimigo nem a dum opositor. A mim interessa-me
apenas procurar que, quantos vivem escravizados por uma mentalidade
individualista, indiferente e egoísta, possam libertar-se dessas cadeias
indignas e alcancem um estilo de vida e de pensamento mais humano, mais
nobre, mais fecundo, que dignifique a sua passagem por esta terra.
Cuidar da fragilidade
209. Jesus, o evangelizador por
excelência e o Evangelho em pessoa, identificou-Se especialmente com os
mais pequeninos (cf. Mt 25, 40). Isto recorda-nos, a todos os cristãos,
que somos chamados a cuidar dos mais frágeis da Terra. Mas, no modelo
«do êxito» e «individualista» em vigor, parece que não faz sentido
investir para que os lentos, fracos ou menos dotados possam também
singrar na vida.
210. Embora aparentemente não nos traga
benefícios tangíveis e imediatos, é indispensável prestar atenção e
debruçar-nos sobre as novas formas de pobreza e fragilidade, nas quais
somos chamados a reconhecer Cristo sofredor: os sem abrigo, os
toxicodependentes, os refugiados, os povos indígenas, os idosos cada vez
mais sós e abandonados, etc. Os migrantes representam um desafio
especial para mim, por ser Pastor duma Igreja sem fronteiras que se
sente mãe de todos. Por isso, exorto os países a uma abertura generosa,
que, em vez de temer a destruição da identidade local, seja capaz de
criar novas sínteses culturais. Como são belas as cidades que superam a
desconfiança doentia e integram os que são diferentes, fazendo desta
integração um novo factor de progresso! Como são encantadoras as cidades
que, já no seu projecto arquitectónico, estão cheias de espaços que
unem, relacionam, favorecem o reconhecimento do outro!
211. Sempre me angustiou a situação das
pessoas que são objecto das diferentes formas de tráfico. Quem dera que
se ouvisse o grito de Deus, perguntando a todos nós: «Onde está o teu
irmão?» (Gn 4, 9). Onde está o teu irmão escravo? Onde está o irmão que
estás matando cada dia na pequena fábrica clandestina, na rede da
prostituição, nas crianças usadas para a mendicidade, naquele que tem de
trabalhar às escondidas porque não foi regularizado? Não nos façamos de
distraídos! Há muita cumplicidade… A pergunta é para todos! Nas nossas
cidades, está instalado este crime mafioso e aberrante, e muitos têm as
mãos cheias de sangue devido a uma cómoda e muda cumplicidade.
212. Duplamente pobres são as mulheres
que padecem situações de exclusão, maus-tratos e violência, porque
frequentemente têm menores possibilidades de defender os seus direitos. E
todavia, também entre elas, encontramos continuamente os mais
admiráveis gestos de heroísmo quotidiano na defesa e cuidado da
fragilidade das suas famílias.
213. Entre estes seres frágeis, de que a
Igreja quer cuidar com predilecção, estão também os nascituros, os mais
inermes e inocentes de todos, a quem hoje se quer negar a dignidade
humana para poder fazer deles o que apetece, tirando-lhes a vida e
promovendo legislações para que ninguém o possa impedir. Muitas vezes,
para ridiculizar jocosamente a defesa que a Igreja faz da vida dos
nascituros, procura-se apresentar a sua posição como ideológica,
obscurantista e conservadora; e no entanto esta defesa da vida nascente
está intimamente ligada à defesa de qualquer direito humano. Supõe a
convicção de que um ser humano é sempre sagrado e inviolável, em
qualquer situação e em cada etapa do seu desenvolvimento. É fim em si
mesmo, e nunca um meio para resolver outras dificuldades. Se cai esta
convicção, não restam fundamentos sólidos e permanentes para a defesa
dos direitos humanos, que ficariam sempre sujeitos às conveniências
contingentes dos poderosos de turno. Por si só a razão é suficiente para
se reconhecer o valor inviolável de qualquer vida humana, mas, se a
olhamos também a partir da fé, «toda a violação da dignidade pessoal do
ser humano clama por vingança junto de Deus e torna-se ofensa ao Criador
do homem».
214. E precisamente porque é uma questão
que mexe com a coerência interna da nossa mensagem sobre o valor da
pessoa humana, não se deve esperar que a Igreja altere a sua posição
sobre esta questão. A propósito, quero ser completamente honesto. Este
não é um assunto sujeito a supostas reformas ou «modernizações». Não é
opção progressista pretender resolver os problemas, eliminando uma vida
humana. Mas é verdade também que temos feito pouco para acompanhar
adequadamente as mulheres que estão em situações muito duras, nas quais o
aborto lhes aparece como uma solução rápida para as suas profundas
angústias, particularmente quando a vida que cresce nelas surgiu como
resultado duma violência ou num contexto de extrema pobreza. Quem pode
deixar de compreender estas situações de tamanho sofrimento?
215. Há outros seres frágeis e
indefesos, que muitas vezes ficam à mercê dos interesses económicos ou
dum uso indiscriminado. Refiro-me ao conjunto da criação. Nós, os seres
humanos, não somos meramente beneficiários, mas guardiões das outras
criaturas. Pela nossa realidade corpórea, Deus uniu-nos tão
estreitamente ao mundo que nos rodeia, que a desertificação do solo é
como uma doença para cada um, e podemos lamentar a extinção de uma
espécie como se fosse uma mutilação. Não deixemos que, à nossa passagem,
fiquem sinais de destruição e de morte que afectem a nossa vida e a das
gerações futuras. Neste sentido, faço meu o expressivo e profético
lamento que, já há vários anos, formularam os Bispos das Filipinas: «Uma
incrível variedade de insectos vivia no bosque; e estavam ocupados com
todo o tipo de tarefas. (…) Os pássaros voavam pelo ar, as suas penas
brilhantes e os seus variados gorjeios acrescentavam cor e melodia ao
verde dos bosques. (…) Deus quis que esta terra fosse para nós, suas
criaturas especiais, mas não para a podermos destruir ou transformar num
baldio. (…) Depois de uma única noite de chuva, observa os rios de
castanho-chocolate da tua localidade e lembra-te que estão a arrastar o
sangue vivo da terra para o mar. (…) Como poderão os peixes nadar em
esgotos como o rio Pasig e muitos outros rios que poluímos? Quem
transformou o maravilhoso mundo marinho em cemitérios subaquáticos
despojados de vida e de cor?»
216. Pequenos mas fortes no amor de
Deus, como São Francisco de Assis, todos nós, cristãos, somos chamados a
cuidar da fragilidade do povo e do mundo em que vivemos.
III. O bem comum e a paz social
217. Falámos muito sobre a alegria e o amor, mas a Palavra de Deus menciona também o fruto da paz (cf. Gal 5, 22).
218. A paz social não pode ser entendida
como irenismo ou como mera ausência de violência obtida pela imposição
de uma parte sobre as outras. Também seria uma paz falsa aquela que
servisse como desculpa para justificar uma organização social que
silencie ou tranquilize os mais pobres, de modo que aqueles que gozam
dos maiores benefícios possam manter o seu estilo de vida sem
sobressaltos, enquanto os outros sobrevivem como podem. As
reivindicações sociais, que têm a ver com a distribuição das entradas, a
inclusão social dos pobres e os direitos humanos não podem ser
sufocados com o pretexto de construir um consenso de escritório ou uma
paz efémera para uma minoria feliz. A dignidade da pessoa humana e o bem
comum estão por cima da tranquilidade de alguns que não querem
renunciar aos seus privilégios. Quando estes valores são afectados, é
necessária uma voz profética.
219. E a paz também «não se reduz a uma
ausência de guerra, fruto do equilíbrio sempre precário das forças.
Constrói-se, dia a dia, na busca duma ordem querida por Deus, que traz
consigo uma justiça mais perfeita entre os homens». Enfim, uma paz que
não surja como fruto do desenvolvimento integral de todos, não terá
futuro e será sempre semente de novos conflitos e variadas formas de
violência.
220. Em cada nação, os habitantes
desenvolvem a dimensão social da sua vida, configurando-se como cidadãos
responsáveis dentro de um povo e não como massa arrastada pelas forças
dominantes. Lembremo-nos que «ser cidadão fiel é uma virtude, e a
participação na vida política é uma obrigação moral». Mas, tornar-se um
povo é algo mais, exigindo um processo constante no qual cada nova
geração está envolvida. É um trabalho lento e árduo que exige querer
integrar-se e aprender a fazê-lo até se desenvolver uma cultura do
encontro numa harmonia pluriforme.
221. Para avançar nesta construção de um
povo em paz, justiça e fraternidade, há quatro princípios relacionados
com tensões bipolares próprias de toda a realidade social. Derivam dos
grandes postulados da Doutrina Social da Igreja, que constituem o
«primeiro e fundamental parâmetro de referência para a interpretação e o
exame dos fenómenos sociais». À luz deles, desejo agora propor estes
quatro princípios que orientam especificamente o desenvolvimento da
convivência social e a construção de um povo onde as diferenças se
harmonizam dentro de um projecto comum. Faço-o na convicção de que a sua
aplicação pode ser um verdadeiro caminho para a paz dentro de cada
nação e no mundo inteiro.
O tempo é superior ao espaço
222. Existe uma tensão bipolar entre a
plenitude e o limite. A plenitude gera a vontade de possuir tudo, e o
limite é o muro que nos aparece pela frente. O «tempo», considerado em
sentido amplo, faz referimento à plenitude como expressão do horizonte
que se abre diante de nós, e o momento é expressão do limite que se vive
num espaço circunscrito. Os cidadãos vivem em tensão entre a conjuntura
do momento e a luz do tempo, do horizonte maior, da utopia que nos abre
ao futuro como causa final que atrai. Daqui surge um primeiro princípio
para progredir na construção de um povo: o tempo é superior ao espaço.
223. Este princípio permite trabalhar a
longo prazo, sem a obsessão pelos resultados imediatos. Ajuda a
suportar, com paciência, situações difíceis e hostis ou as mudanças de
planos que o dinamismo da realidade impõe. É um convite a assumir a
tensão entre plenitude e limite, dando prioridade ao tempo. Um dos
pecados que, às vezes, se nota na actividade sociopolítica é privilegiar
os espaços de poder em vez dos tempos dos processos. Dar prioridade ao
espaço leva-nos a proceder como loucos para resolver tudo no momento
presente, para tentar tomar posse de todos os espaços de poder e
autoafirmação. É cristalizar os processos e pretender pará-los. Dar
prioridade ao tempo é ocupar-se mais com iniciar processos do que
possuir espaços. O tempo ordena os espaços, ilumina-os e transforma-os
em elos duma cadeia em constante crescimento, sem marcha atrás. Trata-se
de privilegiar as acções que geram novos dinamismos na sociedade e
comprometem outras pessoas e grupos que os desenvolverão até frutificar
em acontecimentos históricos importantes. Sem ansiedade, mas com
convicções claras e tenazes.
224. Às vezes interrogo-me sobre quais
são as pessoas que, no mundo actual, se preocupam realmente mais com
gerar processos que construam um povo do que com obter resultados
imediatos que produzam ganhos políticos fáceis, rápidos e efémeros, mas
que não constroem a plenitude humana. A história julgá-los-á talvez com
aquele critério enunciado por Romano Guardini: «O único padrão para
avaliar justamente uma época é perguntar-se até que ponto, nela, se
desenvolve e alcança uma autêntica razão de ser a plenitude da
existência humana, de acordo com o carácter peculiar e as possibilidades
da dita época».
225. Este critério é muito apropriado
também para a evangelização, que exige ter presente o horizonte, adoptar
os processos possíveis e a estrada longa. O próprio Senhor, na sua vida
mortal, deu a entender várias vezes aos seus discípulos que havia
coisas que ainda não podiam compreender e era necessário esperar o
Espírito Santo (cf. Jo 16, 12-13). A parábola do trigo e do joio (cf. Mt
13, 24-30) descreve um aspecto importante de evangelização que consiste
em mostrar como o inimigo pode ocupar o espaço do Reino e causar dano
com o joio, mas é vencido pela bondade do trigo que se manifesta com o
tempo.
A unidade prevalece sobre o conflito
226. O conflito não pode ser ignorado ou
dissimulado; deve ser aceitado. Mas, se ficamos encurralados nele,
perdemos a perspectiva, os horizontes reduzem-se e a própria realidade
fica fragmentada. Quando paramos na conjuntura conflitual, perdemos o
sentido da unidade profunda da realidade.
227. Perante o conflito, alguns
limitam-se a olhá-lo e passam adiante como se nada fosse, lavam-se as
mãos para poder continuar com a sua vida. Outros entram de tal maneira
no conflito que ficam prisioneiros, perdem o horizonte, projectam nas
instituições as suas próprias confusões e insatisfações e, assim, a
unidade torna-se impossível. Mas há uma terceira forma, a mais adequada,
de enfrentar o conflito: é aceitar suportar o conflito, resolvê-lo e
transformá-lo no elo de ligação de um novo processo. «Felizes os
pacificadores» (Mt 5, 9)!
228. Deste modo, torna-se possível
desenvolver uma comunhão nas diferenças, que pode ser facilitada só por
pessoas magnânimas que têm a coragem de ultrapassar a superfície
conflitual e consideram os outros na sua dignidade mais profunda. Por
isso, é necessário postular um princípio que é indispensável para
construir a amizade social: a unidade é superior ao conflito. A
solidariedade, entendida no seu sentido mais profundo e desafiador,
torna-se assim um estilo de construção da história, um âmbito vital onde
os conflitos, as tensões e os opostos podem alcançar uma unidade
multifacetada que gera nova vida. Não é apostar no sincretismo ou na
absorção de um no outro, mas na resolução num plano superior que
conserva em si as preciosas potencialidades das polaridades em
contraste.
229. Este critério evangélico
recorda-nos que Cristo tudo unificou em Si: céu e terra, Deus e homem,
tempo e eternidade, carne e espírito, pessoa e sociedade. O sinal
distintivo desta unidade e reconciliação de tudo n’Ele é a paz. Cristo
«é a nossa paz» (Ef 2, 14). O anúncio do Evangelho começa sempre com a
saudação de paz; e a paz coroa e cimenta em cada momento as relações
entre os discípulos. A paz é possível, porque o Senhor venceu o mundo e
sua permanente conflitualidade, «pacificando pelo sangue da sua cruz»
(Col 1, 20). Entretanto, se examinarmos a fundo estes textos bíblicos,
descobriremos que o primeiro âmbito onde somos chamados a conquistar
esta pacificação nas diferenças é a própria interioridade, a própria
vida sempre ameaçada pela dispersão dialéctica. Com corações
despedaçados em milhares de fragmentos, será difícil construir uma
verdadeira paz social.
230. O anúncio de paz não é a
proclamação duma paz negociada, mas a convicção de que a unidade do
Espírito harmoniza todas as diversidades. Supera qualquer conflito numa
nova e promissora síntese. A diversidade é bela, quando aceita entrar
constantemente num processo de reconciliação até selar uma espécie de
pacto cultural que faça surgir uma «diversidade reconciliada», como
justamente ensinaram os Bispos da República Democrática do Congo: «A
diversidade das nossas etnias é uma riqueza. (…) Só com a unidade, a
conversão dos corações e a reconciliação é que poderemos fazer avançar o
nosso país».
A realidade é mais importante do que a ideia
231. Existe também uma tensão bipolar
entre a ideia e a realidade: a realidade simplesmente é, a ideia
elabora-se. Entre as duas, deve estabelecer-se um diálogo constante,
evitando que a ideia acabe por separar-se da realidade. É perigoso viver
no reino só da palavra, da imagem, do sofisma. Por isso, há que
postular um terceiro princípio: a realidade é superior à ideia. Isto
supõe evitar várias formas de ocultar a realidade: os purismos
angélicos, os totalitarismos do relativo, os nominalismos
declaracionistas, os projectos mais formais que reais, os
fundamentalismos anti-históricos, os eticismos sem bondade, os
intelectualismos sem sabedoria.
232. A ideia – as elaborações
conceituais – está ao serviço da captação, compreensão e condução da
realidade. A ideia desligada da realidade dá origem a idealismos e
nominalismos ineficazes que, no máximo, classificam ou definem, mas não
empenham. O que empenha é a realidade iluminada pelo raciocínio. É
preciso passar do nominalismo formal à objectividade harmoniosa. Caso
contrário, manipula-se a verdade, do mesmo modo que se substitui a
ginástica pela cosmética. Há políticos – e também líderes religiosos –
que se interrogam por que motivo o povo não os compreende nem segue, se
as suas propostas são tão lógicas e claras. Possivelmente é porque se
instalaram no reino das puras ideias e reduziram a política ou a fé à
retórica; outros esqueceram a simplicidade e importaram de fora uma
racionalidade alheia à gente.
233. A realidade é superior à ideia.
Este critério está ligado à encarnação da Palavra e ao seu cumprimento:
«Reconheceis que o espírito é de Deus por isto: todo o espírito que
confessa Jesus Cristo que veio em carne mortal é de Deus». (1 Jo 4, 2). O
critério da realidade, duma Palavra já encarnada e sempre procurando
encarnar-se, é essencial à evangelização. Por um lado, leva-nos a
valorizar a história da Igreja como história de salvação, a recordar os
nossos Santos que inculturaram o Evangelho na vida dos nossos povos, a
recolher a rica tradição bimilenária da Igreja, sem pretender elaborar
um pensamento desligado deste tesouro como se quiséssemos inventar o
Evangelho. Por outro lado, este critério impele-nos a pôr em prática a
Palavra, a realizar obras de justiça e caridade nas quais se torne
fecunda esta Palavra. Não pôr em prática, não levar à realidade a
Palavra é construir sobre a areia, permanecer na pura ideia e degenerar
em intimismos e gnosticismos que não dão fruto, que esterilizam o seu
dinamismo.
O todo é superior à parte
234. Entre a globalização e a
localização também se gera uma tensão. É preciso prestar atenção à
dimensão global para não cair numa mesquinha quotidianidade. Ao mesmo
tempo convém não perder de vista o que é local, que nos faz caminhar com
os pés por terra. As duas coisas unidas impedem de cair em algum destes
dois extremos: o primeiro, que os cidadãos vivam num universalismo
abstracto e globalizante, miméticos passageiros do carro de apoio,
admirando os fogos de artifício do mundo, que é de outros, com a boca
aberta e aplausos programados; o outro extremo é que se transformem num
museu folclórico de eremitas localistas, condenados a repetir sempre as
mesmas coisas, incapazes de se deixar interpelar pelo que é diverso e de
apreciar a beleza que Deus espalha fora das suas fronteiras.
235. O todo é mais do que a parte, sendo
também mais do que a simples soma delas. Portanto, não se deve viver
demasiado obcecados por questões limitadas e particulares. É preciso
alargar sempre o olhar para reconhecer um bem maior que trará benefícios
a todos nós. Mas há que o fazer sem se evadir nem se desenraizar. É
necessário mergulhar as raízes na terra fértil e na história do próprio
lugar, que é um dom de Deus. Trabalha-se no pequeno, no que está
próximo, mas com uma perspectiva mais ampla. Da mesma forma, uma pessoa
que conserva a sua peculiaridade pessoal e não esconde a sua identidade,
quando se integra cordialmente numa comunidade não se aniquila, mas
recebe sempre novos estímulos para o seu próprio desenvolvimento. Não é a
esfera global que aniquila, nem a parte isolada que esteriliza.
236. Aqui o modelo não é a esfera, pois
não é superior às partes e, nela, cada ponto é equidistante do centro,
não havendo diferenças entre um ponto e o outro. O modelo é o poliedro,
que reflecte a confluência de todas as partes que nele mantêm a sua
originalidade. Tanto a acção pastoral como a acção política procuram
reunir nesse poliedro o melhor de cada um. Ali entram os pobres com a
sua cultura, os seus projectos e as suas próprias potencialidades. Até
mesmo as pessoas que possam ser criticadas pelos seus erros, têm algo a
oferecer que não se deve perder. É a união dos povos, que, na ordem
universal, conservam a sua própria peculiaridade; é a totalidade das
pessoas numa sociedade que procura um bem comum que verdadeiramente
incorpore a todos.
237. A nós, cristãos, este princípio
fala-nos também da totalidade ou integridade do Evangelho que a Igreja
nos transmite e envia a pregar. A sua riqueza plena incorpora académicos
e operários, empresários e artistas, incorpora todos. A «mística
popular» acolhe, a seu modo, o Evangelho inteiro e encarna-o em
expressões de oração, de fraternidade, de justiça, de luta e de festa. A
Boa Nova é a alegria dum Pai que não quer que se perca nenhum dos seus
pequeninos. Assim nasce a alegria no Bom Pastor que encontra a ovelha
perdida e a reintegra no seu rebanho. O Evangelho é fermento que leveda
toda a massa e cidade que brilha no cimo do monte, iluminando todos os
povos. O Evangelho possui um critério de totalidade que lhe é
intrínseco: não cessa de ser Boa Nova enquanto não for anunciado a
todos, enquanto não fecundar e curar todas as dimensões do homem,
enquanto não unir todos os homens à volta da mesa do Reino. O todo é
superior à parte.
IV. O diálogo social como contribuição para a paz
238. A evangelização implica também um
caminho de diálogo. Neste momento, existem sobretudo três campos de
diálogo onde a Igreja deve estar presente, cumprindo um serviço a favor
do pleno desenvolvimento do ser humano e procurando o bem comum: o
diálogo com os Estados, com a sociedade – que inclui o diálogo com as
culturas e as ciências – e com os outros crentes que não fazem parte da
Igreja Católica. Em todos os casos, «a Igreja fala a partir da luz que a
fé lhe dá», oferece a sua experiência de dois mil anos e conserva
sempre na memória as vidas e sofrimentos dos seres humanos. Isto
ultrapassa a razão humana, mas também tem um significado que pode
enriquecer a quantos não crêem e convida a razão a alargar as suas
perspectivas.
239. A Igreja proclama o «evangelho da
paz» (Ef 6, 15) e está aberta à colaboração com todas as autoridades
nacionais e internacionais para cuidar deste bem universal tão grande.
Ao anunciar Jesus Cristo, que é a paz em pessoa (cf. Ef 2, 14), a nova
evangelização incentiva todo o baptizado a ser instrumento de
pacificação e testemunha credível duma vida reconciliada. É hora de
saber como projectar, numa cultura que privilegie o diálogo como forma
de encontro, a busca de consenso e de acordos mas sem a separar da
preocupação por uma sociedade justa, capaz de memória e sem exclusões. O
autor principal, o sujeito histórico deste processo, é a gente e a sua
cultura, não uma classe, uma fracção, um grupo, uma elite. Não
precisamos de um projecto de poucos para poucos, ou de uma minoria
esclarecida ou testemunhal que se aproprie de um sentimento colectivo.
Trata-se de um acordo para viver juntos, de um pacto social e cultural.
240. O cuidado e a promoção do bem comum
da sociedade compete ao Estado. Este, com base nos princípios de
subsidiariedade e solidariedade e com um grande esforço de diálogo
político e criação de consensos, desempenha um papel fundamental – que
não pode ser delegado – na busca do desenvolvimento integral de todos.
Este papel exige, nas circunstâncias actuais, uma profunda humildade
social.
241. No diálogo com o Estado e com a
sociedade, a Igreja não tem soluções para todas as questões específicas.
Mas, juntamente com as várias forças sociais, acompanha as propostas
que melhor correspondam à dignidade da pessoa humana e ao bem comum. Ao
fazê-lo, propõe sempre com clareza os valores fundamentais da existência
humana, para transmitir convicções que possam depois traduzir-se em
acções políticas.
O diálogo entre a fé, a razão e as ciências
242. O diálogo entre ciência e fé também
faz parte da acção evangelizadora que favorece a paz. O cientificismo e
o positivismo recusam-se a «admitir, como válidas, formas de
conhecimento distintas daquelas que são próprias das ciências
positivas». A Igreja propõe outro caminho, que exige uma síntese entre
um uso responsável das metodologias próprias das ciências empíricas e os
outros saberes como a filosofia, a teologia, e a própria fé que eleva o
ser humano até ao mistério que transcende a natureza e a inteligência
humana. A fé não tem medo da razão; pelo contrário, procura-a e tem
confiança nela, porque «a luz da razão e a luz da fé provêm ambas de
Deus», e não se podem contradizer entre si. A evangelização está atenta
aos progressos científicos para os iluminar com a luz da fé e da lei
natural, tendo em vista procurar que sempre respeitem a centralidade e o
valor supremo da pessoa humana em todas as fases da sua existência.
Toda a sociedade pode ser enriquecida através deste diálogo que abre
novos horizontes ao pensamento e amplia as possibilidades da razão.
Também este é um caminho de harmonia e pacificação.
243. A Igreja não pretende deter o
progresso admirável das ciências. Pelo contrário, alegra-se e
inclusivamente desfruta reconhecendo o enorme potencial que Deus deu à
mente humana. Quando o progresso das ciências, mantendo-se com rigor
académico no campo do seu objecto específico, torna evidente uma
determinada conclusão que a razão não pode negar, a fé não a contradiz.
Nem os crentes podem pretender que uma opinião científica que lhes
agrada – e que nem sequer foi suficientemente comprovada – adquira o
peso dum dogma de fé. Em certas ocasiões, porém, alguns cientistas vão
mais além do objecto formal da sua disciplina e exageram com afirmações
ou conclusões que extravasam o campo da própria ciência. Neste caso, não
é a razão que se propõe, mas uma determinada ideologia que fecha o
caminho a um diálogo autêntico, pacífico e frutuoso.
O diálogo ecuménico
244. O compromisso ecuménico corresponde
à oração do Senhor Jesus pedindo «que todos sejam um só» (Jo 17, 21). A
credibilidade do anúncio cristão seria muito maior, se os cristãos
superassem as suas divisões e a Igreja realizasse «a plenitude da
catolicidade que lhe é própria naqueles filhos que, embora incorporados
pelo Baptismo, estão separados da sua plena comunhão». Devemos sempre
lembrar-nos de que somos peregrinos, e peregrinamos juntos. Para isso,
devemos abrir o coração ao companheiro de estrada sem medos nem
desconfianças, e olhar primariamente para o que procuramos: a paz no
rosto do único Deus. O abrir-se ao outro tem algo de artesanal, a paz é
artesanal. Jesus disse-nos: «Felizes os pacificadores» (Mt 5, 9). Neste
esforço, mesmo entre nós, cumpre-se a antiga profecia: «Transformarão as
suas espadas em relhas de arado» (Is 2, 4).
245. Sob esta luz, o ecumenismo é uma
contribuição para a unidade da família humana. A presença no Sínodo do
Patriarca de Constantinopla, Sua Santidade Bartolomeu I, e do Arcebispo
de Cantuária, Sua Graça Rowan Douglas Williams, foi um verdadeiro dom de
Deus e um precioso testemunho cristão.
246. Dada a gravidade do
contra-testemunho da divisão entre cristãos, sobretudo na Ásia e na
África, torna-se urgente a busca de caminhos de unidade. Os
missionários, nesses continentes, referem repetidamente as críticas,
queixas e sarcasmos que recebem por causa do escândalo dos cristãos
divididos. Se nos concentrarmos nas convicções que nos unem e
recordarmos o princípio da hierarquia das verdades, poderemos caminhar
decididamente para formas comuns de anúncio, de serviço e de testemunho.
A imensa multidão que não recebeu o anúncio de Jesus Cristo não pode
deixar-nos indiferentes. Por isso, o esforço por uma unidade que
facilite a recepção de Jesus Cristo deixa de ser mera diplomacia ou um
dever forçado para se transformar num caminho imprescindível da
evangelização. Os sinais de divisão entre cristãos, em países que já
estão dilacerados pela violência, juntam outros motivos de conflito
vindos da parte de quem deveria ser um activo fermento de paz. São
tantas e tão valiosas as coisas que nos unem! E, se realmente
acreditamos na acção livre e generosa do Espírito, quantas coisas
podemos aprender uns dos outros! Não se trata apenas de receber
informações sobre os outros para os conhecermos melhor, mas de recolher o
que o Espírito semeou neles como um dom também para nós. Só para dar um
exemplo, no diálogo com os irmãos ortodoxos, nós, os católicos, temos a
possibilidade de aprender algo mais sobre o significado da
colegialidade episcopal e sobre a sua experiência da sinodalidade.
Através dum intercâmbio de dons, o Espírito pode conduzir-nos cada vez
mais para a verdade e o bem.
As relações com o Judaísmo
247. Um olhar muito especial é dirigido
ao povo judeu, cuja Aliança com Deus nunca foi revogada, porque «os dons
e o chamamento de Deus são irrevogáveis» (Rm 11, 29). A Igreja, que
partilha com o Judaísmo uma parte importante das Escrituras Sagradas,
considera o povo da Aliança e a sua fé como uma raiz sagrada da própria
identidade cristã (cf. Rm 11, 16-18). Como cristãos, não podemos
considerar o Judaísmo como uma religião alheia, nem incluímos os judeus
entre quantos são chamados a deixar os ídolos para se converter ao
verdadeiro Deus (cf. 1 Ts 1, 9). Juntamente com eles, acreditamos no
único Deus que actua na história, e acolhemos, com eles, a Palavra
revelada comum.
248. O diálogo e a amizade com os filhos
de Israel fazem parte da vida dos discípulos de Jesus. O afecto que se
desenvolveu leva-nos a lamentar, sincera e amargamente, as terríveis
perseguições de que foram e são objecto, particularmente aquelas que
envolvem ou envolveram cristãos.
249. Deus continua a operar no povo da
Primeira Aliança e faz nascer tesouros de sabedoria que brotam do seu
encontro com a Palavra divina. Por isso, a Igreja também se enriquece
quando recolhe os valores do Judaísmo. Embora algumas convicções cristãs
sejam inaceitáveis para o Judaísmo e a Igreja não possa deixar de
anunciar Jesus como Senhor e Messias, há uma rica complementaridade que
nos permite ler juntos os textos da Bíblia hebraica e ajudar-nos
mutuamente a desentranhar as riquezas da Palavra, bem como compartilhar
muitas convicções éticas e a preocupação comum pela justiça e o
desenvolvimento dos povos.
O diálogo inter-religioso
250. Uma atitude de abertura na verdade e
no amor deve caracterizar o diálogo com os crentes das religiões
não-cristãs, apesar dos vários obstáculos e dificuldades, de modo
particular os fundamentalismos de ambos os lados. Este diálogo
inter-religioso é uma condição necessária para a paz no mundo e, por
conseguinte, é um dever para os cristãos e também para outras
comunidades religiosas. Este diálogo é, em primeiro lugar, uma conversa
sobre a vida humana ou simplesmente – como propõem os Bispos da Índia –
«estar aberto a eles, compartilhando as suas alegrias e penas». Assim
aprendemos a aceitar os outros, na sua maneira diferente de ser, de
pensar e de se exprimir. Com este método, poderemos assumir juntos o
dever de servir a justiça e a paz, que deverá tornar-se um critério
básico de todo o intercâmbio. Um diálogo, no qual se procurem a paz e a
justiça social, é em si mesmo, para além do aspecto meramente
pragmático, um compromisso ético que cria novas condições sociais. Os
esforços à volta dum tema específico podem transformar-se num processo
em que, através da escuta do outro, ambas as partes encontram
purificação e enriquecimento. Portanto, estes esforços também podem ter o
significado de amor à verdade.
251. Neste diálogo, sempre amável e
cordial, nunca se deve descuidar o vínculo essencial entre diálogo e
anúncio, que leva a Igreja a manter e intensificar as relações com os
não-cristãos. Um sincretismo conciliador seria, no fundo, um
totalitarismo de quantos pretendem conciliar prescindindo de valores que
os transcendem e dos quais não são donos. A verdadeira abertura implica
conservar-se firme nas próprias convicções mais profundas, com uma
identidade clara e feliz, mas «disponível para compreender as do outro» e
«sabendo que o diálogo pode enriquecer a ambos». Não nos serve uma
abertura diplomática que diga sim a tudo para evitar problemas, porque
seria um modo de enganar o outro e negar-lhe o bem que se recebeu como
um dom para partilhar com generosidade. Longe de se contraporem, a
evangelização e o diálogo inter-religioso apoiam-se e alimentam-se
reciprocamente.
252. Neste tempo, adquire grande
importância a relação com os crentes do Islão, hoje particularmente
presentes em muitos países de tradição cristã, onde podem celebrar
livremente o seu culto e viver integrados na sociedade. Não se deve
jamais esquecer que eles «professam seguir a fé de Abraão, e connosco
adoram o Deus único e misericordioso, que há-de julgar os homens no
último dia». Os escritos sagrados do Islão conservam parte dos
ensinamentos cristãos; Jesus Cristo e Maria são objecto de profunda
veneração e é admirável ver como jovens e idosos, mulheres e homens do
Islão são capazes de dedicar diariamente tempo à oração e participar
fielmente nos seus ritos religiosos. Ao mesmo tempo, muitos deles têm
uma profunda convicção de que a própria vida, na sua totalidade, é de
Deus e para Deus. Reconhecem também a necessidade de Lhe responder com
um compromisso ético e com a misericórdia para com os mais pobres.
253. Para sustentar o diálogo com o
Islão é indispensável a adequada formação dos interlocutores, não só
para que estejam sólida e jubilosamente radicados na sua identidade, mas
também para que sejam capazes de reconhecer os valores dos outros,
compreender as preocupações que subjazem às suas reivindicações e fazer
aparecer as convicções comuns. Nós, cristãos, deveríamos acolher com
afecto e respeito os imigrantes do Islão que chegam aos nossos países,
tal como esperamos e pedimos para ser acolhidos e respeitados nos países
de tradição islâmica. Rogo, imploro humildemente a esses países que
assegurem liberdade aos cristãos para poderem celebrar o seu culto e
viver a sua fé, tendo em conta a liberdade que os crentes do Islão gozam
nos países ocidentais. Frente a episódios de fundamentalismo violento
que nos preocupam, o afecto pelos verdadeiros crentes do Islão deve
levar-nos a evitar odiosas generalizações, porque o verdadeiro Islão e
uma interpretação adequada do Alcorão opõem-se a toda a violência.
254. Os não-cristãos fiéis à sua
consciência podem, por gratuita iniciativa divina, viver «justificados
por meio da graça de Deus» e, assim, «associados ao mistério pascal de
Jesus Cristo». Devido, porém, à dimensão sacramental da graça
santificante, a acção divina neles tende a produzir sinais, ritos,
expressões sagradas que, por sua vez, envolvem outros numa experiência
comunitária do caminho para Deus. Não têm o significado e a eficácia dos
Sacramentos instituídos por Cristo, mas podem ser canais que o próprio
Espírito suscita para libertar os não-cristãos do imanentismo ateu ou de
experiências religiosas meramente individuais. O mesmo Espírito suscita
por toda a parte diferentes formas de sabedoria prática que ajudam a
suportar as carências da vida e a viver com mais paz e harmonia. Nós,
cristãos, podemos tirar proveito também desta riqueza consolidada ao
longo dos séculos, que nos pode ajudar a viver melhor as nossas próprias
convicções.
O diálogo social num contexto de liberdade religiosa
255. Os Padres sinodais lembraram a
importância do respeito pela liberdade religiosa, considerada um direito
humano fundamental. Inclui «a liberdade de escolher a religião que se
crê ser verdadeira e de manifestar publicamente a própria crença». Um
são pluralismo, que respeite verdadeiramente aqueles que pensam
diferente e os valorizem como tais, não implica uma privatização das
religiões, com a pretensão de as reduzir ao silêncio e à obscuridade da
consciência de cada um ou à sua marginalização no recinto fechado das
igrejas, sinagogas ou mesquitas. Tratar-se-ia, em definitivo, de uma
nova forma de discriminação e autoritarismo. O respeito devido às
minorias de agnósticos ou de não-crentes não se deve impor de maneira
arbitrária que silencie as convicções de maiorias crentes ou ignore a
riqueza das tradições religiosas. No fundo, isso fomentaria mais o
ressentimento do que a tolerância e a paz.
256. Ao questionar-se sobre a incidência
pública da religião, é preciso distinguir diferentes modos de a viver.
Tanto os intelectuais como os jornalistas caem, frequentemente, em
generalizações grosseiras e pouco académicas, quando falam dos defeitos
das religiões e, muitas vezes, não são capazes de distinguir que nem
todos os crentes – nem todos os líderes religiosos – são iguais. Alguns
políticos aproveitam esta confusão para justificar acções
discriminatórias. Outras vezes, desprezam-se os escritos que surgiram no
âmbito duma convicção crente, esquecendo que os textos religiosos
clássicos podem oferecer um significado para todas as épocas, possuem
uma força motivadora que abre sempre novos horizontes, estimula o
pensamento, engrandece a mente e a sensibilidade. São desprezados pela
miopia dos racionalismos. Será razoável e inteligente relegá-los para a
obscuridade, só porque nasceram no contexto duma crença religiosa?
Contêm princípios profundamente humanistas que possuem um valor
racional, apesar de estarem permeados de símbolos e doutrinas
religiosos.
257. Como crentes, sentimo-nos próximo
também de todos aqueles que, não se reconhecendo parte de qualquer
tradição religiosa, buscam sinceramente a verdade, a bondade e a beleza,
que, para nós, têm a sua máxima expressão e a sua fonte em Deus.
Sentimo-los como preciosos aliados no compromisso pela defesa da
dignidade humana, na construção duma convivência pacífica entre os povos
e na guarda da criação. Um espaço peculiar é o dos chamados novos
Areópagos, como o «Átrio dos Gentios», onde «crentes e não-crentes podem
dialogar sobre os temas fundamentais da ética, da arte e da ciência, e
sobre a busca da transcendência». Também este é um caminho de paz para o
nosso mundo ferido.
258. A partir de alguns temas sociais,
importantes para o futuro da humanidade, procurei explicitar uma vez
mais a incontornável dimensão social do anúncio do Evangelho, para
encorajar todos os cristãos a manifestá-la sempre nas suas palavras,
atitudes e acções.
Capítulo V
EVANGELIZADORES COM ESPÍRITO
EVANGELIZADORES COM ESPÍRITO
259. Evangelizadores com espírito quer
dizer evangelizadores que se abrem sem medo à acção do Espírito Santo.
No Pentecostes, o Espírito faz os Apóstolos saírem de si mesmos e
transforma-os em anunciadores das maravilhas de Deus, que cada um começa
a entender na própria língua. Além disso, o Espírito Santo infunde a
força para anunciar a novidade do Evangelho com ousadia (parresia), em
voz alta e em todo o tempo e lugar, mesmo contra-corrente. Invoquemo-Lo
hoje, bem apoiados na oração, sem a qual toda a acção corre o risco de
ficar vã e o anúncio, no fim de contas, carece de alma. Jesus quer
evangelizadores que anunciem a Boa Nova, não só com palavras mas
sobretudo com uma vida transfigurada pela presença de Deus.
260. Neste último capítulo, não vou
oferecer uma síntese da espiritualidade cristã, nem desenvolverei
grandes temas como a oração, a adoração eucarística ou a celebração da
fé, sobre os quais já possuímos preciosos textos do Magistério e
escritos célebres de grandes autores. Não pretendo substituir nem
superar tanta riqueza. Limitar-me-ei simplesmente a propor algumas
reflexões acerca do espírito da nova evangelização.
261. Quando se diz de uma realidade que
tem «espírito», indica-se habitualmente uma moção interior que impele,
motiva, encoraja e dá sentido à acção pessoal e comunitária. Uma
evangelização com espírito é muito diferente de um conjunto de tarefas
vividas como uma obrigação pesada, que quase não se tolera ou se suporta
como algo que contradiz as nossas próprias inclinações e desejos. Como
gostaria de encontrar palavras para encorajar uma estação evangelizadora
mais ardorosa, alegre, generosa, ousada, cheia de amor até ao fim e
feita de vida contagiante! Mas sei que nenhuma motivação será
suficiente, se não arde nos corações o fogo do Espírito. Em suma, uma
evangelização com espírito é uma evangelização com o Espírito Santo, já
que Ele é a alma da Igreja evangelizadora. Antes de propor algumas
motivações e sugestões espirituais, invoco uma vez mais o Espírito
Santo; peço-Lhe que venha renovar, sacudir, impelir a Igreja numa
decidida saída para fora de si mesma a fim de evangelizar todos os
povos.
I. Motivações para um renovado impulso missionário
262. Evangelizadores com espírito quer
dizer evangelizadores que rezam e trabalham. Do ponto de vista da
evangelização, não servem as propostas místicas desprovidas de um
vigoroso compromisso social e missionário, nem os discursos e acções
sociais e pastorais sem uma espiritualidade que transforme o coração.
Estas propostas parciais e desagregadoras alcançam só pequenos grupos e
não têm força de ampla penetração, porque mutilam o Evangelho. É preciso
cultivar sempre um espaço interior que dê sentido cristão ao
compromisso e à actividade. Sem momentos prolongados de adoração, de
encontro orante com a Palavra, de diálogo sincero com o Senhor, as
tarefas facilmente se esvaziam de significado, quebrantamo-nos com o
cansaço e as dificuldades, e o ardor apaga-se. A Igreja não pode
dispensar o pulmão da oração, e alegra-me imenso que se multipliquem, em
todas as instituições eclesiais, os grupos de oração, de intercessão,
de leitura orante da Palavra, as adorações perpétuas da Eucaristia. Ao
mesmo tempo, «há que rejeitar a tentação duma espiritualidade intimista e
individualista, que dificilmente se coaduna com as exigências da
caridade, com a lógica da encarnação». Há o risco de que alguns momentos
de oração se tornem uma desculpa para evitar de dedicar a vida à
missão, porque a privatização do estilo de vida pode levar os cristãos a
refugiarem-se nalguma falsa espiritualidade.
263. É salutar recordar-se dos primeiros
cristãos e de tantos irmãos ao longo da história que se mantiveram
transbordantes de alegria, cheios de coragem, incansáveis no anúncio e
capazes de uma grande resistência activa. Há quem se console, dizendo
que hoje é mais difícil; temos, porém, de reconhecer que o contexto do
Império Romano não era favorável ao anúncio do Evangelho, nem à luta
pela justiça, nem à defesa da dignidade humana. Em cada momento da
história, estão presentes a fraqueza humana, a busca doentia de si
mesmo, a comodidade egoísta e, enfim, a concupiscência que nos ameaça a
todos. Isto está sempre presente, sob uma roupagem ou outra; deriva mais
da limitação humana que das circunstâncias. Por isso, não digamos que
hoje é mais difícil; é diferente. Em vez disso, aprendamos com os Santos
que nos precederam e enfrentaram as dificuldades próprias do seu tempo.
Com esta finalidade, proponho-vos que nos detenhamos a recuperar
algumas motivações que nos ajudem a imitá-los nos nossos dias.
O encontro pessoal com o amor de Jesus que nos salva
264. A primeira motivação para
evangelizar é o amor que recebemos de Jesus, aquela experiência de
sermos salvos por Ele que nos impele a amá-Lo cada vez mais. Com efeito,
um amor que não sentisse a necessidade de falar da pessoa amada, de a
apresentar, de a tornar conhecida, que amor seria? Se não sentimos o
desejo intenso de comunicar Jesus, precisamos de nos deter em oração
para Lhe pedir que volte a cativar-nos. Precisamos de o implorar cada
dia, pedir a sua graça para que abra o nosso coração frio e sacuda a
nossa vida tíbia e superficial. Colocados diante d’Ele com o coração
aberto, deixando que Ele nos olhe, reconhecemos aquele olhar de amor que
descobriu Natanael no dia em que Jesus Se fez presente e lhe disse: «Eu
vi-te, quando estavas debaixo da figueira!» (Jo 1, 48). Como é doce
permanecer diante dum crucifixo ou de joelhos diante do Santíssimo
Sacramento, e fazê-lo simplesmente para estar à frente dos seus olhos!
Como nos faz bem deixar que Ele volte a tocar a nossa vida e nos envie
para comunicar a sua vida nova! Sucede então que, em última análise, «o
que nós vimos e ouvimos, isso anunciamos» (1 Jo 1, 3). A melhor
motivação para se decidir a comunicar o Evangelho é contemplá-lo com
amor, é deter-se nas suas páginas e lê-lo com o coração. Se o abordamos
desta maneira, a sua beleza deslumbra-nos, volta a cativar-nos vezes sem
conta. Por isso, é urgente recuperar um espírito contemplativo, que nos
permita redescobrir, cada dia, que somos depositários dum bem que
humaniza, que ajuda a levar uma vida nova. Não há nada de melhor para
transmitir aos outros.
265. Toda a vida de Jesus, a sua forma
de tratar os pobres, os seus gestos, a sua coerência, a sua generosidade
simples e quotidiana e, finalmente, a sua total dedicação, tudo é
precioso e fala à nossa vida pessoal. Todas as vezes que alguém volta a
descobri-lo, convence-se de que é isso mesmo o que os outros precisam,
embora não o saibam: «Aquele que venerais sem O conhecer, é Esse que eu
vos anuncio» (Act 17, 23). Às vezes perdemos o entusiasmo pela missão,
porque esquecemos que o Evangelho dá resposta às necessidades mais
profundas das pessoas, porque todos fomos criados para aquilo que o
Evangelho nos propõe: a amizade com Jesus e o amor fraterno. Quando se
consegue exprimir, de forma adequada e bela, o conteúdo essencial do
Evangelho, de certeza que essa mensagem fala aos anseios mais profundos
do coração: «O missionário está convencido de que existe já, nas pessoas
e nos povos, pela acção do Espírito, uma ânsia – mesmo se inconsciente –
de conhecer a verdade acerca de Deus, do homem, do caminho que conduz à
liberação do pecado e da morte. O entusiasmo posto no anúncio de Cristo
deriva da convicção de responder a tal ânsia».
O entusiasmo na evangelização funda-se nesta convicção. Temos à disposição um tesouro de vida e de amor que não pode enganar, a mensagem que não pode manipular nem desiludir. É uma resposta que desce ao mais fundo do ser humano e pode sustentá-lo e elevá-lo. É a verdade que não passa de moda, porque é capaz de penetrar onde nada mais pode chegar. A nossa tristeza infinita só se cura com um amor infinito.
O entusiasmo na evangelização funda-se nesta convicção. Temos à disposição um tesouro de vida e de amor que não pode enganar, a mensagem que não pode manipular nem desiludir. É uma resposta que desce ao mais fundo do ser humano e pode sustentá-lo e elevá-lo. É a verdade que não passa de moda, porque é capaz de penetrar onde nada mais pode chegar. A nossa tristeza infinita só se cura com um amor infinito.
266. Esta convicção, porém, é sustentada
com a experiência pessoal, constantemente renovada, de saborear a sua
amizade e a sua mensagem. Não se pode perseverar numa evangelização
cheia de ardor, se não se está convencido, por experiência própria, que
não é a mesma coisa ter conhecido Jesus ou não O conhecer, não é a mesma
coisa caminhar com Ele ou caminhar tacteando, não é a mesma coisa poder
escutá-Lo ou ignorar a sua Palavra, não é a mesma coisa poder
contemplá-Lo, adorá-Lo, descansar n’Ele ou não o poder fazer. Não é a
mesma coisa procurar construir o mundo com o seu Evangelho em vez de o
fazer unicamente com a própria razão. Sabemos bem que a vida com Jesus
se torna muito mais plena e, com Ele, é mais fácil encontrar o sentido
para cada coisa. É por isso que evangelizamos. O verdadeiro missionário,
que não deixa jamais de ser discípulo, sabe que Jesus caminha com ele,
fala com ele, respira com ele, trabalha com ele. Sente Jesus vivo com
ele, no meio da tarefa missionária. Se uma pessoa não O descobre
presente no coração mesmo da entrega missionária, depressa perde o
entusiasmo e deixa de estar seguro do que transmite, faltam-lhe força e
paixão. E uma pessoa que não está convencida, entusiasmada, segura,
enamorada, não convence ninguém.
267. Unidos a Jesus, procuramos o que
Ele procura, amamos o que Ele ama. Em última instância, o que procuramos
é a glória do Pai, vivemos e agimos «para que seja prestado louvor à
glória da sua graça» (Ef 1, 6). Se queremos entregar-nos a sério e com
perseverança, esta motivação deve superar toda e qualquer outra. O
movente definitivo, o mais profundo, o maior, a razão e o sentido último
de tudo o resto é este: a glória do Pai que Jesus procurou durante toda
a sua existência. Ele é o Filho eternamente feliz, com todo o seu ser
«no seio do Pai» (Jo 1, 18). Se somos missionários, antes de tudo é
porque Jesus nos disse: «A glória do meu Pai [consiste] em que deis
muito fruto» (Jo 15, 8). Independentemente de que nos convenha,
interesse, aproveite ou não, para além dos estreitos limites dos nossos
desejos, da nossa compreensão e das nossas motivações, evangelizamos
para a maior glória do Pai que nos ama.
O prazer espiritual de ser povo
268. A Palavra de Deus convida-nos
também a reconhecer que somos povo: «Vós que outrora não éreis um povo,
agora sois povo de Deus» (1 Pd 2, 10). Para ser evangelizadores com
espírito é preciso também desenvolver o prazer espiritual de estar
próximo da vida das pessoas, até chegar a descobrir que isto se torna
fonte duma alegria superior. A missão é uma paixão por Jesus, e
simultaneamente uma paixão pelo seu povo. Quando paramos diante de Jesus
crucificado, reconhecemos todo o seu amor que nos dignifica e sustenta,
mas lá também, se não formos cegos, começamos a perceber que este olhar
de Jesus se alonga e dirige, cheio de afecto e ardor, a todo o seu
povo. Lá descobrimos novamente que Ele quer servir-Se de nós para chegar
cada vez mais perto do seu povo amado. Toma-nos do meio do povo e
envia-nos ao povo, de tal modo que a nossa identidade não se compreende
sem esta pertença.
269. O próprio Jesus é o modelo desta
opção evangelizadora que nos introduz no coração do povo. Como nos faz
bem vê-Lo perto de todos! Se falava com alguém, fitava os seus olhos com
uma profunda solicitude cheia de amor: «Jesus, fitando nele o olhar,
sentiu afeição por ele» (Mc 10, 21). Vemo-Lo disponível ao encontro,
quando manda aproximar-se o cego do caminho (cf. Mc 10, 46-52) e quando
come e bebe com os pecadores (cf. Mc 2, 16), sem Se importar que O
chamem de glutão e beberrão (cf. Mt 11, 19). Vemo-Lo disponível, quando
deixa uma prostituta ungir-Lhe os pés (cf. Lc 7, 36-50) ou quando
recebe, de noite, Nicodemos (cf. Jo 3, 1-21). A entrega de Jesus na cruz
é apenas o culminar deste estilo que marcou toda a sua vida. Fascinados
por este modelo, queremos inserir-nos a fundo na sociedade, partilhamos
a vida com todos, ouvimos as suas preocupações, colaboramos material e
espiritualmente nas suas necessidades, alegramo-nos com os que estão
alegres, choramos com os que choram e comprometemo-nos na construção de
um mundo novo, lado a lado com os outros. Mas não por obrigação, nem
como um peso que nos desgasta, mas como uma opção pessoal que nos enche
de alegria e nos dá uma identidade.
270. Às vezes sentimos a tentação de ser
cristãos, mantendo uma prudente distância das chagas do Senhor. Mas
Jesus quer que toquemos a miséria humana, que toquemos a carne sofredora
dos outros. Espera que renunciemos a procurar aqueles abrigos pessoais
ou comunitários que permitem manter-nos à distância do nó do drama
humano, a fim de aceitarmos verdadeiramente entrar em contacto com a
vida concreta dos outros e conhecermos a força da ternura. Quando o
fazemos, a vida complica-se sempre maravilhosamente e vivemos a intensa
experiência de ser povo, a experiência de pertencer a um povo.
271. É verdade que, na nossa relação com
o mundo, somos convidados a dar razão da nossa esperança, mas não como
inimigos que apontam o dedo e condenam. A advertência é muito clara:
fazei-o «com mansidão e respeito» (1 Pd 3, 16) e «tanto quanto for
possível e de vós dependa, vivei em paz com todos os homens» (Rm 12,
18). E somos incentivados também a vencer «o mal com o bem» (Rm 12, 21),
sem nos cansarmos de «fazer o bem» (Gal 6, 9) e sem pretendermos
aparecer como superiores, antes «considerai os outros superiores a vós
próprios» (Fl 2, 3). Na realidade, os Apóstolos do Senhor «tinham a
simpatia de todo o povo» (Act 2, 47; cf. 4, 21.33; 5, 13). Está claro
que Jesus não nos quer como príncipes que olham desdenhosamente, mas
como homens e mulheres do povo. Esta não é a opinião de um Papa, nem uma
opção pastoral entre várias possíveis; são indicações da Palavra de
Deus tão claras, directas e contundentes, que não precisam de
interpretações que as despojariam da sua força interpeladora. Vivamo-las
sine glossa, sem comentários. Assim, experimentaremos a alegria
missionária de partilhar a vida com o povo fiel de Deus, procurando
acender o fogo no coração do mundo.
272. O amor às pessoas é uma força
espiritual que favorece o encontro em plenitude com Deus, a ponto de se
dizer, de quem não ama o irmão, que «está nas trevas e nas trevas
caminha» (1 Jo 2, 11), «permanece na morte» (1 Jo 3, 14) e «não chegou a
conhecer a Deus» (1 Jo 4, 8). Bento XVI disse que «fechar os olhos
diante do próximo torna cegos também diante de Deus», e que o amor é
fundamentalmente a única luz que «ilumina incessantemente um mundo às
escuras e nos dá a coragem de viver e agir». Portanto, quando vivemos a
mística de nos aproximar dos outros com a intenção de procurar o seu
bem, ampliamos o nosso interior para receber os mais belos dons do
Senhor. Cada vez que nos encontramos com um ser humano no amor, ficamos
capazes de descobrir algo de novo sobre Deus. Cada vez que os nossos
olhos se abrem para reconhecer o outro, ilumina-se mais a nossa fé para
reconhecer a Deus. Em consequência disto, se queremos crescer na vida
espiritual, não podemos renunciar a ser missionários. A tarefa da
evangelização enriquece a mente e o coração, abre-nos horizontes
espirituais, torna-nos mais sensíveis para reconhecer a acção do
Espírito, faz-nos sair dos nossos esquemas espirituais limitados. Ao
mesmo tempo, um missionário plenamente devotado ao seu trabalho
experimenta o prazer de ser um manancial que transborda e refresca os
outros. Só pode ser missionário quem se sente bem procurando o bem do
próximo, desejando a felicidade dos outros. Esta abertura do coração é
fonte de felicidade, porque «a felicidade está mais em dar do que em
receber» (Act 20, 35). Não se vive melhor fugindo dos outros,
escondendo-se, negando-se a partilhar, resistindo a dar, fechando-se na
comodidade. Isto não é senão um lento suicídio.
273. A missão no coração do povo não é
uma parte da minha vida, ou um ornamento que posso pôr de lado; não é um
apêndice ou um momento entre tantos outros da minha vida. É algo que
não posso arrancar do meu ser, se não me quero destruir. Eu sou uma
missão nesta terra, e para isso estou neste mundo. É preciso
considerarmo-nos como que marcados a fogo por esta missão de iluminar,
abençoar, vivificar, levantar, curar, libertar. Nisto se revela a
enfermeira autêntica , o professor autêntico, o político autêntico,
aqueles que decidiram, no mais íntimo do seu ser, estar com os outros e
ser para os outros. Mas, se uma pessoa coloca a tarefa dum lado e a vida
privada do outro, tudo se torna cinzento e viverá continuamente à
procura de reconhecimentos ou defendendo as suas próprias exigências.
Deixará de ser povo.
274. Para partilhar a vida com a gente e
dar-nos generosamente, precisamos de reconhecer também que cada pessoa é
digna da nossa dedicação. E não pelo seu aspecto físico, suas
capacidades, sua linguagem, sua mentalidade ou pelas satisfações que nos
pode dar, mas porque é obra de Deus, criatura sua. Ele criou-a à sua
imagem, e reflecte algo da sua glória. Cada ser humano é objecto da
ternura infinita do Senhor, e Ele mesmo habita na sua vida. Na cruz,
Jesus Cristo deu o seu sangue precioso por essa pessoa.
Independentemente da aparência, cada um é imensamente sagrado e merece o
nosso afecto e a nossa dedicação. Por isso, se consigo ajudar uma só
pessoa a viver melhor, isso já justifica o dom da minha vida. É
maravilhoso ser povo fiel de Deus. E ganhamos plenitude, quando
derrubamos os muros e o coração se enche de rostos e de nomes!
A acção misteriosa do Ressuscitado e do seu Espírito
275. No terceiro capítulo, reflectimos
sobre a carência de espiritualidade profunda que se traduz no
pessimismo, no fatalismo, na desconfiança. Algumas pessoas não se
dedicam à missão, porque crêem que nada pode mudar e assim, segundo
elas, é inútil esforçar-se. Pensam: «Para quê privar-me das minhas
comodidades e prazeres, se não vejo algum resultado importante?» Com
esta mentalidade, torna-se impossível ser missionário. Esta atitude é
precisamente uma desculpa maligna para continuar fechado na própria
comodidade, na preguiça, na tristeza insatisfeita, no vazio egoísta.
Trata-se de uma atitude autodestrutiva, porque «o homem não pode viver
sem esperança: a sua vida, condenada à insignificância, tornar-se-ia
insuportável». No caso de pensarmos que as coisas não vão mudar,
recordemos que Jesus Cristo triunfou sobre o pecado e a morte e possui
todo o poder. Jesus Cristo vive verdadeiramente. Caso contrário, «se
Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação» (1 Cor 15, 14). Diz-nos o
Evangelho que, quando os primeiros discípulos saíram a pregar, «o
Senhor cooperava com eles, confirmando a Palavra» (Mc 16, 20). E o mesmo
acontece hoje. Somos convidados a descobri-lo, a vivê-lo. Cristo
ressuscitado e glorioso é a fonte profunda da nossa esperança, e não nos
faltará a sua ajuda para cumprir a missão que nos confia.
276. A sua ressurreição não é algo do
passado; contém uma força de vida que penetrou o mundo. Onde parecia que
tudo morreu, voltam a aparecer por todo o lado os rebentos da
ressurreição. É uma força sem igual. É verdade que muitas vezes parece
que Deus não existe: vemos injustiças, maldades, indiferenças e
crueldades que não cedem. Mas também é certo que, no meio da
obscuridade, sempre começa a desabrochar algo de novo que, mais cedo ou
mais tarde, produz fruto. Num campo arrasado, volta a aparecer a vida,
tenaz e invencível. Haverá muitas coisas más, mas o bem sempre tende a
reaparecer e espalhar-se. Cada dia, no mundo, renasce a beleza, que
ressuscita transformada através dos dramas da história. Os valores
tendem sempre a reaparecer sob novas formas, e na realidade o ser humano
renasceu muitas vezes de situações que pareciam irreversíveis. Esta é a
força da ressurreição, e cada evangelizador é um instrumento deste
dinamismo.
277. E continuamente aparecem também
novas dificuldades, a experiência do fracasso, as mesquinhices humanas
que tanto ferem. Todos sabemos, por experiência, que às vezes uma tarefa
não nos dá as satisfações que desejaríamos, os frutos são escassos e as
mudanças são lentas, e vem-nos a tentação de se dar por cansado.
Todavia, não é a mesma coisa quando alguém, por cansaço, baixa
momentaneamente os braços e quando os baixa definitivamente dominado por
um descontentamento crónico, por uma acédia que lhe mirra a alma. Pode
acontecer que o coração se canse de lutar, porque, em última análise, se
busca a si mesmo num carreirismo sedento de reconhecimentos, aplausos,
prémios, promoções; então a pessoa não baixa os braços, mas já não tem
garra, carece de ressurreição. Assim, o Evangelho, que é a mensagem mais
bela que há neste mundo, fica sepultado sob muitas desculpas.
278. A fé significa também acreditar
n’Ele, acreditar que nos ama verdadeiramente, que está vivo, que é capaz
de intervir misteriosamente, que não nos abandona, que tira bem do mal
com o seu poder e a sua criatividade infinita. Significa acreditar que
Ele caminha vitorioso na história «e, com Ele, estarão os chamados, os
escolhidos, os fiéis» (Ap 17, 14). Acreditamos no Evangelho que diz que o
Reino de Deus já está presente no mundo, e vai-se desenvolvendo-se aqui
e além de várias maneiras: como a pequena semente que pode chegar a
transformar-se numa grande árvore (cf. Mt 13, 31-32), como o punhado de
fermento que leveda uma grande massa (cf. Mt 13, 33), e como a boa
semente que cresce no meio do joio (cf. Mt 13, 24-30) e sempre nos pode
surpreender positivamente: ei-la que aparece, vem outra vez, luta para
florescer de novo. A ressurreição de Cristo produz por toda a parte
rebentos deste mundo novo; e, ainda que os cortem, voltam a despontar,
porque a ressurreição do Senhor já penetrou a trama oculta desta
história; porque Jesus não ressuscitou em vão. Não fiquemos à margem
desta marcha da esperança viva!
279. Como nem sempre vemos estes
rebentos, precisamos de uma certeza interior, ou seja, da convicção de
que Deus pode actuar em qualquer circunstância, mesmo no meio de
aparentes fracassos, porque «trazemos este tesouro em vasos de barro» (2
Cor 4, 7). Esta certeza é o que se chama «sentido de mistério», que
consiste em saber, com certeza, que a pessoa que se oferece e entrega a
Deus por amor, seguramente será fecunda (cf. Jo 15, 5). Muitas vezes
esta fecundidade é invisível, incontrolável, não pode ser contabilizada.
A pessoa sabe com certeza que a sua vida dará frutos, mas sem pretender
conhecer como, onde ou quando; está segura de que não se perde nenhuma
das suas obras feitas com amor, não se perde nenhuma das suas
preocupações sinceras com os outros, não se perde nenhum acto de amor a
Deus, não se perde nenhuma das suas generosas fadigas, não se perde
nenhuma dolorosa paciência. Tudo isto circula pelo mundo como uma força
de vida. Às vezes invade-nos a sensação de não termos obtido resultado
algum com os nossos esforços, mas a missão não é um negócio nem um
projecto empresarial, nem mesmo uma organização humanitária, não é um
espectáculo para que se possa contar quantas pessoas assistiram devido à
nossa propaganda. É algo de muito mais profundo, que escapa a toda e
qualquer medida. Talvez o Senhor Se sirva da nossa entrega para derramar
bênçãos noutro lugar do mundo, aonde nunca iremos. O Espírito Santo
trabalha como quer, quando quer e onde quer; e nós gastamo-nos com
grande dedicação, mas sem pretender ver resultados espectaculares.
Sabemos apenas que o dom de nós mesmos é necessário. No meio da nossa
entrega criativa e generosa, aprendamos a descansar na ternura dos
braços do Pai. Continuemos para diante, empenhemo-nos totalmente, mas
deixemos que seja Ele a tornar fecundos, como melhor Lhe parecer, os
nossos esforços.
280. Para manter vivo o ardor
missionário, é necessária uma decidida confiança no Espírito Santo,
porque Ele «vem em auxílio da nossa fraqueza» (Rm 8, 26). Mas esta
confiança generosa tem de ser alimentada e, para isso, precisamos de O
invocar constantemente. Ele pode curar-nos de tudo o que nos faz
esmorecer no compromisso missionário. É verdade que esta confiança no
invisível pode causar-nos alguma vertigem: é como mergulhar num mar onde
não sabemos o que vamos encontrar. Eu mesmo o experimentei tantas
vezes. Mas não há maior liberdade do que a de se deixar conduzir pelo
Espírito, renunciando a calcular e controlar tudo e permitindo que Ele
nos ilumine, guie, dirija e impulsione para onde Ele quiser. O Espírito
Santo bem sabe o que faz falta em cada época e em cada momento. A isto
chama-se ser misteriosamente fecundos!
A força missionária da intercessão
281. Há uma forma de oração que nos
incentiva particularmente a gastarmo-nos na evangelização e nos motiva a
procurar o bem dos outros: é a intercessão. Fixemos, por momentos, o
íntimo dum grande evangelizador como São Paulo, para perceber como era a
sua oração. Esta estava repleta de seres humanos: «Em todas as minhas
orações, sempre peço com alegria por todos vós (…), pois tenho-vos no
coração» (Fl 1, 4.7). Descobrimos, assim, que interceder não nos afasta
da verdadeira contemplação, porque a contemplação que deixa de fora os
outros é uma farsa.
282. Esta atitude transforma-se também
num agradecimento a Deus pelos outros. «Antes de mais, dou graças ao meu
Deus por todos vós, por meio de Jesus Cristo» (Rm 1, 8). Trata-se de um
agradecimento constante: «Dou incessantemente graças ao meu Deus por
vós, pela graça de Deus que vos foi concedida em Cristo Jesus» (1 Cor 1,
4); «todas as vezes que me lembro de vós, dou graças ao meu Deus» (Fl
1, 3). Não é um olhar incrédulo, negativo e sem esperança, mas uma visão
espiritual, de fé profunda, que reconhece aquilo que o próprio Deus faz
neles. E, simultaneamente, é a gratidão que brota de um coração
verdadeiramente solícito pelos outros. Deste modo, quando um
evangelizador sai da oração, o seu coração tornou-se mais generoso,
libertou-se da consciência isolada e está ansioso por fazer o bem e
partilhar a vida com os outros.
283. Os grandes homens e mulheres de
Deus foram grandes intercessores. A intercessão é como «fermento» no
seio da Santíssima Trindade. É penetrarmos no Pai e descobrirmos novas
dimensões que iluminam as situações concretas e as mudam. Poderíamos
dizer que o coração de Deus se deixa comover pela intercessão, mas na
realidade Ele sempre nos antecipa, pelo que, com a nossa intercessão,
apenas possibilitamos que o seu poder, o seu amor e a sua lealdade se
manifestem mais claramente no povo.
II. Maria, a Mãe da evangelização
284. Juntamente com o Espírito Santo,
sempre está Maria no meio do povo. Ela reunia os discípulos para O
invocarem (Act 1, 14), e assim tornou possível a explosão missionária
que se deu no Pentecostes. Ela é a Mãe da Igreja evangelizadora e, sem
Ela, não podemos compreender cabalmente o espírito da nova
evangelização.
O dom de Jesus ao seu povo
285. Na cruz, quando Cristo suportava em
sua carne o dramático encontro entre o pecado do mundo e a misericórdia
divina, pôde ver a seus pés a presença consoladora da Mãe e do amigo.
Naquele momento crucial, antes de declarar consumada a obra que o Pai
Lhe havia confiado, Jesus disse a Maria: «Mulher, eis o teu filho!» E,
logo a seguir, disse ao amigo bem-amado: «Eis a tua mãe!» (Jo 19,
26-27). Estas palavras de Jesus, no limiar da morte, não exprimem
primariamente uma terna preocupação por sua Mãe; mas são, antes, uma
fórmula de revelação que manifesta o mistério duma missão salvífica
especial. Jesus deixava-nos a sua Mãe como nossa Mãe. E só depois de
fazer isto é que Jesus pôde sentir que «tudo se consumara» (Jo 19, 28).
Ao pé da cruz, na hora suprema da nova criação, Cristo conduz-nos a
Maria; conduz-nos a Ela, porque não quer que caminhemos sem uma mãe; e,
nesta imagem materna, o povo lê todos os mistérios do Evangelho. Não é
do agrado do Senhor que falte à sua Igreja o ícone feminino. Ela, que O
gerou com tanta fé, também acompanha «o resto da sua descendência, isto
é, os que observam os mandamentos de Deus e guardam o testemunho de
Jesus» (Ap 12, 17). Esta ligação íntima entre Maria, a Igreja e cada
fiel, enquanto de maneira diversa geram Cristo, foi maravilhosamente
expressa pelo Beato Isaac da Estrela: «Nas Escrituras divinamente
inspiradas, o que se atribui em geral à Igreja, Virgem e Mãe, aplica-se
em especial à Virgem Maria (…). Alem disso, cada alma fiel é igualmente,
a seu modo, esposa do Verbo de Deus, mãe de Cristo, filha e irmã,
virgem e mãe fecunda. (…) No tabernáculo do ventre de Maria, Cristo
habitou durante nove meses; no tabernáculo da fé da Igreja, permanecerá
até ao fim do mundo; no conhecimento e amor da alma fiel habitará pelos
séculos dos séculos».
286. Maria é aquela que sabe transformar
um curral de animais na casa de Jesus, com uns pobres paninhos e uma
montanha de ternura. Ela é a serva humilde do Pai, que transborda de
alegria no louvor. É a amiga sempre solícita para que não falte o vinho
na nossa vida. É aquela que tem o coração trespassado pela espada, que
compreende todas as penas. Como Mãe de todos, é sinal de esperança para
os povos que sofrem as dores do parto até que germine a justiça. Ela é a
missionária que Se aproxima de nós, para nos acompanhar ao longo da
vida, abrindo os corações à fé com o seu afecto materno. Como uma
verdadeira mãe, caminha connosco, luta connosco e aproxima-nos
incessantemente do amor de Deus. Através dos diferentes títulos
marianos, geralmente ligados aos santuários, compartilha as vicissitudes
de cada povo que recebeu o Evangelho e entra a formar parte da sua
identidade histórica. Muitos pais cristãos pedem o Baptismo para seus
filhos num santuário mariano, manifestando assim a fé na acção materna
de Maria que gera novos filhos para Deus. É lá, nos santuários, que se
pode observar como Maria reúne ao seu redor os filhos que, com grandes
sacrifícios, vêm peregrinos para A ver e deixar-se olhar por Ela. Lá
encontram a força de Deus para suportar os sofrimentos e as fadigas da
vida. Como a São João Diego, Maria oferece-lhes a carícia da sua
consolação materna e diz-lhes: «Não se perturbe o teu coração. (…) Não
estou aqui eu, que sou tua Mãe?»
A Estrela da nova evangelização
287. À Mãe do Evangelho vivente, pedimos
a sua intercessão a fim de que este convite para uma nova etapa da
evangelização seja acolhido por toda a comunidade eclesial. Ela é a
mulher de fé, que vive e caminha na fé, e «a sua excepcional
peregrinação da fé representa um ponto de referência constante para a
Igreja». Ela deixou-Se conduzir pelo Espírito, através dum itinerário de
fé, rumo a uma destinação feita de serviço e fecundidade. Hoje fixamos
n’Ela o olhar, para que nos ajude a anunciar a todos a mensagem de
salvação e para que os novos discípulos se tornem operosos
evangelizadores. Nesta peregrinação evangelizadora, não faltam as fases
de aridez, de ocultação e até de um certo cansaço, como as que viveu
Maria nos anos de Nazaré enquanto Jesus crescia: «Este é o início do
Evangelho, isto é, da boa nova, da jubilosa nova. Não é difícil, porém,
perceber naquele início um particular aperto do coração, unido a uma
espécie de “noite da fé” – para usar as palavras de São João da Cruz –
como que um “véu” através do qual é forçoso aproximar-se do Invisível e
viver na intimidade com o mistério. Foi deste modo efectivamente que
Maria, durante muitos anos, permaneceu na intimidade com o mistério do
seu Filho, e avançou no seu itinerário de fé».
288. Há um estilo mariano na actividade
evangelizadora da Igreja. Porque sempre que olhamos para Maria, voltamos
a acreditar na força revolucionária da ternura e do afecto. N’Ela,
vemos que a humildade e a ternura não são virtudes dos fracos, mas dos
fortes, que não precisam de maltratar os outros para se sentir
importantes. Fixando-A, descobrimos que aquela que louvava a Deus porque
«derrubou os poderosos de seus tronos» e «aos ricos despediu de mãos
vazias» (Lc 1, 52.53) é mesma que assegura o aconchego dum lar à nossa
busca de justiça. E é a mesma também que conserva cuidadosamente «todas
estas coisas ponderando-as no seu coração» (Lc 2, 19). Maria sabe
reconhecer os vestígios do Espírito de Deus tanto nos grandes
acontecimentos como naqueles que parecem imperceptíveis. É contemplativa
do mistério de Deus no mundo, na história e na vida diária de cada um e
de todos. É a mulher orante e trabalhadora em Nazaré, mas é também
nossa Senhora da prontidão, a que sai «à pressa» (Lc 1, 39) da sua
povoação para ir ajudar os outros. Esta dinâmica de justiça e ternura,
de contemplação e de caminho para os outros faz d’Ela um modelo eclesial
para a evangelização. Pedimos-Lhe que nos ajude, com a sua oração
materna, para que a Igreja se torne uma casa para muitos, uma mãe para
todos os povos, e torne possível o nascimento dum mundo novo. É o
Ressuscitado que nos diz, com uma força que nos enche de imensa
confiança e firmíssima esperança: «Eu renovo todas as coisas» (Ap 21,
5). Com Maria, avançamos confiantes para esta promessa, e dizemos-Lhe:
Virgem e Mãe Maria,
Vós que, movida pelo Espírito,
acolhestes o Verbo da vida
na profundidade da vossa fé humilde,
totalmente entregue ao Eterno,
ajudai-nos a dizer o nosso «sim»
perante a urgência, mais imperiosa do que nunca,
de fazer ressoar a Boa Nova de Jesus.
Vós que, movida pelo Espírito,
acolhestes o Verbo da vida
na profundidade da vossa fé humilde,
totalmente entregue ao Eterno,
ajudai-nos a dizer o nosso «sim»
perante a urgência, mais imperiosa do que nunca,
de fazer ressoar a Boa Nova de Jesus.
Vós, cheia da presença de Cristo,
levastes a alegria a João o Baptista,
fazendo-o exultar no seio de sua mãe.
Vós, estremecendo de alegria,
cantastes as maravilhas do Senhor.
Vós, que permanecestes firme diante da Cruz
com uma fé inabalável,
e recebestes a jubilosa consolação da ressurreição,
reunistes os discípulos à espera do Espírito
para que nascesse a Igreja evangelizadora.
levastes a alegria a João o Baptista,
fazendo-o exultar no seio de sua mãe.
Vós, estremecendo de alegria,
cantastes as maravilhas do Senhor.
Vós, que permanecestes firme diante da Cruz
com uma fé inabalável,
e recebestes a jubilosa consolação da ressurreição,
reunistes os discípulos à espera do Espírito
para que nascesse a Igreja evangelizadora.
Alcançai-nos agora um novo ardor de ressuscitados
para levar a todos o Evangelho da vida
que vence a morte.
Dai-nos a santa ousadia de buscar novos caminhos
para que chegue a todos
o dom da beleza que não se apaga.
para levar a todos o Evangelho da vida
que vence a morte.
Dai-nos a santa ousadia de buscar novos caminhos
para que chegue a todos
o dom da beleza que não se apaga.
Vós, Virgem da escuta e da contemplação,
Mãe do amor, esposa das núpcias eternas
intercedei pela Igreja, da qual sois o ícone puríssimo,
para que ela nunca se feche nem se detenha
na sua paixão por instaurar o Reino.
Mãe do amor, esposa das núpcias eternas
intercedei pela Igreja, da qual sois o ícone puríssimo,
para que ela nunca se feche nem se detenha
na sua paixão por instaurar o Reino.
Estrela da nova evangelização,
ajudai-nos a refulgir com o testemunho da comunhão,
do serviço, da fé ardente e generosa,
da justiça e do amor aos pobres,
para que a alegria do Evangelho
chegue até aos confins da terra
e nenhuma periferia fique privada da sua luz.
ajudai-nos a refulgir com o testemunho da comunhão,
do serviço, da fé ardente e generosa,
da justiça e do amor aos pobres,
para que a alegria do Evangelho
chegue até aos confins da terra
e nenhuma periferia fique privada da sua luz.
Mãe do Evangelho vivente,
manancial de alegria para os pequeninos,
rogai por nós.
Amen. Aleluia!
manancial de alegria para os pequeninos,
rogai por nós.
Amen. Aleluia!
Dado em Roma, junto de São Pedro, no
encerramento do Ano da Fé, dia 24 de Novembro – Solenidade de Nosso
Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo – do ano de 2013, primeiro do meu
Pontificado.
[Franciscus PP]
[Franciscus PP]
ÍNDICE
1. Alegria que se renova e comunica [2-8] ……………………….. 2
2. A doce e reconfortante alegria de evangelizar [9-10] ………….. 6
Uma eterna novidade [11-13] …………………………………………….. 7
3. A nova evangelização para a transmissão da fé [14-15] ………….. 9
A proposta desta Exortação e seus contornos [16-18] …..…………….. 11
Capítulo I
2. A doce e reconfortante alegria de evangelizar [9-10] ………….. 6
Uma eterna novidade [11-13] …………………………………………….. 7
3. A nova evangelização para a transmissão da fé [14-15] ………….. 9
A proposta desta Exortação e seus contornos [16-18] …..…………….. 11
Capítulo I
A TRANSFORMAÇÃO MISSIONÁRIA DA IGREJA
1. Uma Igreja «em saída» [20-23] …..………………………..……….. 13
«Primeirear», envolver-se, acompanhar, frutificar e festejar [24] ..….. 14
2. Pastoral em conversão [25-26] …..………………………………….. 16
Uma renovação eclesial inadiável [27-33] …..……………….………….. 17
3. A partir do coração do Evangelho [34-39] …..…………………….. 21
4. A missão que se encarna nas limitações humanas [40-45] …….. 23
5. Uma mãe de coração aberto [46-49] …..……………………..…….. 27
Capítulo II
«Primeirear», envolver-se, acompanhar, frutificar e festejar [24] ..….. 14
2. Pastoral em conversão [25-26] …..………………………………….. 16
Uma renovação eclesial inadiável [27-33] …..……………….………….. 17
3. A partir do coração do Evangelho [34-39] …..…………………….. 21
4. A missão que se encarna nas limitações humanas [40-45] …….. 23
5. Uma mãe de coração aberto [46-49] …..……………………..…….. 27
Capítulo II
NA CRISE DO COMPROMISSO COMUNITÁRIO
1. Alguns desafios do mundo actual [52] …..…………………….…….. 30
Não a uma economia da exclusão [53-54] …..…………………….…….. 30
Não à nova idolatria do dinheiro [55-56] …..…………………….…….. 31
Não a um dinheiro que governa em vez de servir [57-58] ………….. 32
Não à desigualdade social que gera violência [59-60] …..…………….. 33
Alguns desafios culturais [61-67] …..…………………………………….. 35
Desafios da inculturação da fé [68-70] …..…………………….…….. 38
Desafios das culturas urbanas [71-75] …..…………………….…….. 40
2. Tentações dos agentes pastorais [76-77] …..……..……….…….. 42
Sim ao desafio duma espiritualidade missionária [78-80] …….…….. 43
Não à acédia egoísta [81-83] …..……………………………………….…….. 45
Não ao pessimismo estéril [84-86] …..…………………………………….. 46
Sim às relações novas geradas por Jesus Cristo [87-92] …..………….….. 48
Não ao mundanismo espiritual [93-97] …..…………………….……… 51
Não à guerra entre nós [98-101] …..…………………………………….. 53
Outros desafios eclesiais [102-109] …..…………………….…………….. 55
Capítulo III
Não a uma economia da exclusão [53-54] …..…………………….…….. 30
Não à nova idolatria do dinheiro [55-56] …..…………………….…….. 31
Não a um dinheiro que governa em vez de servir [57-58] ………….. 32
Não à desigualdade social que gera violência [59-60] …..…………….. 33
Alguns desafios culturais [61-67] …..…………………………………….. 35
Desafios da inculturação da fé [68-70] …..…………………….…….. 38
Desafios das culturas urbanas [71-75] …..…………………….…….. 40
2. Tentações dos agentes pastorais [76-77] …..……..……….…….. 42
Sim ao desafio duma espiritualidade missionária [78-80] …….…….. 43
Não à acédia egoísta [81-83] …..……………………………………….…….. 45
Não ao pessimismo estéril [84-86] …..…………………………………….. 46
Sim às relações novas geradas por Jesus Cristo [87-92] …..………….….. 48
Não ao mundanismo espiritual [93-97] …..…………………….……… 51
Não à guerra entre nós [98-101] …..…………………………………….. 53
Outros desafios eclesiais [102-109] …..…………………….…………….. 55
Capítulo III
O ANÚNCIO DO EVANGELHO
1. Todo o povo de Deus anuncia o Evangelho [111] …..……….…….. 60
Um povo para todos [112-114] …..…………………………………….. 60
Um povo com muitos rostos [115-118] …..…………………….……… 62
Todos somos discípulos missionários [119-121] …..…………………….. 65
A força evangelizadora da piedade popular [122-126] …..……….…….. 66
De pessoa a pessoa [127-129] …..……………………………………….…….. 69
Carismas ao serviço da comunhão evangelizadora [130-131] …….….….. 70
Cultura, pensamento e educação [132-134] …..………………….…..…….. 71
2. A homilia [135-136] …..………………………………..……………… 72
O contexto litúrgico [137-138] …..…………………….……………….….. 73
A conversa da mãe [139-141] …..……………………………………….…….. 74
Palavras que abrasam os corações [142-144] …..……………….…….. 75
3. A preparação da pregação [145] …..…………………….…………….. 77
O culto da verdade [146-148] …..……………………………………….…….. 77
A personalização da Palavra [148-151] …..…………………….….….. 79
A leitura espiritual [152-153] …..…………………………………..…….. 81
À escuta do povo [154-155] …..………………………………………..…….. 82
Recursos pedagógicos [156-159] …..…………………….………..….. 84
4. Uma evangelização para o aprofundamento do querigma [160-162] . 85
Uma catequese querigmática e mistagógica [163-168] …..……….…….. 87
O acompanhamento pessoal dos processos de crescimento [169-173] ……. 90
Ao redor da Palavra de Deus [174-175] …..……………………..…….. 92
Capítulo IV
Um povo para todos [112-114] …..…………………………………….. 60
Um povo com muitos rostos [115-118] …..…………………….……… 62
Todos somos discípulos missionários [119-121] …..…………………….. 65
A força evangelizadora da piedade popular [122-126] …..……….…….. 66
De pessoa a pessoa [127-129] …..……………………………………….…….. 69
Carismas ao serviço da comunhão evangelizadora [130-131] …….….….. 70
Cultura, pensamento e educação [132-134] …..………………….…..…….. 71
2. A homilia [135-136] …..………………………………..……………… 72
O contexto litúrgico [137-138] …..…………………….……………….….. 73
A conversa da mãe [139-141] …..……………………………………….…….. 74
Palavras que abrasam os corações [142-144] …..……………….…….. 75
3. A preparação da pregação [145] …..…………………….…………….. 77
O culto da verdade [146-148] …..……………………………………….…….. 77
A personalização da Palavra [148-151] …..…………………….….….. 79
A leitura espiritual [152-153] …..…………………………………..…….. 81
À escuta do povo [154-155] …..………………………………………..…….. 82
Recursos pedagógicos [156-159] …..…………………….………..….. 84
4. Uma evangelização para o aprofundamento do querigma [160-162] . 85
Uma catequese querigmática e mistagógica [163-168] …..……….…….. 87
O acompanhamento pessoal dos processos de crescimento [169-173] ……. 90
Ao redor da Palavra de Deus [174-175] …..……………………..…….. 92
Capítulo IV
A DIMENSÃO SOCIAL DA EVANGELIZAÇÃO
1. As repercussões comunitárias e sociais do querigma [177] ……. 94
Confissão da fé e compromisso social [178-179] …..……………………. 94
O Reino que nos chama [180-181] …..…………………….…………….. 96
A doutrina da Igreja sobre as questões sociais [182-185] …….…….. 97
2. A inclusão social dos pobres [186] …..…………………….……… 99
Unidos a Deus, ouvimos um clamor [187-192] …..…………………….. 99
Fidelidade ao Evangelho, para não correr em vão [193-196] …..………. 102
O lugar privilegiado dos pobres no povo de Deus [197-201] …..………. 105
Economia e distribuição das entradas [202-208] …..……………………. 108
Cuidar da fragilidade [209-216] …..…………………………………. 110
3. O bem comum e a paz social [217-221] …..…………………………… 114
O tempo é superior ao espaço [222-225] …..…………………………… 115
A unidade prevalece sobre o conflito [226-230] …..……………………. 117
A realidade é mais importante do que a ideia [231-233] …..……………… 118
O todo é superior à parte [234-237] …..…………………………………. 120
4. O diálogo social como contribuição para a paz [238-241] …..……… 121
O diálogo entre a fé, a razão e as ciências [242-243] …..……………… 123
O diálogo ecuménico [244-246] …..………………………………….. 124
As relações com o Judaísmo [247-249] …..…………………………… 125
O diálogo inter-religioso [250-254] …..…………………………………. 126
O diálogo social num contexto de liberdade religiosa [255-258] ……. 129
Capítulo V
Confissão da fé e compromisso social [178-179] …..……………………. 94
O Reino que nos chama [180-181] …..…………………….…………….. 96
A doutrina da Igreja sobre as questões sociais [182-185] …….…….. 97
2. A inclusão social dos pobres [186] …..…………………….……… 99
Unidos a Deus, ouvimos um clamor [187-192] …..…………………….. 99
Fidelidade ao Evangelho, para não correr em vão [193-196] …..………. 102
O lugar privilegiado dos pobres no povo de Deus [197-201] …..………. 105
Economia e distribuição das entradas [202-208] …..……………………. 108
Cuidar da fragilidade [209-216] …..…………………………………. 110
3. O bem comum e a paz social [217-221] …..…………………………… 114
O tempo é superior ao espaço [222-225] …..…………………………… 115
A unidade prevalece sobre o conflito [226-230] …..……………………. 117
A realidade é mais importante do que a ideia [231-233] …..……………… 118
O todo é superior à parte [234-237] …..…………………………………. 120
4. O diálogo social como contribuição para a paz [238-241] …..……… 121
O diálogo entre a fé, a razão e as ciências [242-243] …..……………… 123
O diálogo ecuménico [244-246] …..………………………………….. 124
As relações com o Judaísmo [247-249] …..…………………………… 125
O diálogo inter-religioso [250-254] …..…………………………………. 126
O diálogo social num contexto de liberdade religiosa [255-258] ……. 129
Capítulo V
EVANGELIZADORES COM ESPÍRITO
1. Motivações para um renovado impulso missionário [262-263] ……. 133
O encontro pessoal com o amor de Jesus que nos salva [264-267] ……. 134
O prazer espiritual de ser povo [268-274] ………………………………. 137
A acção misteriosa do Ressuscitado e do seu Espírito [275-280] ……. 140
A força missionária da intercessão [281-283] ……………………….. 144
2. Maria, a Mãe da evangelização [284] ……………………………… 145
O dom de Jesus ao seu povo [285-286] ………………………………. 145
A Estrela da nova evangelização [287-288] ………………………………. 146
1. Motivações para um renovado impulso missionário [262-263] ……. 133
O encontro pessoal com o amor de Jesus que nos salva [264-267] ……. 134
O prazer espiritual de ser povo [268-274] ………………………………. 137
A acção misteriosa do Ressuscitado e do seu Espírito [275-280] ……. 140
A força missionária da intercessão [281-283] ……………………….. 144
2. Maria, a Mãe da evangelização [284] ……………………………… 145
O dom de Jesus ao seu povo [285-286] ………………………………. 145
A Estrela da nova evangelização [287-288] ………………………………. 146
