sábado, março 16, 2013

AVANÇOS TECNOLÓGICOS | Entre 2005 e 2013


Uma comparação de imagens das sucessões dos papas João Paulo II, em 2005, e de Bento XVI, ocorrida nas últimas semanas, deixa bem clara a diferença ocorrida com a popularização das câmeras fotográficas em aparelhos celulares, tablets e similares.

O blog de fotos da MSNBC buscou a imagem de arquivo abaixo para evidenciar essa "diferença de eras", como a página descreve. O site lembra que, em 2005, a sucessão ocorreu cerca de dois anos antes do lançamento do primeiro iPhone. Na imagem antiga, apenas um aparelho celular é visto sendo usado para fotografar a cena, no canto inferior direito.

Multidão esperando para ver a passagem do corpo do Papa João Paulo II, em 4 de abril de 2005 
Multidão na aparição do Papa Francisco, no balcão da Basílica de São Pedro. [2013]

Vaticano nega omissão do papa durante ditadura na Argentina

 

ROMA, 15 Mar (Reuters) - O Vaticano negou veementemente nesta sexta-feira acusações feitas por alguns críticos na Argentina de que o papa Francisco tenha se mantido em silêncio frente aos abusos sistemáticos aos direitos humanos cometidos durante a ditadura militar no país.

O porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi, disse a repórteres que as acusações devem ser "clara e firmemente negadas". Ele acrescentou: "Elas revelam elementos antirreligiosos de esquerda que são usados para atacar a Igreja."

Críticos ao cardeal Jorge Bergoglio, o ex-arcebispo de Buenos Aires que se tornou papa esta semana, o acusam de não ter protegido padres que desafiaram a ditadura durante o regime militar de 1976 a 1983, e que ele pouco se manifestou sobre a cumplicidade da Igreja durante o regime.


Jesuíta sequestrado pela ditadura argentina se reconciliou com o Papa


Um padre jesuíta cujo sequestro durante a ditadura militar argentina há 37 anos provocou fortes críticas ao cardeal Jorge Mario Bergoglio, agora Papa Francisco, assegurou que ele e o Pontífice já se reconciliaram.
 
O padre Francisco Jalics, que hoje vive em um mosteiro no sul da Alemanha, emitiu uma nota nesta sexta-feira dizendo que falara com Bergoglio muito tempo depois de ter sido sequestrado, juntamente com o padre Orlando Yorio, em 1976.

Bergoglio disse mais de uma vez que havia recomendado aos padres que deixassem suas atividades nos bairros pobres em nome da própria segurança, mas que eles haviam se negado a fazê-lo. Yorio, que já morreu, acusou Bergoglio de entregá-los às forças do regime ao se negar a respaldar publicamente o trabalho que faziam.

“Passaram-se anos até que tivéssemos a oportunidade de falar com o padre Bergoglio... para conversar sobre o que havia acontecido”, relata a nota divulgada por Jalics. “Depois disso, celebramos uma missa juntos em público e nos abraçamos solenemente. Considero o assunto encerrado.”

Não há dúvidas de que Bergoglio, assim como a maioria dos argentinos, não enfrentou abertamente o regime militar que governou o país entre 1976 e 1983 e sequestrou e matou milhares de opositores de esquerda na chamada “guerra suja”. Mas as opiniões divergem quanto à responsabilidade direta do novo Pontífice na participação da Igreja no regime militar.

O biógrafo oficial do Papa, Sergio Rubin, argumenta que a Igreja em geral errou ao não confrontar abertamente os militares, enquanto ativistas de direitos humanos na Argentina garantes que Bergoglio nunca colaborou com a ditadura.

Jalics, que tem pouco mais de 80 anos, está viajando fora da Alemanha e deu suas declarações por meio de uma nota publicada na página dos jesuítas alemães na internet. Segundo Thomas Busch, porta-voz dos jesuítas em Munique, disse que a conversa entre Jalics e Bergoglio aconteceu no ano 2000.

“Não posso comentar sopre o papel do padre Bergoglio nesses fatos”, conclui a nota de Jalics, que, entretanto, desejou “ao Papa Francisco as bênção de Deus em seu trabalho”.

Fonte| Jornal O GLOBO 

Psicologia e Filosofia | Um "Casamento Possível"

A fenomenologia como um instrumento de terapia psicológica

 

Em entrevista à ZENIT do dia 9 de novembro de 2012, a Mestre em psicologia, Maria Izabel de Aviz (CRP: 01/10262), também irmã do Cardeal Dom João Braz de Aviz, explicou o seu método terapeutico que usa a fenomenologia como um instrumento de terapia psicológica. Dado que naquele momento a entrevista foi publicada em três partes e resultou de difícil acesso para alguns leitores de língua portuguesa, por petição de vários leitores, republicamos hoje a entrevista na sua íntegra.

A psicóloga clínica Maria Izabel de Aviz mora em Brasília, onde também tem o seu consultório. É graduada em psicologia pela Pontifícia universidade católica do Paraná em 1978. Especializada em recursos humanos pela FAE/ Curitiba e Mestre em Psicologia pela Universidade Católica de Brasília em 2010.
Para maiores informações pode enviar um email para: mabelaviz@gmail.com
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ZENIT: O que é a fenomenologia?

Maria Izabel: Vamos começar entendendo um pouquinho o que é fenomenologia. Fenomenologia é uma escola filosófica fundada por Edmund Husserl, que começou na Alemanha, no fim do século 19 e na primeira metade do século 20; portanto fenomenologia é uma filosofia.

A palavra fenomenologia tem origem grega e é formada de duas partes: “fenômeno” que significa “aquilo que se mostra”; não somente aquilo que aparece, mas aquilo que se manifesta, que se mostra; e “logia” que deriva da palavra “logos”, que para os gregos tinha muitos significados, mas neste caso da fenomenologia, vamos tomar a palavra “logos” comopensamento, como capacidade de refletir”. Então podemos entender fenomenologia como reflexão sobre um fenômeno ou sobre aquilo que se mostra.
Mas nos perguntamos: o que é que se mostra? E como se mostra? Esse é o nosso problema! Quando em fenomenologia dizemos que alguma coisa se mostra, estamos dizendo que essa coisa se mostra para nós, se mostra para o ser humano, se mostra para a pessoa humana;e isso faz toda a diferença e tem grande importância para nós hoje porque as coisas se mostram para nós; isto é, nós é que buscamos o significado, o sentido daquilo que se mostra para nós. Mais do que dizer que ”as coisas se mostram”, precisamos dizer que “percebemos, que estamos voltados para essas coisas” que se mostram para nós, principalmente para aquilo que aparece no nosso mundo físico.

Quando dizemos “coisas” não tratamos apenas do significado de coisas físicas, mas também das coisas abstratas e a um conjunto de situações, como por exemplo, o significado de coisa cultural, eventos, fatos, que não são de ordem estritamente física. Todas as coisas que se mostram para nós as tratamos como fenômenos que conseguimos compreender o sentido. O que mais interessa a nós pessoas humanas é compreender o sentido delas e não o fato delas se mostrarem. Aqui podemos perceber a grande contribuição de Husserl para ajudar a psicologia, (que é uma ciência particular e não uma filosofia) a compreender esse sentido que nem sempre é compreendido imediatamente. Precisamos fazer uma série de operações para podermos identificar o sentido de tudo àquilo que se manifesta a nós; e essas operações estão no campo de pesquisa da psicologia.

O grande desafio da filosofia hoje e também o seu problema é buscar o sentido das coisas, dos fenômenos, tanto de ordem física quanto de caráter cultural, religioso etc., que se mostram á pessoa humana, no seu viver cotidiano.

ZENIT: A fenomenologia pode ser um instrumento de terapia psicológica?

Maria Izabel: Essa foi a descoberta mais importante que fiz na minha vida profissional e para o meu agir psicológico. Quando percebi a riqueza, a segurança e a profundidade do método fenomenológico proposto por Husserl comecei a me entender como um profissional mais responsável e mais capaz de ajudar no sofrimento das pessoas que me procuravam para fazer a psicoterapia.

A fenomenologia não é psicologia, ela é uma filosofia que diz que o ser humano é um inteiro formado por partes, formado por vários âmbitos que não podem ser separados do inteiro. Para podermos ver o ser humano na sua inteireza precisamos alargar os nossos horizontes, caso contrário não compreenderemos o ser humano na sua totalidade e certamente cometeremos erros nos usos que fazemos dos nossos métodos terapêuticos.

ZENIT: Desde quando a senhora se enveredou por esse caminho? Qual é a sua formação psicológica?

Dra. Maria Izabel: Na minha graduação, a formação que me foi transmitida estava fundamentada em métodos interpretativos e em métodos de redução do comportamento humano ao comportamento animal. Isso me fez desacreditar da psicologia e abandoná-la por 18 anos. Comecei a conhecer a fenomenologia no ano de 1997, quando me submeti a uma psicoterapia de bases fenomenológicas, que aplicava ao sofrimento do paciente, uma parte do método fenomenológico proposto por Husserl. Essa psicoterapia e a relação terapêutica vivenciada em cada sessão da terapia com o meu terapeuta, me fez entender qual e como deveria ser o meu agir como um profissional psicólogo. Comecei então a buscar informações, orientações, cursos, livros, pessoas que me ensinassem a fazer a prática do método fenomenológico. Para mim não era mais uma questão só profissional, mas também pessoal. A tal ponto me envolvi com a fenomenologia, que hoje tenho dificuldades para aceitar que ela não seja ensinada e praticada nas escolas e na formação das pessoas; mesmo porque, Husserl propõe o método e a análise fenomenológica como um processo muito simples e natural para se poder perceber, conhecer e entender a pessoa humana na sua totalidade, unicidade e complexidade. Existem coisas que o ser humano não conhece, mas existem coisas que só o ser humano pode e é capaz de conhecer.

ZENIT: Quais são as referências mundiais na utilização dessa metodologia em terapias psicológicas?

Dra. Maria Izabel: Desde o seu começo a psicologia conhece a proposta filosófica da fenomenologia que é de “conhecer como é o ser humano e como o ser humano conhece”. Desde o inicio da psicologia a fenomenologia propõe o “saber como é o ser humano, quais as suas capacidades superiores, para depois poder dizer como o ser humano é feito”; no entanto, a forte influência do positivismo que impôs a jovem ciência da psicologia a demonstração dos estados psíquicos usando os esquemas das ciências físicas, suas medidas e representações, distanciou a fenomenologia da psicologia, e deu grande ênfase aos métodos interpretativos e reducionistas para demonstrar e/ou conhecer o ser humano. Hoje um grande número de profissionais da área de ciências humanas faz um grande esforço para demonstrar que “o ser humano compreende muita coisa, mas não se compreende dentro dessa posição positivista”.

Não existe uma psicologia pura como ciência positiva. A ciência positiva não é a única  base da psicologia, porque a psicologia não nasce só dos fatos. A psicologia precisa aproximar-se da filosofia para que esta lhe diga como é o ser humano. Isso está impulsionando a psicologia a buscar novamente estabelecer com a fenomenologia e a antropologia, uma relação que lhe dê acesso ao conhecimento puro do ser humano e a utilização de instrumentos próprios da fenomenologia para compreender a estrutura da pessoa humana. O agir psicológico hoje se tornou impossível sem a base da filosofia.

Vou citar aqui como minha referência, a filósofa contemporânea Angela Ales Bello que é professora emérita de História da Filosofia Contemporânea na Universidade Lateranense de Roma, e dirige o Centro Italiano de Pesquisas Fenomenológicas, associado ao The World Phenomenology Institute e faz parte do conselho de redação de várias revistas italianas e estrangeiras. As suas publicações são predominantemente voltadas à investigação da fenomenologia alemã do século 20, comparada a outras correntes do pensamento contemporâneo, com especial referência aos temas de Edmund Husserl e Edith Stein.

ZENIT: Quais dificuldades a pessoa pode superar com esse método?
Dra. Maria Izabel: A fenomenologia se preocupa em perceber o sentido do fato e a psicologia se preocupa em conhecer o processo que leva àquele fato. A compreensão dessa relação entre a filosofia fenomenológica que nos dá a estrutura da pessoa humana e o processo psicológico voltado para a subjetividade da pessoa que o vivencia e que só pode firmar-se dentro do si mesmo da pessoa, dá ao psicólogo a possibilidade da epoché (redução fenomenológica, que era o estilo próprio de Husserl fazer sua pesquisa). Entender a passagem de como as vivências que estão dentro de nós transcendem as coisas que estão fora de nós, nos faz compreender: a relação de mim comigo mesmo, de mim com o outro semelhante a mim, de mim com o outro diferente de mim e de mim com as coisas sem vida.
 
Com esse método todas as vivências humanas podem ser analisadas, sejam elas consideradas positivas ou negativas, boas ou ruins, dificuldades ou possibilidades, porque essa relação permeia os estados corpóreos, os psíquicos e os que transcendem o corpo e o psíquico da pessoa humana. Podemos escolher o que queremos, mas precisamos conhecer o que escolhemos.

ZENIT: Normalmente, qual é a sua proposta? Necessita-se de muito tempo para começar a dar-se conta da melhoria?
 
Dra. Maria Izabel: A psicoterapia que proponho no meu consultório é uma psicoterapia breve, onde procuro desenvolver da melhor forma que dou conta a epoché, ou redução fenomenológica proposta por Husserl, para conhecer junto com o meu paciente o sentido do seu sofrimento.
 
È uma psicoterapia de relação; é uma psicoterapia vivencial onde é evidenciada a capacidade da pessoa 
humana de se explicar e de se entender a si mesma através das suas vivências. Mas tudo isso é feito de um modo muito natural, nada complicado, tudo é muito simples e do jeito que a pessoa dá conta das suas vivências. A postura terapêutica é de aceitação e compreensão dos recursos que nascem da subjetividade do paciente, sem impor ou cobrar dele o que o terapeuta considera, conhece ou quer. Na sessão de terapia se vivencia e se busca juntos, do jeito que tanto o paciente quanto o terapeuta dão conta de chegar a vivência que deu origem ao sofrimento do paciente. O fio condutor é a análise da vivência.Só então o paciente é solicitado a se posicionar em relação àquela vivência.

ZENIT: Há muita procura, em Brasília, para essa terapia?
 
Dra. Maria Izabel: Há. E impulsionada pela responsabilidade da minha experiência com o sofrimento humano no meu consultório, pretendo aprofundar sempre mais o estudo e a pesquisa da fenomenologia para ajudar a psicologia e a psicoterapia a responderem de maneira mais eficaz e profunda os anseios da pessoa humana.
 
Quero poder dar aos meus pacientes e as pessoas que me procuram para desvendar as causas psicológicas dos seus sofrimentos, condições de traçar um caminho próprio no conhecimento de si mesmos, possibilitando o confronto dos dizeres da fenomenologia com os seus empenhos pessoais. Acredito que é partindo das nossas vivências dentro de nós que percebemos e podemos conhecer como somos feitos e o 
que é verdadeiramente humano.
  
Quo vadis, Domine?

Uma lenda sobre são Pedro não se aplica ao caso do papa Bento XVI! Segundo a referida lenda, o primeiro papa, desiludido, estava para abandonar Roma, quando, na Via Apia, encontra-se com Jesus e lhe pergunta: “quo vadis, Domine”?, isto é, “aonde vais, Senhor?” Jesus teria respondido que retornaria a Roma, para ser novamente crucificado, já que são Pedro estava indo embora. Diante desta resposta, conta a lenda, são Pedro arrepiou caminho e regressou à Cidade Eterna.

Imaginemos, agora, uma história um pouco diferente: quem questiona é Jesus. O senhor (“dominum”) Bento XVI, rumo a Gastel Gandolfo, avista Jesus e este lhe pergunta: “quo vadis, domine?”. Acho que o papa emérito lhe responderia: “Deixo o ofício que o Senhor me confiou para o bem da Igreja”. Na verdade, essa resposta, em oração, foi realmente dada ao divino fundador da Igreja católica.

Daqui a algumas horas, a sé (forma apocopada da palavra “sede”, que quer dizer “cadeira”) de são Pedro estará vazia ou vacante. Ratzinger renunciou, asseverando que  “(...) para governar a barca de são Pedro e anunciar o evangelho, é necessário também o vigor quer do corpo quer do espírito; vigor este que, nos últimos meses, foi diminuindo de tal modo em mim que tenho de reconhecer a minha incapacidade para administrar bem o ministério que me foi confiado.”

Os dias de sé vacante são decerto um tempo de apreensão. Coragem! Desta vez, coincidem com a quaresma, época de oração e recolhimento que nos leva à festa maior do cristianismo, a Páscoa, nossa alegria imensa, pois Jesus ressuscitou.

Dentro em breve, seguindo as normas da constituição apostólica Universi Dominci Gregis, os cardeais reunir-se-ão para a escolha de um novo bispo de Roma. Que gáudio inaudito cada um de nós fruirá no seu coração no instante em que se anunciar: “Habemus papam!”, isto é, “Temos um papa!”.

O papa emérito, Bento XVI, em orações contínuas, do mosteiro em que estiver enclausurado, permanecerá em constante sintonia com o sucessor de são Pedro e com todos os cristãos do universo.

A Igreja católica, única pessoa jurídica de direito público com 2 mil anos de idade, jamais desaparecerá da face da terra. Rezemos pelo papa emérito e pelos cardeais que elegerão o próximo vigário de Cristo. Que santa Maria, a mãe da Igreja, rogue ao Espírito Santo para que o sumo pontífice eleito seja alguém que possa confirmar a fé de todos os católicos do planeta.

Edson Luiz Sampel é Doutor em Direito Canônico pela Pontifícia Universidade Lateranense, do Vaticano e professor da Escola Dominicana de Teologia (EDT).

Habemus Papam, Franciscus 

REVEJA VIDEO|  Momento da fumaça brança saindo pela chaminé da Capela Sistina| 

 

 

 REFLEXÕES SOBRE A MORTE E SOBRE A VIDA
Prof. Dr. Manoel Dionizio Neto [Doutor em Filosofia]
Quando Jean-Paul Sartre nos fala da morte em O ser e o nada, parece nos dizer que não é possível se obter resposta para o tempo que ainda temos para viver. Noutras palavras, não seria possível encontrar resposta para o tempo que falta para nossa morte. Assim, de nada vale perguntar quando morreremos. A resposta para esta questão é tão difícil para o adulto, ou mesmo para o ancião, como para a criança que acaba de nascer: esta poderia perguntar pelo tempo que tem para viver, da mesma forma que qualquer de nós poderia perguntar. 
Por assim ser, certificamo-nos de que não é possível uma reposta para o dia da nossa morte. Por isso, ao invés de fazermos esta pergunta, é melhor partirmos do entendimento de que não devemos esperar a morte. Por outro lado, estamos em vida. A partir do momento que se nasce, espera-se a continuidade da vida. Para esta temos então que nos voltar, por mais que se pense como Martin Heidegger, para o qual o ser humano é um ser para a morte. Ou seja, mesmo sabendo que andamos para a morte, cada momento de vida é um passo a mais em direção a ela, é preciso considerar o que pode significar esta vida. 
Pois não podemos também esquecer o que diz Jean-Jacques Rousseau, no Emílio: “O homem que mais vive não é aquele que conta maior número de anos e sim o que mais sente a vida. Há quem seja enterrado a cem anos e que já morrera ao nascer. Teria ganho em ir para o túmulo na mocidade, se ao menos tivesse vivido até então”. E o que significa cem anos? Parece muito para os que longe estão deles: os que acabaram de nascer, os que ainda são crianças ou os que estão em sua plena juventude. Mas é muito pouco para os que já viveram anos após anos, em direção ao fim dos seus dias. É quando lembramos disto que pensamos na significação do que diz Rousseau: é bom quando não se morre ao nascer, mesmo quando tem o seu enterro aos cem anos. Ao invés de contar o número dos dias, deve o ser humano sentir a vida com mais intensidade. 
O que vai fazer para senti-la? Olhar em seu entorno e verificar os que optam por uma vida compartilhada, aquela que vai se construindo junto a outras vidas que se enriquecem com beleza de todas as outras. Prender-se aos reducionismos, agarrar-se aos proselitismos mais diversos, ignorar os que pensam contribuir para o melhor para a sua vida, mesmo quando pensam diferente, ou quando parece terem opções contrárias, pode ser um passo em falso em caminhar por esta vida, porque é preciso saber o quanto eles podem estar olhando para esta vida que quer bem trilhada, para que possa ser melhor sentida. A repulsa, o ódio, ou as diferentes formas de rejeição podem ser também modos de encurtamento de uma vida que, por mais que a pensemos ou que a queiramos prolongada, é tão curta.
PAPA FRANCISCO, o de Assis?
by damião fernandes
 
Era mais ou menos 15h30 da tarde de uma ingênua quarta –feira.  A atenção do mundo estava voltada para a Praça de São Pedro em Roma, na expectativa da eleição do mais novo Sumo Pontífice. Ansioso  - assim como todo bom católico -  Como que intuitivamente, corro apressadamente para ligar a televisão e acompanhar se a fumaça já teria saído pela chaminé da Capela Sistina e se teria sido escura ou branca. Qual não foi a surpresa: A fumaça já teria saído e teria sido branca. Agora sim, “HABEMUS PAPAM”. Iniciaria agora o tempo da espera.

Nesse curto tempo de espera, sentimentos intensos tomam conta do candidato escolhido. Terá que responder inicialmente duas perguntas que ecoaram pela eternidade e que estarão fundamentadas na Tradição e na vida da Igreja. Uma vez eleito, o Cardeal Decano pergunta ao eleito se aceita sua eleição canônica como Sumo Pontífice; uma vez que tenha aceitado, pergunta-lhe o nome pelo qual quer ser chamado.  Enquanto tudo isso se sucedia dentro de uma das salas do vaticano, o povo na Praça de São Pedro – e eu aqui na sala de casa -  esperava ansioso e como o coração orante e vibrante o momento em que as portas se abririam e naquele balcão da Basílica do Vaticano apareceria o Cardeal Protodiácono  e faria o “Nuntio vobis gaudium – Vos anuncio uma grande alegria”.

Em meu coração a imensa certeza de estar vivendo um singular e intenso momento histórico e profético. Em meu coração a certeza de que mais uma vez a assistência e a força do Espirito Santo não seriam ausentes nessa hora. Mas pelo contrário, o Espiríto seria – como sempre é – providente e sempre atual. E na Praça de São Pedro a multidão gritava; “Viva o Papa! Viva o Papa! Viva o Papa! E aquela atitude me encantava. Mas ninguém ainda não sabe quem é o Papa, como já vibram por ele!? O amor que temos pelo Sumo Pontífice excede toda e qualquer informação sobre sua etnia ou localidade geográfica. Amamos o Papa pelo que ele representa e pelo Poder que ele tem  - “O que ligares na terra, será ligado no céu” – de unir nossos corações limitados e humanos ao coração do Pai, divino e eterno.  A reverência e a obediência que temos pelo sucessor de Pedro é algo explicado somente á luz da Fé.

Enquanto eu pensava em todas em coisas, abriram-se as Portas. O coração começou acelerar um pouco mais rapidamente. O Povo de Deus na Praça foi tomado de uma vibração estarrecedora. Poderíamos que foram tomados por um “barulho contemplativo e transcendente”.  Coube ao protodiácono, o Cardeal Francês Jean-Louis Tauran, fazer o anúncio oficial a partir da varanda da Basílica de S. Pedro:
 
"Annuntio vobis gaudium magnum, Habemus Papam, Eminentissimum ac reverendissimum Dominum, Dominum Odilonem Sanctæ Romanæ Ecclesiæ Cardinalem Bergoglio Qui sibi nomen imposuit Francisco".

A tradução desse anúncio oficial é: "Eu anuncio com grande alegria, temos papa, o mais eminente e reverenciado Senhor, Senhor cardeal da Sagrada Igreja Romana Bergoglio, que usará pra si o nome de Francisco."
 
Qui sibi nomen imposuit Francisco: "Que usará para sí o nome Francisco".

O nome é o ícone da pessoa. E em se tratando do nome escolhido pelo Sumo Pontífice, esse nome tem uma carga de evangelismo e profetismo de maneira mais intensa. A rigor, o papa escolhe o nome que quiser para ser chamado durante seu pontificado, a escolha deve ser norteada por dois critérios principais. Primeiro, muitos papas têm homenageado apóstolos de Jesus, usando nomes como João ou Paulo, ou junções, como João Paulo. Mas a escolha também tem a função de indicar a linha teológica pastoral, missionária e eclesiológica que o Sumo Pontífice eleito dever dar a cabo a partir de agora.

O cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio, fez a escolha pelo nome de FRANCISCO. Assim que foi o anuncio de qual seria o nome do novo Papa, pensei rapidamente na minha conta do facebook: “O Século XXI precisa de Outro Francisco. Tão intenso, radical, santo, intrépido, silenciosamente reformador quanto o santo das Criaturas, o Francisco de Bernadone”.
 
"Francisco, reconstrói a Minha Igreja". Essa voz do Cristo vinda da Cruz de São Damião e na Capela do mesmo nome associada á atual eleição do Papa FRANCISCO, ecoa profeticamente na realidade vivida pela Igreja atual. São sinais de Deus. Cremos que é a Divina Providência que move as coisas e por isso nada está fora de seu alcance. Tudo está intimamente ligado por laços divinos. E se Deus deseja, para os Homens e Mulheres desse novo tempo um novo Francisco; que seja então muito Bem-Vindo.
SILVONEI JOSÉ| Doutor em Comunicação. Professor universitário e jornalista. Rádio Vaticano. Roma.

 

Editorial: Um homem que veio do “fim do mundo”

Cidade do Vaticano (RV)RealAudioMP3  
 
"Habemus Papam". Os prognósticos da mídia internacional foram por água abaixo; o Conclave da Capela Sistina foi soberano, derrubando todas as hipóteses que eram “certas”. E o Sumo Pontífice é argentino: o Cardeal Arcebispo de Buenos Aires, o jesuíta Jorge Mario Bergoglio, 76 anos, o sucessor de Pedro número 266, que escolheu como nome, Francisco.
 
A notícia, em poucos segundos fez o giro do mundo na noite – hora de Roma – da última quarta-feira, pouco depois de uma hora da fumaça branca ganhar os céus da Cidade Eterna anunciando que a Igreja de Roma e do mundo tinham um novo Pontífice. No segundo dia de Conclave, na quinta votação os 114 eleitores – o cardeal não pode votar em si mesmo –, escolheram para Sucessor de Pedro, um homem que vem “do fim do mundo”, como se referiu Papa Francisco ao seu lugar de origem, a Argentina.
 
No arco de poucos dias vivemos grandes mudanças e sentimos no ar o perfume de renovação. Um Papa que saiu e um novo Papa que chega do Novo Mundo; um jesuíta, que se chama Francisco, em cujo nome há todo um programa ... De fato, Francisco é o santo da pobreza, da simplicidade, do amor aos pobres.
Papa Francisco, homem simples, modesto, que conquista com o olhar de pastor de quem conhece o seu rebanho. Depois da chegada à América, 500 anos atrás da Boa Nova, com os primeiros missionários, franciscanos e jesuítas, agora é a mesma América, desta vez Latina que oferece um de seus filhos para conduzir o barco de Pedro. Ele traz na sua bagagem uma Igreja viva, cheia de espiritualidade, com uma religiosidade que poderá ajudar a inflamar uma Europa que está perdendo a sua identidade cristã; uma Ásia que descobre o Evangelho; uma África que produz frutos sem igual na sua história com um crescimento importante no número de católicos.
 
Um homem-Papa que já nas suas primeiras palavras falou de um “caminho de Fraternidade, de amor, de confiança entre nós”. Pediu para que “rezemos uns pelos outros, que rezemos por todo o mundo, para que exista uma grande fraternidade”. Um pastor que sempre se preocupou pelo próximo, pelos necessitados, pelos últimos. Bergoglio, conhecido também como um homem muito humilde chegou a trocar os ambientes da cúria para viver em um simples apartamento em Buenos Aires; também dispensou o uso de um automóvel oficial e chegava cozinhar as suas próprias refeições.
 
Quando foi criado Cardeal por João Paulo II em 2001, o então Dom Bergoglio pediu aos fiéis que, ao invés de viajarem até Roma, com um gasto excessivo, distribuíssem o dinheiro da viagem entre os mais pobres. O mesmo pedido foi feito nesta semana aos argentinos que queriam vir a Roma para o início de seu pontificado; não venham, dêem o dinheiro aos pobres. Os meios de comunicação locais confirmam ainda que durante a crise econômica que atingiu a Argentina, surgiu como “uma voz da consciência nacional” e, por várias vezes, alertou para as consequências da globalização desregrada para os que já sobrevivem com muito pouco.
 
Estes são alguns simples exemplos do comportamento do homem escolhido pelos senhores cardeais em Conclave para conduzir a Igreja de Cristo, entre as intempéries hoje, entre as dificuldades e desencantos de uma Igreja que apesar do sofrimento, ainda está viva.
 
A América Latina, que viu crescer a sua fé com os missionários jesuítas, agora oferece um filho de Inácio para confirmar na fé os irmãos presentes em todos os ângulos da terra. Uma América latina que sofre pelas injustiças, pelas opressões, pelas desigualdades sociais terá certamente em Papa Francisco um ponto de referência, uma voz ímpar que recordará ao mundo o valor indiscutível e incomensurável de cada pessoa, de cada ser humano.
 
Esta é a primeira vez em dois milênios que é escolhido um Papa nascido no grande continente americano. Nos últimos 1300 anos, o eleito pelo Conclave sequer era de fora da Europa.
 
Todavia, a eleição de Francisco no quinto escrutínio, faz ver ao mundo a unidade dos cardeais construída ao redor de Bergoglio. Unidade que o Cardeal Ângelo Sodano, Decano do Colégio cardinalício tanto sublinhou na sua homilia na Missa Pro Eligiendo Pontifice Romano, no dia do início do Conclave.
 
Francisco, um nome, uma opção, uma escolha não indiferente que recorda o pobrezinho de Assis, e a sua revolução de amor e simplicidade, mas também Francisco Xavier, homem de missão e evangelização.
 
Papa Francisco, é essa síntese, homem da simplicidade e da evangelização, que traz consigo, para o bem de toda a Igreja, os anos de pastor de uma das Arquidioceses mais importantes da América Latina, Buenos Aires.
 
Mas também é um homem de oração como pudemos notar nos seus primeiros momentos como Papa; pediu a oração de todos e disse que rezará por todos, para que no mundo todo haja uma grande fraternidade. O Papa do olhar simples e da voz macia, já entrou nos corações dos fiéis do mundo inteiro. (Silvonei José)

 

PAPA FRANCISCO: "Quero uma Igreja pobre e para os pobres"



Cidade do Vaticano (RV) – Milhares de jornalistas, fotógrafos e cinegrafistas fizeram fila e passaram por um controle rigoroso para entrar na Sala Paulo VI e participar da primeira audiência com o Papa Francisco na Sala Paulo VI. Muitos levaram também suas famílias. Papa Francisco foi ovacionado pelo público. Sentou-se em sua cadeira no centro do palco e ouviu a saudação do Presidente do Pontifício Conselho das Comunicações Sociais, o Arcebispo Claudio Maria Celli.

Em seguida, leu um breve discurso, agradecendo todos pelo precioso serviço realizado nos dias passados, na cobertura do Conclave e em sua eleição. Vocês trabalharam!” – exclamou, recebendo um imediato aplauso. Disse ainda que a Igreja e a mídia estão juntas para comunicar a verdade, a bondade e a beleza: “Todos nós somos chamados a comunicar esta tríade, essencial”.

Papa Francisco quis explicar porque “o Bispo de Roma quis se chamar Francisco”. E contou, de modo informal, que a seu lado, no Conclave, estava sentado o arcebispo emérito de São Paulo, Cardeal Cláudio Hummes, “um grande amigo, grande amigo”.  Quando a coisa ficou “mais perigosa” – prosseguiu – ele me confortava, e quando os votos chegaram a dois terços, momento em que há o aplauso habitual porque o Papa é eleito – ele me abraçou, me beijou e disse “não se esqueça dos pobres”.

Aquela palavra entrou aqui – disse, indicando a cabeça – ‘os pobres, os pobres’. Aí, pensei em Francisco de Assis e depois, nas guerras. E Francisco é o homem da paz, o homem que ama e tutela a Criação... neste momento em que nosso relacionamento com o meio-ambiente não é tão bom, né?”.

Francisco é o homem que nos dá este espírito de paz, o homem pobre... “Ai, como gostaria de uma Igreja pobre e pelos pobres!”. Depois de saudar pessoalmente alguns jornalistas, o Papa Francisco concluiu, em espanhol:

Disse que lhes daria a minha benção de coração. Muitos de vocês não pertencem à Igreja Católica, outros não crêem. Concedo minha benção, de coração, no silêncio, a cada um de vocês, respeitando a consciência de todos, mas sabendo que cada um de vocês é filho de Deus. Que Deus os abençoe”.
(CM)
O nome FRANCISCO, já é uma Encíclica, afirma D.Claudio Hummes.


Folha - O sr. foi convidado pelo papa Francisco a estar ao seu lado na primeira aparição. Como é a relação entre vocês?

D.Claudio Hummes - Nós nos conhecemos de tantas oportunidades, porque fui arcebispo de São Paulo, e ele, arcebispo de Buenos Aires. Mas sobretudo foi em Aparecida (SP) onde estivemos mais tempo trabalhando juntos, na 5ª Conferência Latino-americana, em 2007. Existia ali a comissão da redação, a mais importante porque ali que se formulava o documento para depois ser votado. Ele era o presidente, e eu, um dos membros. Admirei muito a sua sabedoria, serenidade, santidade divina, espiritualidade. Muito lúcido e muito pastoral, grande zelo missionário, de querer que a igreja seja mais evangelizadora, mais aberta.
 
Como foi o convite para o balcão?

Quando se começou a organizar a procissão da Capela Sistina para o balcão na praça, ele chamou o 
cardeal Vallini, que faz as vezes do bispo de Roma, o vigário da cidade, e me chamou também. Disse: "D.Cláudio, vem você também, fica comigo neste momento". Disse até: "Busca o teu barrete [chapéu eclesiástico]", bem informalmente. Fui lá buscar o meu barrete e estava todo feliz....

Porque não é o costume, quem vai junto são os cerimonários, nunca tem cardeais com o papa, eles estão nos outros balcões. E o fato de que ele nos convidou acabou rompendo um monte de rituais. Mas foi realmente, para mim, muito gratificante. E também pelo fato de ele ter recém-escolhido o nome de Francisco. Eu sou franciscano, então isso me envolvia muito pessoalmente.
 
Como o sr. interpreta esse gesto?

Como um gesto pessoal dele, muito espontâneo, muito simples. Não sei quais os significados que ele queria dar. Eu digo que fiquei muito feliz, estava ali com o primeiro papa chamado Francisco.
 
O papa recusou a limusine, foi pagar a conta do hotel....

São gestos simples, mas que mostram quem ele é e como ele vê as coisas. A minha maravilha foi que esses gestos foram compreendidos pelo povo simples e pela mídia. A mídia também interpretou esplendidamente, entendeu as mensagens que o papa queria dizer.
 
Qual é o significado de ter um papa de fora da Europa depois de mais mil anos e além disso latino-americano?

Os outros papas que não foram exatamente europeus vinham da região do Mediterrâneo. Nesse sentido, era a Europa da época, era uma grande realidade geopolítica.

Mas o fato de que hoje venha um papa de fora da Europa tem um significado muito grande porque mostra o que a igreja sempre tem dito: a igreja é universal, para a humanidade. Não é para a Europa.
Ter um papa é o sinal maior. É o gesto de dizer: o papa pode vir de qualquer parte do mundo.

Também acho importante que tenha vindo da periferia ainda pobre, emergente. Isso é uma confirmação para todos os católicos de lá: "Nós temos um papa que vem daqui".

E não só para os católicos, até os países se sentem muito mais em pé de igualdade com os outros.
 
São Francisco também é lembrado pela missão de reformar a igreja como um todo. A escolha do nome também tem essa abrangência?

Certamente, para o papa, o nome é todo esse programa. Hoje, a igreja precisa, de fato, de uma reforma em todas as suas estruturas. Organizar a vida da igreja, a Cúria Romana, que tanto se falou e que precisa urgente e estruturalmente ser reformada, isso é pacífico entre nós. Porém uma coisa é entender que precisa ser feito e outra coisa é fazê-lo.

Será uma obra gigantesca. Não porque seja uma estrutura gigantesca, mas por um mundo de dificuldades que há dentro de uma estrutura como essa, que foi crescendo nos últimos séculos.

Alguém disse já que a escolha do nome Francisco já é uma encíclica [mensagens do papa à igreja], não precisa nem escrever. Isso é muito bonito, é muito promissor.
 
Em que sentido a reforma é necessária?

Não é só da Cúria, são muitas outras coisas: o nosso jeito de fazer missa, de fazer evangelização, essa nova evangelização precisa de novos métodos. O papa falou no encontro com os cardeais sobre novos métodos, nós precisamos encontrar novos métodos.

Mas se falou sobretudo da Cúria Romana, que precisa ser reformada estruturalmente. É muito grande, mas tudo isso precisa de um estudo, a gente não tem muitas coordenadas.

Muitos dizem que é grande demais, que foi feito um puxadinho aqui, um puxadinho lá, mais uma sala aqui, mais uma comissão lá, mas essa aqui não tem suficiente prestígio.... Essas coisas todas que acontecem numa estrutura dessas.

A igreja não funciona mais. Toda essa questão que aconteceu ultimamente mostra como ela não funciona. E depois, uma vez feito esse novo desenho, você tem de procurar as pessoas adaptadas para ocuparem esses cargos, esses serviços.
 
Reza a lenda de que o papa Francisco não gosta de vir a Roma, que sua formação foi longe daqui. Isso contribuiu para a sua escolha?

Não sei se contribui para a sua escolha, mas contribui agora, que ele é papa, a ser mais independente, a ser uma visão mais objetiva. É muito diferente ver um jogo da arquibancada e ver um jogo jogando futebol. Ele não jogou futebol. Vai ajudar, certamente.

Mas ele também vai ouvir pessoas que jogaram, porque é importante ouvir do jogador como ele viu o jogo e quais são as necessidades dentro da forma como se joga.
 
Continuando a metáfora, o sr. jogou aqui por quatro anos e já foi convocado por ele. O que o sr. pode dizer a ele sobre o que precisa ser feito?

Se um dia me perguntarem sobre isso... Claro, todos nós já falamos sobre isso nas congregações gerais [reuniões pré-conclave], em que ele estava presente. E estamos disponíveis sempre pra ajudar e precisamos ajudar. Os cardeais são o conselho que deve ajudar o papa.
 
Há relatos na imprensa argentina sobre o envolvimento --por omissão ou colaboração-- do papa Francisco com a ditadura militar. O que tem sr. pode falar sobre isso?

Certamente, isso não é real. Pode ser que alguém tenha se equivocado em certos discernimentos, mas conhecendo toda a pessoa dele.... Não conheço os detalhes, mas, conhecendo a pessoa, nem é possível imaginar isso. Ele é um homem extremamente dos pobres, dos direitos da gente, dos mais simples, dos mais oprimidos, dos mais humilhados, ele é um exemplo de defesa, de estar junto dos pobres.... É inimaginável. 
Tenho certeza de que tudo isso de fato é um grande equívoco, senão uma falsificação.
 
A igreja no Brasil, incluindo o sr., teve um papel muito importante na defesa dos direitos humanos durante a ditadura. Como isso se deu na Argentina, sem levar em conta o papa Francisco?

As igrejas pelo mundo afora tiveram as suas próprias avaliações e seu próprio modo de ser. Não me sinto autorizado para fazer um juízo sobre a igreja nesse ou naquele país.
 
Fala-se muito que a herança da Teologia da Libertação para a igreja na América Latina é o discurso em favor dos pobres. No caso do papa Francisco, qual é a relação dele com esse movimento?

Basta olhar como ele foi arcebispo em Buenos Aires e o documento de Aparecida, que diz tudo isso. Ele está nessa linha, certamente. Se a gente quer descobrir qual é a linha dele de pastoral social, de relação com os pobres, nós vamos encontrá-lo lá, sim.

A Teologia da Libertação foi uma fase histórica que, obviamente, tem essa questão da consciência que temos dos pobres e da necessidade de sermos solidários em termos construtivos da justiça social. Tudo isso a Teologia da Libertação também reforçou.

Eu acho que hoje, se a gente quer ver como as pessoas se relacionam com esse passado, é preciso olhar os documentos de hoje. Senão, você começa a transportar o passado, que não é mais uma resposta para hoje. O mundo já mudou, e as respostas são diferenciadas.
 
A primeira viagem do papa deve ser ao Brasil, onde a igreja enfrenta desafios muito grandes, como a evasão de jovens e o avanço das igrejas neopentecostais. O sr. tem uma ideia do que o papa pretende orientar sobre o futuro da igreja no país?

Ainda não transpirou nada sobre as mensagens que ele vai levar, mas a gente sabe, tem certeza de que ele vai falar, em primeiro lugar, da importância dos jovens, de que devemos estar do lado dele, devemos ser compreensíveis. Ele quer que a igreja seja compreensiva, misericordiosa, saiba caminhar juntos e que isso é um percurso que tem de fazer, não se pode exigir que amanhã alguém já seja um cristão perfeito. É um caminho, um processo.

É dar a certeza aos jovens de que a igreja os entende e quer acompanhá-los e também quer mostrar a luz. Quer dizer: "Prestem atenção, existe, sim, um sentido para a vida, existe alguém pelo qual vale a pena viver e dar a vida. Há alguém, que é Jesus Cristo, ele é uma luz que vocês deveriam seguir." Isto é, não deixar de mostrar o caminho, mas, ao mesmo tempo, ser compreensivo de onde o jovem ainda está nesse caminho.

E depois a nova evangelização certamente será um outro tema forte dele.
 
Desde o Concílio Vaticano 2º, há um grande esforço para o diálogo interreligioso, principalmente com as religiões mais antigas. No caso da América Latina, como é o diálogo neste momento entre a igreja e o neopentecostalismo, que não para de crescer?

O diálogo ecumênico com as outras igrejas cristãs não católicas existe de forma muito forte, sobretudo a partir do Concílio Vaticano 2º. Com as grandes igrejas: ortodoxa, oriental, as igrejas protestantes de origem luterana, calvinistas, que são igrejas históricas. Mesmo com o judaísmo, há um grande diálogo. E também com o islamismo, mas isso é outro setor porque, para eles, Jesus Cristo não é como para nós cristãos. Esse diálogo é lento, mas vai caminhando.

Com as igrejas neopentecostais, onde existe muito uma teologia da prosperidade, se dá muito acento ao exorcismo, ao dízimo e coisas assim, elas se diferenciam das igrejas pentecostais. Mas tanto uma com a outra são muito semelhantes. Com elas, é mais difícil, porque muitas delas simplesmente não aceitam o diálogo, mesmo se nós quiséssemos dialogar. Porque não aceitam pensar numa unidade um dia. E muitas vezes são agressivamente anticatólicas, então é muito complicado.
 
O sr. já é emérito, mas vai ficar no Vaticano em alguma função?

Não, não, eu vou ficar aqui até o dia 22, vou participar da cerimônia pública religiosa e vou participar de uma reunião no dia 21. E aí volto para os meus trabalhos.
 
Há relatos na imprensa italiana de que o sr. contribuiu durante o conclave para eleger o papa Francisco. O sr. confirma?

Tudo o que aconteceu dentro do conclave, eu não posso falar.
 
Voltando ao seu trabalho na cúria, de 2006 a 2010, na Congregação para o Clero, houve uma entrevista em que o sr. falava que o celibato era uma questão disciplinar e que, por isso, estava aberto à discussão. O sr. teria sofrido uma reprimenda quando chegou ao Vaticano. Está na hora de questões como celibato e a ordenação de mulheres serem menos ortodoxas?

Isso de reprimenda, você é quem está dizendo. Eu apenas digo que todas essas questões, todos esses desafios hoje, grandes questões que estão aí em aberto, a igreja não se fecha a discutir aquilo que é necessário ser discutido, ser aprofundado. E isso significa uma igreja capaz de dialogar, capaz de ouvir, capaz de aprofundar, discutir e procurar caminhos. É o que ela vai fazer, certamente.

E esse papa é muito aberto a ouvir. Ele mesmo disse que quer ouvir o mundo, e não só os cardeais e os bispos. 


Valdrin Xhemaj/Efe
D. Cláudio (à dir.) durante apresentação do papa Francisco, no Vaticano
D. Cláudio (à dir.) durante apresentação do papa Francisco, no Vaticano
 

terça-feira, março 12, 2013

Irmão de Leonardo Boff defende Bento XVI e critica Teologia da Libertação

Em maio de 1986, os irmãos Clodovis e Leonardo Boff publicaram uma carta aberta ao cardeal Joseph Ratzinger. O artigo analisava a instrução “Libertatis Conscientia”, em que o futuro papa Bento 16 (sic) visava corrigir os supostos desvios da Teologia da Libertação na América Latina. Os religiosos brasileiros desaprovavam, com uma ponta de ironia e uma boa dose de audácia, a “linguagem com 30 anos de atraso” no texto.

Em 2007, o irmão mais novo de Leonardo Boff voltou à carga. Mas, dessa vez, o alvo foi a própria Teologia da Libertação – movimento do qual ele foi um dos principais teóricos e que defende a justiça social como compromisso cristão. Ele censurou a instrumentalização da fé pela política e enfureceu velhos colegas ao sugerir que teria sido melhor levar a sério a crítica de Ratzinger.
Em entrevista à Folha por telefone, frei Clodovis diz que Bento 16 defendeu o “projeto essencial” da Teologia da Libertação, mas o critica por superdimensionar a força do secularismo no mundo.
*
Folha – Bento 16 foi o grande inimigo da Teologia da Libertação?

Clodovis Boff Isso é uma caricatura. Nos dois documentos que publicou, Ratzinger defendeu o projeto essencial da Teologia da Libertação: compromisso com os pobres como consequência da fé. Ao mesmo tempo, critica a influência marxista. Aliás, é uma das coisas que eu também critico.
No documento de 1986, ele aponta a primazia da libertação espiritual, perene, sobre a libertação social, que é histórica. As correntes hegemônicas da Teologia da Libertação preferiram não entender essa distinção. Isso fez com que, muitas vezes, a teologia degenerasse em ideologia.

E os processos inquisitoriais contra alguns teólogos?

Ele exprimia a essência da igreja, que não pode entrar em negociações quando se trata do núcleo da fé. A igreja não é como a sociedade civil, onde as pessoas podem falar o que bem entendem. Nós estamos vinculados a uma fé. Se alguém professa algo diferente dessa fé, está se autoexcluindo da igreja.
Na prática, a igreja não expulsa ninguém. Só declara que alguém se excluiu do corpo dos fiéis porque começou a professar uma fé diferente.

Não há margem para a caridade cristã?

O amor é lúcido, corrige quando julga necessário. [O jesuíta espanhol] Jon Sobrino diz: “A teologia nasce do pobre”. Roma simplesmente responde: “Não, a fé nasce em Cristo e não pode nascer de outro jeito”. Assino embaixo.

Quando o sr. se tornou crítico à Teologia da Libertação?

Desde o início, sempre fui claro sobre a importância de colocar Cristo como o fundamento de toda a teologia. No discurso hegemônico da Teologia da Libertação, no entanto, eu notava que essa fé em Cristo só aparecia em segundo plano. Mas eu reagia de forma condescendente: “Com o tempo, isso vai se acertar”. Não se acertou.

“Não é a fé que confere um sentido sobrenatural ou divino à luta. É o inverso que ocorre: esse sentido objetivo e intrínseco confere à fé sua força.” Ainda acredita nisso?

Eu abjuro essa frase boba. Foi minha fase rahneriana. [O teólogo alemão] Karl Rahner estava fascinado pelos avanços e valores do mundo moderno e, ao mesmo tempo, via que a modernidade se secularizava cada vez mais.

Rahner não podia aceitar a condenação de um mundo que amava e concebeu a teoria do “cristianismo anônimo”: qualquer pessoa que lute pela justiça já é um cristão, mesmo sem acreditar explicitamente em Cristo. Os teólogos da libertação costumam cultivar a mesma admiração ingênua pela modernidade.

O “cristianismo anônimo” constituía uma ótima desculpa para, deixando de lado Cristo, a oração, os sacramentos e a missão, se dedicar à transformação das estruturas sociais. Com o tempo, vi que ele é insustentável por não ter bases suficientes no Evangelho, na grande tradição e no magistério da igreja.

Quando o sr. rompeu com o pensamento de Rahner?

Nos anos 70, o cardeal d. Eugênio Sales retirou minha licença para lecionar teologia na PUC do Rio. O teólogo que assessorava o cardeal, d. Karl Joseph Romer, veio conversar comigo: “Clodovis, acho que nisso você está equivocado. Não basta fazer o bem para ser cristão. A confissão da fé é essencial”. Ele estava certo.

Assumi postura mais crítica e vi que, com o rahnerismo, a igreja se tornava absolutamente irrelevante. E não só ela: o próprio Cristo. Deus não precisaria se revelar em Jesus se quisesse simplesmente salvar o homem pela ética e pelo compromisso social.

Bento 16 sepultou os avanços do Concílio Vaticano 2º (sic)?

Quem afirma isso acredita que o Concílio Vaticano 2º criou uma nova igreja e rompeu com 2.000 anos de cristianismo. É um equívoco. O papa João 23 (sic) foi bem claro ao afirmar que o objetivo era, preservando a substância da fé, reapresentá-la sob roupagens mais oportunas para o homem contemporâneo.

Bento 16 garantiu a fidelidade ao concílio. Ao mesmo tempo, combateu tentativas de secularizar a igreja, porque uma igreja secularizada é irrelevante para a história e para os homens. Torna-se mais um partido, uma ONG.

Mas e a reabilitação da missa em latim? E a tentativa de reabilitação dos tradicionalistas que rejeitaram o Vaticano 2º?

Não podemos esquecer que a condição imposta aos tradicionalistas era exatamente que aceitassem o Vaticano 2º. O catolicismo é, por natureza, inclusivo. Há espaço para quem gosta de latim, para quem não gosta, para todas as tendências políticas e sociais, desde que não se contraponham à fé da igreja.
Quem se opõe a essa abertura manifesta um espírito anticatólico. Vários grupos considerados progressistas caíram nesse sectarismo.

Esses grupos não foram exceção. Bento 16 sofreu dura oposição em todo o pontificado.

A maioria das críticas internas a ele partiu de setores da igreja que se deixaram colonizar pelo espírito da modernidade hegemônica e que não admitem mais a centralidade de Deus na vida. Erigem a opinião pessoal como critério último de verdade e gostariam de decidir os artigos da fé na base do plebiscito.
Tais críticas só expressam a penetração do secularismo moderno nos espaços institucionais da igreja.

Como descreveria a relação de Bento 16 com a modernidade?

É possível identificar um certo pessimismo na sua reflexão. Ele não está só. Há um rio de literatura sobre a crise da modernidade, que remete até mesmo a autores como Nietzsche e Freud. O que ele tem de diferente? Propõe uma saída: a abertura ao transcendente.

Ainda assim, há pessimismo.

Há algo que ele precisaria corrigir: Bento 16 leva a sério demais o secularismo moderno. É uma tendência dos cristãos europeus. Eles esquecem que o secularismo é uma cultura de minorias. São poderosas, hegemônicas, mas ainda assim minorias.

A religião é a opção de 85% da humanidade. Os ateus não passam de 2,5%. Com os agnósticos, não chegam a 15%. Minoria culturalmente importante, sem dúvida: domina o microfone e a caneta, a mídia e a academia. Mas está perdendo o gás. Há um reavivamento do interesse pela espiritualidade entre os jovens.

Que outras críticas o sr. faria a Bento 16?

Ele preferiria resolver problemas teológicos a se debruçar sobre questões administrativas na Cúria. E isso gerou diversos constrangimentos no seu pontificado. Ele também não tem o carisma de um João Paulo 2º. De certa forma, era o esperado em um intelectual como ele.

Não está na hora de a igreja ficar mais próxima da realidade dos fiéis?

Bento 16 não resolveu um problema que se arrasta desde o Concílio Vaticano 2º: a necessidade de se criarem canais para a cúpula escutar e dialogar com as bases.

Os padres nas paróquias muitas vezes ficam prensados entre a letra fria que vem da cúpula e o cotidiano sofrido dos fiéis, que pode envolver dramas como aborto ou divórcio. Note que não sugiro mudanças no ensinamento da igreja. Mas acho que seria mais fácil para as pessoas viverem a doutrina católica se houvesse processos que facilitassem esse diálogo.

Como vê o futuro da igreja?

A modernidade não tem mais nada a dizer ao homem pós-moderno. Quais as ideologias que movem o mundo? Marxismo? Socialismo? Liberalismo? Neoliberalismo? Todas perderam credibilidade. Quem tem algo a dizer? As religiões e, sobretudo no Ocidente, a Igreja Católica.