terça-feira, abril 30, 2013


COMUNICADO "DA EXCOMUNHÃO" AO POVO DE DEUS DA DIOCESE DE BAURU-SP

Leia na Íntegra| 

É de conhecimento público os pronunciamentos e atitudes do Reverendo Pe. Roberto Francisco Daniel que, em nome da “liberdade de expressão” traiu o compromisso de fidelidade à Igreja a qual ele jurou servir no dia de sua ordenação sacerdotal. Estes atos provocaram forte escândalo e feriram a comunhão eclesial. Sua atitude é incompatível com as obrigações do estado sacerdotal que ele deveria amar, pois foi ele quem solicitou da Igreja a Graça da Ordenação. O Bispo Diocesano com a paciência e caridade de pastor, vem tentando há muito tempo diálogo para superar e resolver de modo fraterno e cristão esta situação. Esgotadas todas as iniciativas e tendo em vista o bem do Povo de Deus, o Bispo Diocesano convocou um padre canonista perito em Direito Penal Canônico, nomeando-o como juiz instrutor para tratar essa questão e aplicar a “Lei da Igreja”, visto que o Pe. Roberto Francisco Daniel recusa qualquer diálogo e colaboração. Mesmo assim, o juiz tentou uma última vez um diálogo com o referido padre que reagiu agressivamente, na Cúria Diocesana, na qual ele recusou qualquer diálogo. Esta tentativa ocorreu na presença de 05 (cinco) membros do Conselho dos Presbíteros.

O referido padre feriu a Igreja com suas declarações consideradas graves contra os dogmas da Fé Católica, contra a moral e pela deliberada recusa de obediência ao seu pastor (obediência esta que prometera no dia de sua ordenação sacerdotal), incorrendo, portanto, no gravíssimo delito de heresia e cisma cuja pena prescrita no cânone 1364, parágrafo primeiro do Código de Direito Canônico é a excomunhão anexa a estes delitos. Nesta grave pena o referido sacerdote incorreu de livre vontade como consequência de seus atos.

A Igreja de Bauru se demonstrou Mãe Paciente quando, por diversas vezes, o chamou fraternalmente ao diálogo para a superação dessa situação por ele criada. Nenhum católico e muito menos um sacerdote pode-se valer do “direito de liberdade de expressão” para atacar a Fé, na qual foi batizado.

Uma das obrigações do Bispo Diocesano é defender a Fé, a Doutrina e a Disciplina da Igreja e, por isso, comunicamos que o padre Roberto Francisco Daniel não pode mais celebrar nenhum ato de culto divino (sacramentos e sacramentais, nem mais receber a Santíssima Eucaristia), pois está excomungado. A partir dessa decisão, o Juiz Instrutor iniciará os procedimentos para a “demissão do estado clerical, que será enviado no final para Roma, de onde deverá vir o Decreto .

Com esta declaração, a Diocese de Bauru entende colocar “um ponto final” nessa dolorosa história.
Rezemos para que o nosso Padroeiro Divino Espírito Santo, “que nos conduz”, ilumine o Pe. Roberto Francisco Daniel para que tenha a coragem da humildade em reconhecer que não é o dono da verdade e se reconcilie com a Igreja, que é “Mãe e Mestra”.

Bauru, 29 de abril de 2013.
Por especial mandado do Bispo Diocesano, assinam os representantes do Conselho Presbiteral Diocesano.

Padre Excomungado diz estar "Honrado" com a excomunhão. Pasmem!

Qual é a relação que existe entre o ex-católico e ex-padre Beto e as práticas cruéis de tribos indígenas? Já chego lá. Mas, primeiro, vamos passear um pouco.

Beto, aquele ex-padre de Bauru, também ex-católico, já que excomungado, está exercendo a sua verdadeira vocação, que como já identifiquei aqui: “Nasceu para brilhar. Nasceu para o palco, o picadeiro, o palanque, sei lá eu”. Ao comentar nesta terça a excomunhão, exagerando a própria importância, como parece ser o hábito do mau hábito, afirmou: “Eu me sinto honrado em pertencer à lista de muitas pessoas humanas que foram assassinadas e queimadas vivas por pensarem e buscarem o conhecimento. Agradeço à Diocese de Bauru”.

Ulalá! Beto é o Giordano Bruno do casamento aberto! Tempos inglórios aqueles, estes, em que um tipo como esse rapaz ganha destaque e é tratado como um pensador. Mas notem: está feliz. Já pode escrever livros, fazer programa de televisão, virar consultor sentimental, viver, na prática, a vida que acha justa em teoria. Se não estiver no Fantástico no domingo, corto os dois mindinhos e começo a falar com a língua mais presa do que o Lula. A Igreja também se livra, quando menos, de alguém, fica claro agora, que a detesta. 

Os que admiram as ideias de Beto continuarão a receber o pão espiritual, já que ele é assíduo das redes sociais e, segundo li na Folha, das cervejarias. O único que está apanhando mesmo é o jornalismo — na pena de alguns jornalistas e na editorialização do noticiário.

Este senhor não está sendo chamado pelo nome ou apelido. Virou “o padre que defende os homossexuais”. É uma batatada! É uma bobagem! É uma mentira! Se ele, até agora, efetivamente, fez alguma coisa em favor de homossexuais, se desconhece. A Igreja não o está excomungando porque, sei lá, ele declarou que todos são filhos de Deus, independentemente de sua sexualidade. Padres mundo afora declaram isso todos os dias. Nada disso! Foi excomungado porque recusa a concepção de família da instituição a que ele pertence e porque declarou o seu direito de questionar, mesmo pertencendo à hierarquia católica, qualquer dos dogmas em que se fundamenta a religião. Como já deixei claro aqui, até grupos de amigos têm códigos de conduta; até aquela turminha que se reúne para tomar chope nos botecos eventualmente frequentados por Beto quando era padre e católico estabelece limites. Os que destoam muito do aceitável são excluídos.

Escrevi num dos posts que a Igreja “não é um clube de livres-pensadores”, e alguns idiotas estrilaram. Ora, não é mesmo! A rigor, não existem clubes de livres-pensadores porque, se livres, já não podem formar um clube. A Igreja é uma reunião de pessoas em torno de uma doutrina. Por isso está aí há dois mil anos. Um jornal é uma reunião de pessoas em torno de uma linha editorial. Lá no jornal da CUT, por exemplo, não é permitido falar mal da CUT. Nos blogs sujos financiados por estatais, não é permitido falar bem da imprensa independente, que se financia no mercado. Na imprensa independente, que se financia no mercado, não é permitido defender a censura — ainda bem, né?, embora, convenhamos, não é raro aparecer alguém com ideias exóticas. NOTA À MARGEM — “Ah, então toda essa gente se iguala na defesa de pontos de vista particularistas, e a universalidade não está em nenhum lugar?” Nada disso! A imprensa que repudia a censura é moralmente superior à escumalha que a defende (com financiamento estatal) porque, num caso, busca-se vencer o adversário pela argumentação; no outro, pelo silêncio. À imprensa livre só é lícito interditar o pensamento que defende o fim da própria liberdade, e seu horizonte é a pluralidade. Já os que estão a serviço de um partido ou de um projeto de poder sabem que seu inimigo principal é a liberdade. Mas me desviei um tantinho. Volto ao ponto.

O tal Beto chega a ser folclórico, e é espantoso que mobilize a imprensa e atraia, é evidente, a simpatia de jornalistas. É um sintoma de rebaixamento intelectual. Que diabo andam ensinando nas faculdades por aí? Ora, o que conferia legitimidade e peso ao discurso de Beto? O fato de ele ser padre. O “ser padre” supõe a adesão a) a uma doutrina; b) a um conjunto de valores; c) a uma disciplina; d) a um comando; e) a textos de referência. Observem que é perfeitamente possível ser feliz e pensar sem ter de se subordinar a nada disso. Supõe-se que aquele que escolheu essas subordinações o fez em razão do “item f”: A FÉ.

Aí, então, se procede à pergunta óbvia: como é possível que alguém, cujo discurso é legitimado por essa cadeia de submissões ancoradas num princípio de fé, busque uma outra legitimidade que nasceria da denegação do que lhe confere identidade? De sorte que, no caso em espécie, Beto era, então, o “padre” que não aceita as regras da Igreja, o padre que não aceita a hierarquia, o padre que não aceita os dogmas? É como se um jornalista buscasse legitimar o seu trabalho por intermédio da negação de alguns dos fundamentos que definem a própria profissão. E olhem que a ética profissional lida com conceitos um pouco mais fluidos e elásticos do que a doutrina de uma religião.

Agora Beto e os índios
Não faz muito tempo, houve no Brasil um enfrentamento entre antropólogos e religiosos (se não me engano, batistas, a conferir) por causa de uma tribo ianomâmi. Esses índios telúricos, que tanto encantam o rei da Noruega, matam as crianças deficientes. Uma das práticas é enterrá-las vivas. Missionários batistas, diante do horror, houveram por bem salvar uma criança. Estabeleceu-se, então, um confronto de valores. E aí? Certa antropologia argumenta que, ora vejam, aquilo que nos parece cruel corresponde aos valores daquela cultura. Assim, a preservação daquela forma particular de civilização supõe a existência do infanticídio. Não, não é o que eu penso, mas não vou abrir aqui uma polêmica nova. Fica para outra hora.

Da mesma sorte, o pensamento politicamente correto já produziu milhares de textos sobre o suposto preconceito dos cristãos contra os islâmicos, que seriam vistos com olhos negativos no Ocidente porque, no fundo, insistiríamos em ver a sua fé segundo a nossa própria ótica. Isso revelaria uma incapacidade de ver o outro… Sempre que me deparo com coisas assim, a minha primeira resposta é esta: “Acho bom esse choque de valores; só é uma pena que não possamos levar os nossos para os países islâmicos porque, não raro, resultaria em pena de morte…”. Mas esse também é outro debate, para outra hora.

Lembro esses dois casos porque acho notável a facilidade com que o pensamento politicamente correto pode defender até o infanticídio ou a eliminação de deficientes físicos, quando é o caso de falar em nome da “preservação de uma cultura”, ou nos convida a olhar sem preconceitos o islamismo — e, por exemplo, a evidente discriminação da mulher (dos homossexuais, então…) —, mas acha inconcebível que a Igreja Católica defenda seus próprios valores não por meio da eliminação física (é evidente!) do elemento indesejado, não por meio da imposição de valores e costumes a quem, se pudesse, escolheria outro caminho. Nada disso! A Igreja Católica defende o seu credo falando àqueles que a ele aderiram por livre e espontânea vontade, no exercício da plena liberdade, na expressão mais pura do livre-arbítrio.

À diferença do que parece, os que estão atacando a Igreja Católica em razão desse episódio é que não suportam a diferença — ao menos esta diferença em particular: a dos valores católicos. Podem achar justificável o assassinato de criancinhas; podem achar justificável a imposição do véu; podem achar justificável qualquer “orientalismo” (como diria Fernando Pessoa) em nome da afirmação da identidade. Só não podem aceitar que católicos, em suma, se afirmem como… católicos, ou, não é menos verdadeiro, evangélicos como evangélicos.

A verdade está no oposto. Intolerante é Beto, que havia dado um ultimato (!?) à Igreja: ou ela mudava, ou ele não voltaria!!! Intolerantes são aqueles que acham absurdo que a Igreja Católica tenha os seus valores num mundo em que se é católico por opção. Noto, para encerrar, que nascer deficiente numa tribo ianomâmi não é uma escolha. Não ignoro que a valorização do poder de escolha também é expressão de uma cultura. É a minha. E eu a considero superior a todas as outras.
 
Por Reinaldo Azevedo

 

Padre é 'Excomungado da Igreja Católica' por apoiar UNIÃO HOMOAFETIVA

 

Tudo aconteceu após declarações regristradas num vídeo publicado no Youtube, no qual o padre questiona dogmas da Igreja Católica e fala com aceitação sobre assuntos como bissexualidade e homossexualidade. Com a repercussão, o bispo, Caetano Ferrari, da Diocese de Bauru exigiu que padre Beto se retratasse, mas ele preferiu pedir seu desligamento da Igreja e celebrou sua última missa no último domingo (28).

 

Comunicado ao povo de Deus da Diocese de Bauru sobre o Rvedo. Pe. Roberto Francisco Daniel 

 

 Comunicado ao povo de Deus da Diocese de Bauru

 


 

É de conhecimento público os pronunciamentos e atitudes do Reverendo Pe. Roberto Francisco Daniel que, em nome da “liberdade de expressão” traiu o compromisso de fidelidade à Igreja a qual ele jurou servir no dia de sua ordenação sacerdotal. Estes atos provocaram forte escândalo e feriram a comunhão eclesial. Sua atitude é incompatível com as obrigações do estado sacerdotal que ele deveria amar, pois foi ele quem solicitou da Igreja a Graça da Ordenação. O Bispo Diocesano com a paciência e caridade de pastor, vem tentando há muito tempo diálogo para superar e resolver de modo fraterno e cristão esta situação. Esgotadas todas as iniciativas e tendo em vista o bem do Povo de Deus, o Bispo Diocesano convocou um padre canonista perito em Direito Penal Canônico, nomeando-o como juiz instrutor para tratar essa questão e aplicar a “Lei da Igreja”, visto que o Pe. Roberto Francisco Daniel recusa qualquer diálogo e colaboração. Mesmo assim, o juiz tentou uma última vez um diálogo com o referido padre que reagiu agressivamente, na Cúria Diocesana, na qual ele recusou qualquer diálogo. Esta tentativa ocorreu na presença de 05 (cinco) membros do Conselho dos Presbíteros.
          
O referido padre feriu a Igreja com suas declarações consideradas graves contra os dogmas da Fé Católica, contra a moral e pela deliberada recusa de obediência ao seu pastor (obediência esta que prometera no dia de sua ordenação sacerdotal), incorrendo, portanto, no gravíssimo delito de heresia e cisma cuja pena prescrita no cânone 1364, parágrafo primeiro do Código de Direito Canônico é a excomunhão anexa a estes delitos. Nesta grave pena o referido sacerdote incorreu de livre vontade como consequência de seus atos.
          
A Igreja de Bauru se demonstrou Mãe Paciente quando, por diversas vezes, o chamou fraternalmente ao diálogo para a superação dessa situação por ele criada. Nenhum católico e muito menos um sacerdote pode-se valer do “direito de liberdade de expressão” para atacar a Fé, na qual foi batizado.
         
 Uma das obrigações do Bispo Diocesano é defender a Fé, a Doutrina e a Disciplina da Igreja e, por isso, comunicamos que o padre Roberto Francisco Daniel não pode mais celebrar nenhum ato de culto divino (sacramentos e sacramentais, nem mais receber a Santíssima Eucaristia), pois está excomungado. A partir dessa decisão, o Juiz Instrutor iniciará os procedimentos para a “demissão do estado clerical, que será enviado no final para Roma, de onde deverá vir o Decreto .
         
Com esta declaração, a Diocese de Bauru entende colocar “um ponto final” nessa dolorosa história.
Rezemos para que o nosso Padroeiro Divino Espírito Santo, “que nos conduz”, ilumine o Pe. Roberto Francisco Daniel para que tenha a coragem da humildade em reconhecer que não é o dono da verdade e se reconcilie com a Igreja, que é “Mãe e Mestra”.
        
          
Bauru, 29 de abril de 2013.

Por especial mandado do Bispo Diocesano, assinam os representantes do Conselho Presbiteral Diocesano. 



segunda-feira, abril 29, 2013

 

O politicamente CORRETO

Um mundo escuro - J. R. GUZZO/REVISTA VEJA

 
Está cada vez mais difícil, em nosso mundo de hoje. encontrar inocentes. No exalo momento em que estiver lendo estas linhas, o leitor poderá muito bem estar sendo culpado pela prática de algum delito sério, mesmo que não saiba disso - e provavelmente não sabe. Como poderia saber? As noções de certo ou errado, de bem ou mal ou de justo e injusto, cada vez mais, são definidas por dezenas de "causas", em relação às quais é indispensável estar do lado correto. E que lado é esse? É o lado dos donos ou dos militantes dessas causas - tarefa complicada, considerando-se que elas se multiplicam sem parar, não têm conexão nenhuma entre si e sua própria existência, muitas vezes. é completamente desconhecida do público em geral. Com o desmanche cada vez mais rápido de qualquer valor ou princípio na atividade política, e o falecimento da ideia geral de "direita" e "esquerda", o campo do "bem" vai sendo ocupado por movimentos que defendem ou condenam todo tipo de coisa. Importa cada vez menos, também, o divisor de águas formado pelo conjunto de valores morais como integridade, decência, gratidão, generosidade, honradez, cortesia e tantos outros que marcavam a correção do indivíduo, do ponto de vista pessoal, na vida de todos os dias. O cidadão, hoje, pode ser tudo isso ao mesmo tempo, mas ainda assim não será inocente basta não concordar com as bandeiras em voga, ou ser indiferente a elas, ou não saber que existem.
 
Todas essas cruzadas se declaram proprietárias exclusivas do bem e têm, cada vez mais, a certeza de que a lógica, os argumentos baseados em fatos e o livre debate devem ceder lugar à fé - a fé dos dirigentes e militantes das "causas", que se julgam moralmente superiores e portanto, autorizados a exigir que todos abram mão do seu direito a raciocinar e simplesmente concordem com eles. O lado escuro disso tudo é que a defesa de tais bandeiras está se tornando cada vez mais fanática - e o resultado é a criação, pouco a pouco, de um novo totalitarismo. Nega-se as pessoas o direito de discordar de qualquer delas e, principalmente, de criticar seja lá o que proponham; não é permitida nem a simples neutralidade, pois quem é neutro é considerado cúmplice do mal.
 
Os efeitos práticos são muito parecidos com os que se produzem nas ditaduras - e sua primeira vítima é a liberdade de pensar e de exprimir o que se pensa.
 
Muito de todo esse ruído é simplesmente cômico; além disso, ao contrário do que acontece nas tiranias, os líderes das novas causas não têm a seu dispor a força armada para obrigar o público a obedecer a suas decisões. Mas. em ambos os casos, sua atividade está gerando cada vez mais consequências na vida real. Ainda há pouco, um anúncio da agência AlmapBBDO mostrava um gato preto subindo no capô de um Volkswagen, numa brincadeira 100% inocente a respeito de sorte e azar. Ideia proibida, hoje em dia. Grupos que defendem a causa dos gatos, de qualquer cor, decidiram que o comercial estimulava a "perseguição" e o "desrespeito" ao gato preto, e exigiram da empresa que o comercial fosse retirado do ar. Ganharam: a Volkswagen, uma das maiores companhias do mundo, com mais de noventa fábricas. 550.000 empregados e faturamento superior a 200 bilhões de dólares em 2012, ficou com medo do pró-gato e topou, sim, cancelar o anúncio. Há uma coisa muito parecida com isso - ela se chama censura. A AlmapBBDO, uma das agências de publicidade mais respeitadas do Brasil, queria levar o comercial ao público, como a imprensa queria publicar notícias durante a ditadura militar. Mas a cruzada dos gatos, como acontecia na época em que o governo cortava as notícias que lhe desagradavam, não quis. Nas duas situações uma pela força bruta, a outra pela pressão bruta - o resultado prático é o mesmo: aquilo que deveria ter sido publicado não o foi. Qual é a diferença?
 
Episódios como esse vão se tornando comuns e, para piorar as coisas, deixam atrás de si uma nuvem radioativa que contamina o ambiente do pensamento e faz com que as pessoas fujam das áreas de perigo. É muito pouco provável que a AlmapBBDO volte a criar comerciais com algum gato no enredo, ou qualquer outro animal. Para quê? Outras agências vão tomar, ou já tomaram, a decisão de cortar o reino animal do seu universo criativo e também, por via das dúvidas, o reino vegetal e o reino mineral, pois é possível que provoquem objeções dos movimentos que atribuem direitos civis às árvores, ou às pedras, ou sabe-se lá ao que mais. Os jornalistas e os órgãos de imprensa, com frequência, vão pegando uma alergia cada vez maior a tratar de certos assuntos. "Isso vai dar confusão", ouve-se todos os dias nas redações. "Melhor a gente ficar fora dessa." O mesmo se aplica a políticos, por seu natural pavor de perder votos, a artistas que não querem ficar mal "na classe" e a mais um caminhão de gente capaz de ter posições claras, mas incapaz de arrumar coragem para falar delas em público.
 
É apenas natural que a situação tenha ficado assim. Não vale a pena, para a maioria, dizer o que pensa e ser imediatamente amaldiçoado como racista, cruel com os animais, homofóbico, nazista, destruidor da natureza, inimigo da fauna e da flora, poluidor de rios, lagos e mares, vendido aos interesses das "grandes empresas", carrasco das "minorias", assassino de bagres e por aí afora. Ser um mero defensor da luz elétrica, e achar natural, para isso, que sejam construídas usinas geradoras de energia passou a ser, no código da "causa ambiental", um delito grave. Pior ainda é ser chamado de "agricultor" ou "pecuarista" - as duas palavras passaram a ser utilizadas pelos militantes como um puro e simples insulto. Eis aí. por trás de todo o seu verniz de atitude moderna, democrática e defensora da virtude, a essência do totalitarismo que vai sendo imposto pelas "causas" do bem. O alicerce central de sua postura é raso e estreito: "Ou você pensa como eu. ou você é um idiota; ou você pensa como eu. ou você está errado". Ou você é coisa ainda muito pior, dependendo do grau de ira que sua opinião despertou neste ou naquele movimento.
 
Se discordar, por exemplo, de uma mudança na lei trabalhista, vão acusá-lo de ser a favor da volta da escravatura. Se criticar a doação de latifúndios a tribos de índios, pode ser chamado de genocida. Se achar errado o Bolsa Família, vai ser condenado como defensor da miséria. Se sustentar que o sistema de cotas para negros nas universidades tem problemas sérios, vira um racista na hora. Se julgar que os governos do PT são um exemplo mundial de incompetência, ignorância e vigarice, será incluído na lista negra dos que são contra o povo, contra a pátria e contra as eleições. Falar mal do ex-presidente Lula, então, é um caso perdido. Como ele diz em seus discursos que o seu segundo objetivo na vida é governar para os pobres (o primeiro, segundo uma confissão que fez há pouco, é "viver o céu aqui mesmo na terra"), quem não gosta do ex-presidente só pode ser contra os pobres. A alternativa é ouvir que você, até hoje, não se conforma com o fato de que "um operário tenha chegado à Presidência" etc. etc., como o próprio Lula nos diz todo santo dia. há mais de dez anos.
 
Com certeza há pessoas boníssimas, e sinceramente interessadas no bem comum, na maioria das "causas" em cartaz hoje em dia não lhes passaria pela cabeça, também, imaginar que estão construindo um mundo totalitário. Mas sua recusa em raciocinar um pouco mais, e em agredir a lógica um pouco menos, acaba levando-as, mesmo que não percebam, a uma postura de autoritarismo aberto diante da vida. A modelo Gisele Bündchen, por exemplo, propõe nada menos que uma "lei internacional" obrigando todas as mulheres a amamentar seus filhos. Gisele pode ser mesmo uma devota dessa postura, mas, ao querer que sua opinião pessoal seja transformada em "lei", ela mostra uma outra devoção: o desejo de mandar no comportamento dos outros. E as mulheres que não querem amamentar - como ficam os seus direitos? Qualquer pessoa que quer nos impor uma escolha forçada, diz o psicanalista Contardo Calligaris, de São Paulo. provavelmente está interessada, acima de tudo, em "afirmar e consolidar seu poder sobre nós".
 
Um outro tóxico que alimenta essa marcha da insensatez é a ignorância. Somada à decisão de atirar primeiro nos fatos, e perguntar depois quais eram mesmo esses fatos, leva a episódios de circo como o movimento "Gota d'Água" - no qual um grupo de atores e atrizes tentou demonstrar, no fim de 2011, que a usina de Belo Monte seria uma catástrofe sem precedentes para o Rio Xingu e para a ecologia brasileira cm geral. No vídeo que gravaram com o propósito de provar suas razões, confundiram o Pará com Mato Grosso, colocaram a usina a mais de 1 000 quilômetros do lugar onde está sendo construída e denunciaram a inundação de terras ocupadas por índios quando não há um único índio na área a ser alagada. Foi um desempenho digno de entrar na lista das piores respostas do Enem. Mas os artistas continuam achando que estão certíssimos: sua "causa" é justa, dizem eles, e meros tatos como esses não têm a menor importância. pois o que interessa é o triunfo do bem.
 
"Não há expediente ao qual o homem deixará de recorrer para evitar o real trabalho de pensar", disse, no fim dos anos 1700. o grande mestre da arte inglesa do retrato, sir Joshua Reynolds. Hoje, mais de 200 anos depois, sua tirada é um resumo praticamente perfeito da turbina-mãe que faz girar a máquina das "causas" justas. Nada as incomoda tanto quanto o ato de pensar. Preferem receber insultos, porque podem responder com insultos - o que não toleram é a tarefa de raciocinar em cima de fatos, reconhecer realidades e convencer pelo uso da inteligência. Algum tempo atrás esta revista publicou, com a assinatura do autor do presente artigo, um conjunto de considerações sobre o que julgava serem exageros, equívocos ou distorções do chamado "movimento gay". Tudo o que foi escrito ali recebeu uma fenomenal descarga de ódio. histeria e ofensas, nas quais foram incluídas diversas maldições desejando uma morte rápida para o autor. Mas o que realmente deixou a liderança gay fora de si, acima de qualquer outra coisa, foi a afirmação de que casamento de homem com homem, ou de mulher com mulher, não gera filhos. É apenas um fato da natureza mas é exatamente isso, o fato, o pior inimigo das "causas". Não pode ser anulado por abaixo-assinados. redes sociais ou passeatas. A única saída é mantê-lo oculto pelo silêncio.
 
Por essa trilha, caminhamos para um mundo de escuridão.