domingo, maio 30, 2010

 
PERTENCER A QUEM: AO INDIVIDUO OU A COMUNIDADE?
O mundo chama repetidamente o nosso nome. Encontraremos a nossa capacidade de resposta? Nenhuma resposta é dada, tudo é considerado um fardo, fazemos de conta que não ouvimos...garantimos assim o nosso isolamento. Responder à chamada, oferecer repetidas certezas que poderemos estar ligados, este mútuo balanço entre dar e receber acompanha-nos no caminho para casa.
 
Os filósofos sempre se interessaram pelo modo como os seres vivos se relacionam uns com os outros e com o mundo natural. O que tem mais importância, o indivíduo ou os membros de uma comunidade? Haverá uma razão pela qual eu deva olhar por ti e tu por mim? Devemos alguma coisa ao mundo tal como é? É o isolamento possível, e se for, será desejável? Será que estamos realmente ligados? Será a minha vida enriquecida por pertencer a uma comunidade? Determinados círculos formam connosco uma espécie de coral do conceito de pertença, conversar em conjunto, descobrir a comunidade e repensar a responsabilidade. Para a maioria, isso marca a primeira tentativa para apreender o sentido de capacidade de resposta (response hability).
 
Marietta McCarty, How philosophy can save your life, Penguin, 2009, London, pp.201,202
tradução de Helena Serrão


Courtesy TerritorioScuola

Marilena Chaui, aos 57 anos, exercita o princípio básico da filosofia de questionar idéias, fatos, valores e comportamentos da nossa realidade há mais de 30 anos.
 
O GRAVE PROBLEMA DA LIBERDADE
 
Pelo meu lado, digo que esta coisa é livre, que existe e age pela necessidade da sua natureza e é constrangida e determinada por uma outra a existir e a agir segundo uma modalidade precisa e determinada. Deus, por exemplo, existe livremente porque existe apenas pela necessidade da sua natureza. Vedes então que não sintuo a liberdade num decreto livre mas numa necessidade livre.
 
Mas regressemos às coisas criadas que, todas elas, são determinadas a existir e a agir segundo uma forma precisa e determinada. Uma pedra recebe de uma causa exterior que a atira, uma certa quantidade de movimento...todo o objecto singular é necessariamente determinado por qualquer causa exterior a existir e a agir segundo uma lei precisa e determinada...
 
Concebei agora, se quiserdes, que a pedra, enquanto se move, sabe e pensa que faz todo o esforço possível para continuar a mover-se. Este perdura, certamente, porque não tem consciência senão do seu esforço...julgará ser livre...
 
Tal é a liberdade humana que todos os homens se envaidecem de ter e que consiste em os homens serem conscientes dos seus desejos e ignorantes da causas que os determinam. É assim que uma criança julga desejar livremente o leite...Um ébrio julga dizer por decisão o que seguidamente quererá calar."
Bento de Espinosa, Carta a G.H. Shuller

QUEM É RESPONSÁVEL POR NOSSAS AÇÕES?

Algumas pessoas pensam que a responsabilidade pelas nossas acções requer que elas sejam determinadas, em vez de requerer que não o sejam. O que se afirma é que para que uma acção seja algo que tenhas feito tem de ser produzida por certo tipo de causas em ti. Por exemplo quando escolheste o bolo de chocolate, isso foi algo que fizeste e não algo que se limitou a acontecer, porque preferiste comer um bolo de chocolate a comer um pêssego (...)No caso de outras acções, a explicação psicológica será mais complexa, mas haverá sempre uma - caso contrário, a acção não seria tua. Esta explicação parece querer dizer que aquilo que fizeste estava, afinal, determinado à partida. Se não estivesse determinado por nada, seria apenas um acontecimento por explicar, algo que teria acontecido a partir do nada, em vez de algo que tivesses feito..

De acordo com esta posição, a determinação causal, por si só, não ameaça a liberdade -só um certo tipo de causa o faz. Se pegasses no bolo porque alguém te obrigou, então a escolha não teria sido livre. Mas a acção livre não requer de modo algum que não aja uma causa determinante, quer antes dizer que a causa tem de ser de um certo tipo psicológico que nos é familiar.
Thomas Nagel, Que quer dizer tudo isto? (Lisboa, Gradiva, 1995).

 A  LIBERDADE 

O único ponto sobre o qual, à primeira vista, os seres humanos estão de acordo é que nem todos estamos de acordo. Mas lembra-te de que as opiniões diferentes coincidem também num outro ponto; a saber, que aquilo que vai ser a nossa vida é, pelo menos, em parte, resultado do que quiser cada um de nós. se a nossa vida fosse algo completamente determinado e fatal, irremediável, todas estas questões careceriam do mínimo sentido. Ninguém discute para saber se as pedras caem para cima ou para baixo: caem para baixo, ponto final. Os castores fazem represas nos ribeiros e as abelhas favos com alvéolos hexagonais: não há castores que se sintam tentados a fazer alvéolos de favos, nem abelhas que se dediquem à engenharia hidráulica. No seu meio natural, cada animal parece saber perfeitamente o que é bom e o que é mau para ele, sem discussão nem dúvidas. Não há animais maus nem bons na Natureza, embora talvez a mosca considere má a aranha que lhe lança a sua teia e a come. Mas a aranha não o pode evitar.

E chegamos assim à palavra fundamental de toda esta embrulhada: liberdade. Os animais (para já não falarmos nos minerais e nas plantas) não podem evitar ser como são e fazer aquilo que naturalmente estão programados para fazer. Não se lhes pode censurar que o façam nem aplaudi-los pelo que fazem, porque não sabem comportar-se de outro modo. As suas disposições obrigatórias poupam-lhes, sem dúvida, muitas dores de cabeça. Em certa medida, de início, nós, os homens também estamos programados pela natureza. Estamos feitos para beber água e não lixívia, e tomemos as precauções que tomarmos, mais cedo ou mais tarde, morremos. E de modo menos imperioso mas análogo, o nosso programa cultural é também determinante: o nosso pensamento é condicionado pela linguagem que lhe dá forma ( uma linguagem que nos é imposta de fora e que não inventámos para nosso uso pessoal) e somos educados em certas tradições, hábitos, formas de comportamento, lendas...; numa palavra, são-nos inculcadas desde o berço certas fidelidades e não outras. Tudo isto pesa muito e faz com que sejamos bastante previsíveis.
Fernando Savater, Ética para um jovem, Lx, 1998