domingo, setembro 14, 2014
O absurdo da Existência
No ano de
1941, o filósofo francês Albert Camus escreve o ensaio filosófico o mito
de Sísifo. Neste ensaio, Albert introduz a sua construção filosófica do
absurdo: o do homem em busca de sentido, unidade e clareza no rosto de
um mundo ininteligível desprovido de clareza racional em suas tramas
existenciais. Em Camus, o homem é cotidianamente confrontado com
acontecimentos que desafia a sua racionalidade, gerando a necessidade de
explicações lógicas de sentido; Segundo ele, ficamos cara a cara com
uma realidade trágica, complexa e absurda, que nos cansa sempre quando
nos dispomos à apreende-la.
Ao cotidiano sofrido, que carece de um
reiterado esforço para vivê-lo, Camus relaciona à tarefa enfandonha de
Sísifo. Um personagem da mitologia grega que é condenado a repetir
sempre a mesma tarefa de empurrar uma pedra até o topo de uma montanha,
sendo que, toda vez que estava quase alcançando o topo, a pedra rolava
novamente montanha abaixo até o ponto de partida por meio de uma força
irresistível, invalidando completamente o duro esforço despendido.
Reside aqui então um dos grandes desafios
do homem: Mesmo diante de um cotidiano enfadonho, trágico e doloroso,
encontrar os sentidos e os significados da existência. Naquelas
realidades e acontecimentos absurdos – o que não nos apresenta uma
inteligibilidade coerente, portanto lógico – que experienciamos em nosso
cotidiano, devemos tal qual um garimpeiro de pedras preciosas,
encontrar sentido e força impulsiva de criação ou ressignificação da
vida que insistentemente se nos apresenta absurda. No não entendimento
dos fatos há sempre espaço para uma antilogia dos sentidos, ou seja, que
é razoável pensar que não constitui loucura imaginar que diante dos
absurdos da vida, tenhamos uma felicidade também absurda, visto que a
felicidade não consiste no entender, mas no sentir; no significado que a
experiência me confere.
Assim como Sísifo, que foi condenado a
repetir sempre a mesma tarefa de empurrar uma pedra até o topo de uma
montanha, é possível que no cotidiano entrelaçado pelo cansaço das
atividades rotineiras ou pelos absurdos da existência, é possível sim,
fazermos também aí a experiência da afirmação positiva da vida.
Vejamos por exemplo a questão da morte.
Ela é sempre trágica. A identidade trágica da morte se caracteriza no
seu aspecto de rompimento com o processo natural da vida; e todo e
qualquer rompimento trás em si a temática da dor e da angústia do “não-sentido” ou da “não-compreensão”.
Toda tragédia é si mesma um absurdo ontológico. Porém, mesmo assim, o
trágico traz em sí a afirmação da vida como instancia de continuidade,
de movimento. Sempre quando perdemos algo ou alguém, interiormente é
reafirmado em nós o valor da posse ou da presença. Este valor intrínseco
da vida. Na experiência da morte de alguém muito querido, sentimos em
nós essa tensão ontológica entre o rompimento e a perda – o absurdo sem
explicação - e o resignificado da existência e da vida que se processa.
Há um grande número de pessoas, que logo após a experiência do trágico,
percebem que é preciso dá um novo sentido à sua existência mesmo que
esta continue ainda no campo do absurdo, do inexplicável. Daí
compreendemos, que uma existência inexplicável é bem melhor que uma vida
sem sentido.
Por isso, a vida ressurge sempre. Haverá
sempre um impulso original criativo dentro dela de onde provêm os
sentidos e os resignificados da existência. A vida é um movimento pra
frente, vai dizer o também filósofo francês Henri Bergson. Segundo ele, a
vitalidade da vida humana é originada a partir do que ele chama de élan vital. Esse termo
é utilizado pelo filósofo para designar um impulso original de criação
de onde provém a vida e que, no desenrolar do processo evolutivo,
inventa formas de complexidade crescente até chegar no homem, à
intuição, que é um tipo de devir criador, cuja potência consiste,
especialmente em criar, fazer surgir, gerar.
O absurdo de Albert Camus e o elã Vital de
Bergson são na verdade suas faces da mesma moeda, duas categorias de
uma mesma existência do homem Sísifo, que mesmo diante das armadilhas do
cotidiano, empenha um esforço heroico contra o inconformismo ou a toda
atitude de fuga do embate existencial. Este homem, que por meio de uma
força geradora, dá novo sentido à sua existência absurda.
[Setembro In.2014 by damião fernandes]
Sobre aquele olhar (...)
"Lembro-me que já era noite. Uma daquelas
noites que tinha tudo para ser igual a todas a outras. Mas, a atitude de
um homem contribuiu decididamente para aquela noite se torna memorável,
portanto, sagrada. A sair para missa,
como de costume, sempre pedia a bênção e dava um beijo em minha mãe. Fiz
isso mais uma vez, sacramentalmente. Tudo parecia correr
tradicionalmente como de costume. De repente, meu Pai me olhou e disse: E
beijo para mim, não tem?. Confesso que fiquei desconcertado, pois não
era algo natural dele, meu pai sempre foi tímido e calado - tal pai,tal
filho - Parei por um momento, olhei pra ele e não resisti, agarrei seu
pescoço e lhe dei um enorme e demorado beijo e depois o joguei no chão e
caí por cima. Rolamos sala a dentro. Naquela noite me senti uma criança
profundamente amada e percebi que tinha uma Pai sincero, singelo,
sensível e também necessitado de amor. Daquela noite em diante muitos
abraços e outros beijos existiram. Ate hoje perdura o olhar".
[Setembro In.2014 by damião fernandes]
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