sexta-feira, janeiro 10, 2014




Quando conseguir, saia da caverna

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"Percebemos pela explicação do próprio Platão, que o prisioneiro não é libertado por nenhuma força externa, mas por um conflito interno entre duas forças que se encontra em sua alma, a força do hábito ou da acomodação e a força do impulso, da curiosidade, que o estimula para fora, para buscar algo além de si mesmo. Como quem busca a possibilidade da abertura de uma Janela, onde possa vislumbrar a partir dela uma nova realidade. A força do hábito possibilita a que o homem se sinta confortável a sua situação de ignorância, de “não-entendimento” que arrasta desde a infância, ao passo que a força da curiosidade o torne insatisfeito, frustrado e infeliz."




Que o medo, não te amedronte

Acredito não ter sido à toa, e claro que não foi, o fato de que na Palavra de Deus há inúmeras menções, referências aos medos cotidianos dos homens e mulheres na história o Povo de Israel. Assim foi com o patriarca Abraão quando Deus disse: “Não temas, Abrão! Eu sou o teu protetor; tua recompensa será muito grande.”(Genesis 15, 2). E por causa da absoluta confiança em Deus, este homem foi estabelecido o Pai de uma grande Nação. E muito tempo depois o Próprio São Paulo vai afirmar que Abraão foi justiçado pela fé que tinha em Deus.

Dessa mesma forma agiu Deus com relação a Moisés, este sim foi um homem quase que paralisado por seus medos. Moisés, afirmava com todas as letras e quase que em todas as ocasiões seus medos angustiantes. Moisés,  precisa ser incansavelmente - ainda bem que a Deus não se cansa – convencido de que ele é capaz, de que ele pode, de que as pessoas iriam acreditar em suas palavras e que não era necessário temer. Moisés era um homem marcado, estigmatizado pelos medos “não reais”.

Semelhante comportamento, o é possível constatar na vida e na Pessoa de outro Grande Profeta da História do Povo de Israel: Elias. Ele foi um campeão do monoteísmo de Yahweh. É ele quem mantém a fé em Yahweh entre o povo e quem luta com vigor pelos Seus direitos. Sua árdua luta contra todo sincretismo religioso faz deste profeta, que "surgiu como fogo e cuja palavra queimava como uma tocha", uma figura de primeira linha na sucessão das duas Alianças.

Mas Elias, também teve medo. Ele foi tomado de medo e fugiu para o deserto, caminho de um dia. Lá, ele fez uma oração de grande suspiro: Basta; toma agora, ó Senhor, a minha alma, pois não sou melhor do que meus pais. (I Reis 19,3-4). Os medos que sentimos, fazem parte de condição humana, ou seja, somos homens fracos, temerosos, temos a incerteza do futuro. Não conseguimos conhecer um palmo a frente do nosso nariz. Fazemos diariamente a experiência das nossas limitações, da mutabilidade das coisas, das pessoas. O medo no toma e muitas vezes, nos escraviza, assim como em Abraão, Moisés e Elias.

Homens que foram determinantes na História do Povo de Israel. Mas, eis a grande diferença: Os medos não os paralisaram. Seus medos não os fizeram voltar a trás e desacreditar de que Deus estava com eles ate o fim (Mt 28,20). Eles compreenderam no dia-a-dia de suas vidas, diante de seus desafios e problemas, diante de suas angustias e lágrimas: Que o nome de Deus é: Emmanuel – que significa Deus Conosco.

quinta-feira, janeiro 09, 2014


A contemporaneidade nos permite contemplar uma brutal postura individualista do homem e um anti-humanismo corrosivo na sociedade e nos diferentes e distintos grupos sociais que a compõem. O home atual torna-se um enigma para si mesmo e para o Outro.  O valor da individualidade parece que eleva-se muito acima da coletividade. A dor “que é minha” é mais dor que a “dor do Outro”, A Alegria “que é minha” está acima daquela “alegria do Outro”, A religião "que é minha  é "mais religião que a religião do Outro" e ainda, a Inspiração "que é minha" é mais "inspiração que a do Outro". Nos atuais dias, o orgulho e a vaidade humana ganham novo nome, adquire novo ‘status. Toda a perceptiva individualista torna sempre o Outro um instrumento-possibilidade, um objeto-meio, onde os "meus desejos" interindividuais serão conquistados sob qualquer preço e a qualquer custo. É na verdade o “tu que suplanta o eu”. É assim, o “cada um por sí e todos por nenhum”.

Há um pensador que com suas ideias, conseguiu revolucionar a estrutura conceitual e comportamental dessa realidade. Emannuel Lévinas, filósofo trás a o conceito ético acerca de uma Alteridade voltada para o Outro como prioridade sobre o “EU”.

Bastante influenciado pela fenomenologia de Edmund Husserl, de quem foi tradutor, assim como pelas obras de Martin Heidegger e Franz Rosenzweig, o pensamento Lévinas parte da idéia de que a Ética, e não a Ontologia é a Filosofia primeira. É no face-a-face humano que se irrompe todo sentido. Diante do rosto do Outro, o sujeito se descobre responsável pela vida do outro e por consequência pela sua e daí lhe vem à idéia de Infinito.

Não se pode compreender o rosto, ele engloba Outrem, ou seja, não pode ser objetivado, mas transcende toda significação que se queira atribuir-lhe. O “eu” não nega o Outrem, o rosto. O Outrem é transcendente, estranho, seu rosto rompe com o mundo comum que se inscreve em sua natureza e se desenvolve em nossa existência. O Outrem é percebido pela diferença absoluta, instaurada pela linguagem. O rosto é mais que a exposição de algo humano que escapa, ele se revela constantemente.

A linguagem é a relação (e possibilita-a) entre separados; ela é o “próprio poder de quebrar a continuidade do ser” (LEVINAS, Totalidade e Infinito, p.174). A palavra, dirigida a Outrem, tem-no não como tema e sim significação, falar com o outro é falar a ele.

Na relação, o outro é absoluto, ele nunca é reduzido, por isso ele se torna ‘infinito’, cuja ideia mantém sua exterioridade. Desse infinito é que deriva a exterioridade, que é a ruptura e o limite da totalização; a alteridade, a relação com o outro, com o todo outro; e o rosto, propriamente, como revelação do estranho e abertura ética por excelência (PELIZZOLI, Notas para compreender Levinas).

Lévinas instaura com a sua teoria, uma nova forma de pensar e ver o mundo, uma original postura de contemplar o Outro e compreende-lo, ou seja, ao invés do indivíduo agir frente ao outro, é a descoberta do outro que impõe a postura adequada. Esta conduta rompe com a perspectiva autonomista e individualista para sujeita-la a uma compreensão de coletividade, de sociabilidade. Se por um lado a sociedade vive entranhada numa “ditadura” do individualismo, do “eumismo”, onde os interesses, desejos íntimos prevalecem sobre os coletivos, por outro lado o homem absorve em si e para si esta cultura que isola e exclui.

A ética de Lévinas estabelece que é  na relação face –a face, entre o eu e o outro que se constrói passo a passo a proximidade, onde o sentido primordial e fundamental é a responsabilidade do eu pelo outro, sem nenhuma exigência de reciprocidade.

E aqui mais uma vez nos defrontamos com a urgente necessidade de altercar a realidade humano-social na qual estamos inseridos. Como podemos impregnar as relações humanas dessa compreensão ética proposto por Lévinas? A proposta da Alteridade? Que meios ou mecanismos utilizaremos para estabelecê-la? Simplesmente procurando ver o rosto do Outro como rosto digno por sí mesmo de ser visto e cuidado. Sentir a exigência do cuidar da vida do outro, quando necessariamente o olhamos e muito mais que isso, o vemos como “Outro” e nunca como extensão de mim mesmo, da minha ganancia por auto referência.




A vida, tecida fio a fio.

“A construção há de ser fio a fio. As mãos que tecem a vida devem ser as mesmas mãos que vivem, que choram, que sofrem, que sorri e que espera. As mesmas mãos que inalam o ar do dia novo, devem ser as mesmas que contemplam o por do sol no final da tarde. A vida é tecida em momentos. A construção há de ser fio a fio. A vida não dever ser desencarnada da terra, do húmus, da dor ou do sofrer; a vida, essa sim, precisa estar entrelaçada á todas ás efemeridades possíveis para que o significado do eterno seja erguido com precisão teológica. A carne também é habitação do sagrado gracioso que nos sorri e nos convida a embrenhar-se sem pudor puritano e sem excessos desregrados. A construção há de ser fio a fio.  

A vida humana é tecida fio a fio. Por nove meses somos construídos presos á um cordão que nos estabeleceu ontologicamente na plenitude do tempo e na geograficariedade dos espaços. Um cordão, que se torna a metáfora da mão que nos toma e nos introduza ao mistério da vida. Estamos vivos, graças ao cordão que nos prende, nos envolve. É a vida sendo tecida sem pressa e sem exigências adultas. A vida segue seu processo natural quando é tecida fio a fio. A construção há de ser fio a fio, pois a vida é sempre sentida e dessentida em pequenos processos de tempo e de sacralidade; a vida sempre é revestida de vestígios de beleza e de padecer. Não temos a vida completa nas mãos, não a temos em plenitude sob nossos pés, ela está aí acontecendo. A vida, revela-se na verdade em pequenas gotas chamadas de “presente”, um presente acontecido apenas uma única vez e de cada vez. Um presente que é dividido em milésimos tempos. O presente é a vida acontecendo no denso fio do hoje.

O fio a fio é a metáfora da mudança insistente, do presente sempre metanoico que nos surpreende cotidianamente no exato momento em que nos acostumamos com o já pronto e o já dito. O fio a fio é a compreensão sobre a singularidade das coisas, dos tempos, das pessoas, dos amores, das dores, das saudades e dos infortúnios. O fio a fio é o momento vivido hoje, é o tempo que passa agora e que me entrelaça em suas teias de esquecimentos e lembranças. O fio a fio é o “faça-se a luz” (Gênesis 1,3) nas trevas cotidianas do presente é o “vem para fora” (Jo 11,43) das grutas ou cavernas interiores que no presente nos aprisionam ou nos alojam. O fio a fio é o jeito de Deus trabalhar passo a passo, sem a presença do tempo ou sem a urgência do festfood. Pois o amor verdadeiro acontece mesmo, é na demora do olhar e do contemplar descortinado.

Quase todas as tardes eu observava minha mãe costurar nossas roupas, as dos meus irmãos e as do meu pai. Ela fazia isso com um zelo religioso tão grande que eu não me cansava em contemplá-la. Ela pegava a agulha, depois a linha e pacientemente procurava passar pelo buraco da agulha a linha quase invisível. Suas vistas já não eram das melhores, por isso, vez por outra ela sempre me pedia para ajudá-la á colocar a linha na agulha. Ela então seguia costurando peça por peça, rasgão por rasgão. Fio a fio, minha mãe ia muito mais que costurando roupas, ela com seu jeito, ia tecendo vidas, experiência vividas no cotidiano lá de casa, da escola. È! Lembro-me bem, com essas roupas costuradas por minha mãe eu todo feliz e orgulhoso ia para a escola. Meus colegas, nunca foram capazes de entender que por trás de cada traço de linha, por trás de cada fio enviesado naquelas roupas cosidas, estava a mulher que me laçou com o seu laço umbigal de amor e que fio a fio me ensinou que a vida também é feita de costuras.