quinta-feira, janeiro 09, 2014




A vida, tecida fio a fio.

“A construção há de ser fio a fio. As mãos que tecem a vida devem ser as mesmas mãos que vivem, que choram, que sofrem, que sorri e que espera. As mesmas mãos que inalam o ar do dia novo, devem ser as mesmas que contemplam o por do sol no final da tarde. A vida é tecida em momentos. A construção há de ser fio a fio. A vida não dever ser desencarnada da terra, do húmus, da dor ou do sofrer; a vida, essa sim, precisa estar entrelaçada á todas ás efemeridades possíveis para que o significado do eterno seja erguido com precisão teológica. A carne também é habitação do sagrado gracioso que nos sorri e nos convida a embrenhar-se sem pudor puritano e sem excessos desregrados. A construção há de ser fio a fio.  

A vida humana é tecida fio a fio. Por nove meses somos construídos presos á um cordão que nos estabeleceu ontologicamente na plenitude do tempo e na geograficariedade dos espaços. Um cordão, que se torna a metáfora da mão que nos toma e nos introduza ao mistério da vida. Estamos vivos, graças ao cordão que nos prende, nos envolve. É a vida sendo tecida sem pressa e sem exigências adultas. A vida segue seu processo natural quando é tecida fio a fio. A construção há de ser fio a fio, pois a vida é sempre sentida e dessentida em pequenos processos de tempo e de sacralidade; a vida sempre é revestida de vestígios de beleza e de padecer. Não temos a vida completa nas mãos, não a temos em plenitude sob nossos pés, ela está aí acontecendo. A vida, revela-se na verdade em pequenas gotas chamadas de “presente”, um presente acontecido apenas uma única vez e de cada vez. Um presente que é dividido em milésimos tempos. O presente é a vida acontecendo no denso fio do hoje.

O fio a fio é a metáfora da mudança insistente, do presente sempre metanoico que nos surpreende cotidianamente no exato momento em que nos acostumamos com o já pronto e o já dito. O fio a fio é a compreensão sobre a singularidade das coisas, dos tempos, das pessoas, dos amores, das dores, das saudades e dos infortúnios. O fio a fio é o momento vivido hoje, é o tempo que passa agora e que me entrelaça em suas teias de esquecimentos e lembranças. O fio a fio é o “faça-se a luz” (Gênesis 1,3) nas trevas cotidianas do presente é o “vem para fora” (Jo 11,43) das grutas ou cavernas interiores que no presente nos aprisionam ou nos alojam. O fio a fio é o jeito de Deus trabalhar passo a passo, sem a presença do tempo ou sem a urgência do festfood. Pois o amor verdadeiro acontece mesmo, é na demora do olhar e do contemplar descortinado.

Quase todas as tardes eu observava minha mãe costurar nossas roupas, as dos meus irmãos e as do meu pai. Ela fazia isso com um zelo religioso tão grande que eu não me cansava em contemplá-la. Ela pegava a agulha, depois a linha e pacientemente procurava passar pelo buraco da agulha a linha quase invisível. Suas vistas já não eram das melhores, por isso, vez por outra ela sempre me pedia para ajudá-la á colocar a linha na agulha. Ela então seguia costurando peça por peça, rasgão por rasgão. Fio a fio, minha mãe ia muito mais que costurando roupas, ela com seu jeito, ia tecendo vidas, experiência vividas no cotidiano lá de casa, da escola. È! Lembro-me bem, com essas roupas costuradas por minha mãe eu todo feliz e orgulhoso ia para a escola. Meus colegas, nunca foram capazes de entender que por trás de cada traço de linha, por trás de cada fio enviesado naquelas roupas cosidas, estava a mulher que me laçou com o seu laço umbigal de amor e que fio a fio me ensinou que a vida também é feita de costuras.

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