quarta-feira, março 17, 2010



Boécio e a ética eudaimonista

"A narrativa de Boécio, considerada, normalmente, como registro dos últimos momentos de sua vida, não pode ser dita uma narrativa estritamente autobiográfica, principalmente se, por “biografia”, pensarmos no que se entende por esse gênero a partir dos modernos. Com efeito, biografias do tipo que hoje conhecemos não existiam no passado grego ou medieval e um relato “biográfico” como o de Boécio, que lembra muito a “biografia” de Agostinho, não pode ser entendido como hoje, em tempos burgueses, se pensa uma biografia, porque tanto o relato da consolação de Boécio como o itinerário das confissões de Agostinho têm como pano de fundo um problema, o da relação entre um singular e um universal concreto o traçado do caminho da felicidade, da consecução do sentido que tem o absoluto para o singular.

Na busca, portanto, da verdadeira felicidade. Boécio se dá conta, em primeiro lugar, de que ela é o fim desejado em todas as atividades humanas, pois, no seu dizer, haveria um desejo do verdadeiro bem naturalmente posto nas mentes humanas, de maneira que, embora por dife- rentes vias, todos caminham à procura de alcançar a felicidade. Além disso, a felicidade implica completude de bens, no sentido de reunir, em si, todos os bens desejáveis, a ponto de, uma vez obtida, não deixar mais nenhuma possibilidade para se desejar algum outro bem, visto que, se houvesse tal possibilidade, a felicidade não seria o sumo bem desejado por todos, mas haveria, para além dela, algo que ainda se poderia desejar."
Texto de Juvenal Savian Filho, Doutor em Filosofia Medieval pelo Departamento de Filosofia da USP, sob orientação da Profa. Dra. Marilena de Souza Chaui. Professor da Universidade São Judas Tadeu. E-mail: jsfilho@usp.br

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