O MEU POVO HÁ DE FARTAR-SE DE MEUS BENS
Mensagem Pascal
“Nações, escutai a
palavra do Senhor; levai a notícia às ilhas longínquas e dizei: Aquele
que dispersou Israel o reunirá, e o guardará, qual pastor a seu rebanho.
Regressarão entre gritos de alegria às alturas de Sião, acorrendo aos
bens do Senhor: ao trigo, ao mosto e ao óleo, ao gado menor e ao maior.
Cumularei os sacerdotes de abundantes vítimas gordas, e o meu povo há de
fartar-se de meus bens” (Jr 31, 10.12a.14).
Como é próprio dos textos proféticos, o extrato em epígrafe, do
profeta Jeremias, é um “grito”, uma espécie de clamor acompanhado do
desejo de que todos escutem. A ansiedade do homem de Deus se justifica,
sobretudo porque aquilo que ele anuncia é uma boa notícia. É como quando
tomamos conhecimento de algo interessante, importante, digno de ser
publicado e que “não vemos a hora” de fazê-lo ao maior número de pessoas
possível.
Naquela época, o povo de Deus (aqui chamado de Israel) estava
exilado, era escravo de uma nação estrangeira. O profeta proclama a
libertação do povo, indicando que ele voltará para a sua terra com
alegria e se fartará com “os bens do Senhor”. Que bens são esses?
Jeremias fala de trigo, mosto, óleo e gado. A abundância dessas coisas
era tida pelos homens daquele tempo como um sinal da bênção dos céus.
Portanto, este é um modo do profeta explicar a prodigalidade de Deus
quando intervém e salva.
Hoje em dia, muitas pessoas (entre elas, anunciadores do Evangelho)
acham que os “bens de Deus” são bens materiais. Há, inclusive, os que
proclamam que Deus não quer ninguém pobre e que, quanto maior for a
riqueza de alguém, maior a evidência de que o fiel é um abençoado.
Alguns testemunham a bênção mediante a apresentação da posse ou da
propriedade de carros, mansões e empresas prósperas. E tantos outros
ficam desejando essas coisas, esperando que Deus lhes dê igualmente.
Conquanto muito bem elaborada e com respaldo no Antigo Testamento,
esse modo de enxergar as coisas não me parece em acordo com aquilo que
Jesus pregou. Parece-me, sim, uma regressão à mentalidade
veterotestamentária que, por não enxergar ainda a recompensa pós-morte,
via na prosperidade financeira o modo de Deus manifestar a sua justiça
para com os bons.
Ora, esse pensamento evoluiu com o progresso da Revelação Cristã. É
uma contradição pleitear que os cristãos sejam ícones de sucesso
econômico adquirido mediante a fé. Eles seriam, realmente, seguidores do
mestre que nunca ensinou os seus discípulos a pedirem riquezas? No
evangelho, quando muito, Jesus orienta a solicitar o necessário de cada
dia: “O pão nosso de cada dia nos dai hoje” (Mt 6, 11 – grifo
meu). E ainda: “Não vos preocupeis com a vossa vida, quanto ao que
haveis de comer, nem com o vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir.
Vosso pai celeste sabe que tendes necessidade de todas essas coisas.
Buscai em primeiro lugar o reino de Deus e todas essas coisas vos serão
acrescentadas” (cf. Mt 6, 25a.32b-33). O necessário é tudo aquilo que o
homem precisa para viver com dignidade. E isto é muito pouco.
No sermão da montanha, que é a catequese fundamental de Jesus, a primeira coisa que ele diz é: “Bem aventurados os pobres”
(Mt 5, 3 – grifo meu). Em outro momento, afirma ser impossível a um
rico entrar no Reino dos Céus (cf. Mt 19, 24). E justifica dizendo:
“Ninguém pode servir a dois senhores. Não podeis servir a Deus e ao
dinheiro” (Mt 6, 24). Ao distribuir riquezas e bens de consumo, estaria
Deus ofertando aos homens a sua própria condenação? Jesus é muito
veemente quando desaconselha o acúmulo de bens materiais, pois onde
“está o teu tesouro aí estará o teu coração” (cf. Mt 6, 19-20).
No evangelho, não se vê em parte alguma Jesus tornando alguém rico.
Ao contrário, a alguns ele propõe o abandono das riquezas. Por exemplo,
àquele jovem que lhe pergunta o que falta fazer para chegar à perfeição:
“Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que possuis e dá-os aos
pobres e terás um tesouro no céu. Depois vem e segue-me” (Mt 19, 21).
Neste caso, a renúncia dos bens torna-se condição para iniciar o seguimento radical.
Igualmente, não há no evangelho episódios em que Jesus realiza sonhos
de consumo. Pelo contrário, ele requisita sonhos, como em Mt 4, 19:
“Vinde após mim e vos farei pescadores de homens”, ocasião em que Jesus
entrou na vida de alguns dos seus futuros discípulos, que tinham
projetos de vida, pedindo que os abandonasse em vista de um projeto
divino.
Jesus é sempre muito contundente com aqueles que o querem seguir. Fez
questão de recordar a um deles que “o filho do homem não tem onde
reclinar a cabeça” (Mt 8, 19-20). De fato, Jesus não tinha onde cair
morto (literalmente, porque o túmulo onde ele foi enterrado era
emprestado). Sim, emprestado, porque ele usou dois dias e depois
devolveu.
Se existe alguém que, no evangelho, oferece bens deste mundo não é
Deus e sim o Diabo: “Tornou o Diabo a levá-lo, agora para um monte muito
alto. E mostrou-lhe todos os reinos do mundo com o seu esplendor e
disse-lhe: Tudo isso te darei, se, prostrado me adorares” (Mt 4,8-9). E
isso era uma tentação, na qual Jesus não caiu.
Obviamente, Deus não quer a miséria humana. O discurso de Jesus não
incentiva a passividade e nem proíbe a previdência, quando esta é
razoável. Mas ele ensina que “a cada dia basta o seu cuidado” (Mt 6,
24), ou seja, que o cristão deve portar-se com confiança na providência
divina. Até porque, em última análise, ninguém é capaz de garantir nada
para si ou para outrem. As riquezas em nada contribuem para a salvação
do homem. Morrendo, rico ou pobre não faz diferença.
Não obstante eu tenha imenso respeito por todos aqueles que, em
qualquer religião, buscam honestamente a Deus, não há como deixar de
criticar essa religiosidade de consumo que vemos tomar proporções
assustadoras nos dias de hoje, construindo uma mentalidade supostamente
evangélica, mas que em cujo bojo está a vontade egoísta de possuir e de
obter sucesso. Essa religiosidade, se protestante, trai a própria
tradição luterana, calvinista e mesmo aquela oriunda do pentecostalismo
clássico. Se católica, agride a doutrina da redenção.
Frases como “o homem sonha, Deus realiza” ou “o segredo do meu
sucesso é Jesus”, cada vez mais comuns, no contexto atual representam
uma ideologia que coloca em risco a própria religião, uma vez que,
estando claro que nem todos os crentes alcançam o que querem, muitos se
decepcionam com Deus e não mais o procuram. Ficam como que “vacinados”
contra o Evangelho, pois têm a impressão que já aderiram a ele e
descobriram que se tratava de um engano. Não é dispensável alertar que
os líderes religiosos que, conscientemente, geram essas expectativas nas
pessoas, esperanças que sabem não serão correspondidas de um modo
mágico, responderão diante de Deus pelos seus atos.
Se os bens de Deus não são materiais e nem a realização de sonhos consumistas, o que são eles? Em primeiro lugar, é o seu amor mesmo.
Amor dado de maneira gratuita e incondicional. Que atinge não apenas as
emoções, mas a estrutura da pessoa. Amor que liberta dos complexos e
das carências. Amor que plenifica o homem, para que ele não dependa de
fazer sucesso para ser feliz.
Em segundo lugar, a salvação. A libertação do pecado e da
morte. Muitas pessoas medem o tamanho de uma graça pelo seu resultado
pragmático. Assim, consideram que no topo dessa hierarquia estão as
grandes curas físicas ou os fenômenos incríveis. A salvação é, na
verdade, a maior de todas as graças, aquilo que confere plenitude à
pessoa, libertando-a das escravidões oriundas do mal.
Em terceiro lugar, o bem de Deus é o Espírito Santo. Sua
ação capacita o homem para a conversão, pois outorgando dons e frutos. A
paciência, a paz, a temperança e a alegria estão entre eles. O Espírito
Santo é a presença perene de Deus em cada pessoa, recordando a sua
identidade de “filho no Filho” e livrando-a da orfandade e da miséria
espiritual.
É preciso ser inteligente. Quem se deixa levar por discursos falsos
não alcançou ainda a sabedoria e nem sabe discernir adequadamente. Ora,
“feliz o homem que encontrou a sabedoria, que alcançou o entendimento.
Ganhá-la vale mais do que a prata, seu lucro é mais do que o ouro” (Prov
3, 13-14). Escolher a melhor parte, os verdadeiros bens, é a atitude
daqueles que compreenderam as coisas novas, a realidade pascal.
Ronaldo José de Sousa
Formador Geral da Comunidade Remidos no Senhor

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