segunda-feira, outubro 22, 2012


Cultura do Logro
 Marcia Tiburi

Um artista conhecido viveu a seguinte situação: fez uma campanha para angariar dinheiro destinado a ajudar uma instituição de caridade. Tendo recebido um apoio incrível em nome da campanha de seus milhares de fãs cadastrados em seu mailing e nas redes sociais, ele imaginou que conseguiria arrecadar um bom valor, suficiente para o fim destinado.

A promessa era grande. Acontece que quase ninguém se moveu para, de fato, apoiá-lo. O dinheiro conseguido foi irrisório em relação ao esperado. E o que era esperado? Ora, algo que parecia estar sendo prometido. Mas algo estava sendo “prometido”?

De fato, não é bem assim. A confusão entre o que se insinua e o que se promete é questão importante. Insinuar é o gesto de sub-prometer. No mercado amoroso, por exemplo, a insinuação se constitui como mero sinal que pode ou não implicar realização de fato. Insinuar sempre pode significar outra coisa. A insinuação é um tipo de pré-prática. Ela se coloca como a antessala dos fatos, onde muitos se acomodam tranquilamente.

No campo sexual, ela é um gozo em si mesmo. Preâmbulo da sedução, a insinuação não implica compromisso. A sedução é mais perigosa, exige que algo entre o poder e a impotência se verifique na prática. A insinuação não. Ela fica aquém da sedução no prazer sinuoso daquilo que compraz porque não compromete.

Neste contexto é que podemos falar de uma cultura do descompromisso em vigência entre nós. Ela se alegra com a ameaça, não com o feito. É o falar sem precisar fazer, embora saibamos que falar é, de algum modo, sempre fazer.

Outro exemplo é o de inscritos previamente em debates, lançamentos e aulas abertas. Quando são abertas inscrições gratuitas, há sempre um excesso de inscritos que não comparecem. Sem inscrições as pessoas comparecem, pois tem medo de perder o evento. Mas a inscrição prévia, quando o evento é de graça, abre a possibilidade de descumprir o compromisso assumido sem nada perder. Há uma satisfação complexa nesta promessa feita para ser descumprida: é o gozo do logro.

Vantagem pela enganação

Mas que tipo de gozo é este capaz de caracterizar nossa cultura? O logro é a vantagem pela enganação. Se estamos de fato vivendo em uma sociedade do espetáculo que hipervaloriza a imagem, o gozo se realiza, por exemplo, no “aparecer”. Se digo que vou, me valorizo. Posso dizer que já ganhei alguma coisa, já tenho um lucro narcísico só de imaginar o outro me esperando. Se digo que vou e não vou, engano quem me valorizou e aí, mais que lucro, o que obtenho é logro. Enquanto o lucro é positivo, o logro é negativo.

O logro é um procedimento capitalista e religioso ao mesmo tempo: logra-se um Deus ao acender para ele uma vela pedindo-lhe muito mais do que se pode dar em troca. Logra-se um fiel que paga o dízimo prometendo-lhe o que não pode ser cumprido. Logra-se um trabalhador com seu salário. O comprador com a mercadoria. Logra-se qualquer pessoa para quem se faz uma promessa em cujo nome se consegue algo em troca.

A universalidade da promessa, em nossos dias, vem mostrar que, ao mesmo tempo, ela se tornou banal. Por isso, os casamentos em igrejas já não valem nada: prometer companheirismo até “que a morte nos separe” é expressão vazia bancada pela cultura secularizada. Ritual sem significado, ritual pelo ritual, as pessoas já não desejam que ele diga o que realmente quer dizer. Ao contrário, o cumprimento exige responsabilidade – em outras palavras, um preço a pagar. E o “preço a pagar” é o contrário do logro. Neste último, a conta ou o prejuízo fica na mão do outro.

Nossa cultura do descompromisso encontra satisfação radical na promessa descumprida. Seja no amor pregado na igreja, na rede social em que se podem apoiar abstratamente todas as revoluções, sejam os compromissos genéricos que exigem o que antigamente se valorizava como a “palavra” de alguém. Em nosso dias, este significado da “palavra” foi reduzido ao flatus vocis, ao sopro inútil de uma voz emitida pelo simples prazer de falar como quem se libera de um excesso entregando ao outro seu próprio mal estar.

Nenhum comentário: