Cultura do Logro
Marcia Tiburi
Leia mais em http://filosofiacinza.com/
Um artista conhecido viveu a seguinte situação: fez uma campanha para
angariar dinheiro destinado a ajudar uma instituição de caridade. Tendo
recebido um apoio incrível em nome da campanha de seus milhares de fãs
cadastrados em seu mailing e nas redes sociais, ele imaginou que
conseguiria arrecadar um bom valor, suficiente para o fim destinado.
A promessa era grande. Acontece que quase ninguém se moveu para, de
fato, apoiá-lo. O dinheiro conseguido foi irrisório em relação ao
esperado. E o que era esperado? Ora, algo que parecia estar sendo
prometido. Mas algo estava sendo “prometido”?
De fato, não é bem assim. A confusão entre o que se insinua e o que
se promete é questão importante. Insinuar é o gesto de sub-prometer. No
mercado amoroso, por exemplo, a insinuação se constitui como mero sinal
que pode ou não implicar realização de fato. Insinuar sempre pode
significar outra coisa. A insinuação é um tipo de pré-prática. Ela se
coloca como a antessala dos fatos, onde muitos se
acomodam tranquilamente.
No campo sexual, ela é um gozo em si mesmo. Preâmbulo da sedução, a
insinuação não implica compromisso. A sedução é mais perigosa, exige que
algo entre o poder e a impotência se verifique na prática. A insinuação
não. Ela fica aquém da sedução no prazer sinuoso daquilo que compraz
porque não compromete.
Neste contexto é que podemos falar de uma cultura do descompromisso
em vigência entre nós. Ela se alegra com a ameaça, não com o feito. É o
falar sem precisar fazer, embora saibamos que falar é, de algum modo,
sempre fazer.
Outro exemplo é o de inscritos previamente em debates, lançamentos e
aulas abertas. Quando são abertas inscrições gratuitas, há sempre um
excesso de inscritos que não comparecem. Sem inscrições as pessoas
comparecem, pois tem medo de perder o evento. Mas a inscrição prévia,
quando o evento é de graça, abre a possibilidade de descumprir o
compromisso assumido sem nada perder. Há uma satisfação complexa nesta
promessa feita para ser descumprida: é o gozo do logro.
Vantagem pela enganação
Mas que tipo de gozo é este capaz de caracterizar nossa cultura? O
logro é a vantagem pela enganação. Se estamos de fato vivendo em uma
sociedade do espetáculo que hipervaloriza a imagem, o gozo se realiza,
por exemplo, no “aparecer”. Se digo que vou, me valorizo. Posso dizer
que já ganhei alguma coisa, já tenho um lucro narcísico só de imaginar o
outro me esperando. Se digo que vou e não vou, engano quem me valorizou
e aí, mais que lucro, o que obtenho é logro. Enquanto o lucro é
positivo, o logro é negativo.
O logro é um procedimento capitalista e religioso ao mesmo tempo:
logra-se um Deus ao acender para ele uma vela pedindo-lhe muito mais do
que se pode dar em troca. Logra-se um fiel que paga o dízimo
prometendo-lhe o que não pode ser cumprido. Logra-se um trabalhador com
seu salário. O comprador com a mercadoria. Logra-se qualquer pessoa para
quem se faz uma promessa em cujo nome se consegue algo em troca.
A universalidade da promessa, em nossos dias, vem mostrar que, ao
mesmo tempo, ela se tornou banal. Por isso, os casamentos em igrejas já
não valem nada: prometer companheirismo até “que a morte nos separe” é
expressão vazia bancada pela cultura secularizada. Ritual sem
significado, ritual pelo ritual, as pessoas já não desejam que ele diga o
que realmente quer dizer. Ao contrário, o cumprimento exige
responsabilidade – em outras palavras, um preço a pagar. E o “preço a
pagar” é o contrário do logro. Neste último, a conta ou o prejuízo fica
na mão do outro.
Nossa cultura do descompromisso encontra satisfação radical na
promessa descumprida. Seja no amor pregado na igreja, na rede social em
que se podem apoiar abstratamente todas as revoluções, sejam os
compromissos genéricos que exigem o que antigamente se valorizava como a
“palavra” de alguém. Em nosso dias, este significado da “palavra” foi
reduzido ao flatus vocis, ao sopro inútil de uma voz
emitida pelo simples prazer de falar como quem se libera de um excesso
entregando ao outro seu próprio mal estar.

Nenhum comentário:
Postar um comentário