SOBRE A EDUCAÇÃO PLATONICA
by Damião Fernandes
Trago aqui, a parte introdutória do meu trabalho dissertativo
(Monografia) da conclusão de minha Pós-graduação em Filosofia da
Educação, que instituí como tema: "O Conceito de Educação na Alegoria da Caverna no Livro VII da República de Platão".
Acredito que essa sempre é uma discussão pertinente: Pensar a Educação a
partir de pensadores Clássicos do pensamento filosófico.
Torna-se pontual, portanto, destacarmos qual a compreensão deste
filósofo sobre este tema. O que para eles – os Gregos – significava a
palavra educação? Qual era a construção conceitual sobre a educação,
que era sistematicamente idealizada por aqueles povos, sobretudo os do
período da Grécia Clássica, conhecido também com o século de Péricles.
Visto que, é justamente neste período histórico que Platão elabora sua
idéia de Educação.
É importante acentuar, que os conceitos ou ideais educativos tratados
pelo homem grego, não podem resumi-los á Paidéia Grega, pois
historiador o alemão Werner Jaeger afirma que os ideais educativos da
Paidéia somente irá surgir a partir do século V, pois antes do século V
o termo Paidéia designava apenas “criação de meninos”, muito diferente
do elevado sentido que mais tarde adquiriu. Jaeger atribui importante
colaboração de Platão á essa reformulação nas bases da Paidéia Grega.
Nesta ótica, "A cultura musical e gímnica dos guardiões eram a
Paidéia da velha Grécia, filosoficamente reformada, cuja parte
espiritual assentava totalmente sobre os usos e os costumes. Platão
fundamenta-a em idéias a respeito do que é bom e justo, idéias a que ele
não se demora a provar, mas pressupõem com válidas. O seu fim é
produzir a euritmia e a harmonia da alma, e não descobri a razão em
virtude da qual é bom este tipo de ritmo e de harmonia. [...] É a meta a
sua formação especial, que dever ser, portanto, uma formação
filosófica. E ainda que posterior no tempo á formação gímnico-musical, a
segunda fase é anterior á primeira, no conceito e na natureza. É nela
que tem de assentar o edifício todo da educação" (JAEGER, 2001, p. 865).
Se quisermos encontrar um fio condutor que nos guie ao longo da
história da educação grega e lhe dê unidade, encontramo-lo no conceito
de Arete. De fato, o tema essencial da história da educação grega é o
conceito de Arete que remonta aos tempos mais antigos.
É este conceito que exprime a forma primeira, original e originária,
do ideal educativo grego. Mas se o ideal educativo grego, na sua forma
mais alta e acabada, se consubstancia no conceito de Paidéia, é inegável
que este conceito conserva bem a marca da sua origem, já que Paidéia,
na densa riqueza do seu sentido - não é possível traduzi-lo em português
numa única palavra - inclui, também, o conceito de Arete, para o qual
remete.
Não é por acaso que, nas grandes discussões sobre educação que o séc.
V a.c. conhece, os dois conceitos - Paideia e Arete - estão sempre
presentes, interpenetrando-se de modo tão profundo que vai até à quase
sinonímia. Assim, os sofistas reclamam-se professores de aretê política e
a sua Paidéia consistirá em ensinar a técnica e a política, a qual
permitirá o domínio da aretê política.
Platão estabelece como questão central e decisiva, saber o que é a
virtude (aretê). O tema de todos os diálogos platônicos é bem a prova
disso; é verdade que se questiona e se procura saber o que é a coragem, a
sabedoria, o amor, o belo, a justiça... e tantas outras virtudes! O
problema é que esses valores são, apenas exemplos de virtudes ou
atributos do homem virtuoso, mas não é a virtude.
No magnífico texto da alegoria de Platão, podemos verificar a
tentativa do pensador em deixar claro o exemplo do homem que se deixa
guiar pela virtude. O texto da Alegoria de Platão pode dividi-lo em três
partes, onde temos na cena inicial, a caracterização da imagem da
Caverna, a metáfora platônica da realidade sensível, do mundo em que
vivemos. Trata-se de uma imagem que terá grande impacto sobretudo para
os Gregos, onde o mundo dos Mortos - o Hades – era representado por meio
da figura de uma Caverna.
Platão, traz aqui a figura de prisioneiros que estão presos à
correntes e imóveis desde a infância, podendo somente verem as sombras
no fundo caverna. Segundo o filosofo, esses prisioneiros somos nós,
quando estamos vivendo condicionados a nossos hábitos, preconceitos,
costumes, ideologias ou até mesmo às teorias pedagógicas caducas que
adquirimos desde a nossa infância e que nos condiciona a contemplar a
realidade de maneira limita, parcial, incompleta e muitas vezes
distorcidas, como sombras. Essa é a imagem do homem que constrói o seu
conhecimento fundamentado nas sombras, não pensando por si próprio. O
homem para chegar ao conhecimento precisar do mundo das sombras e a
educação tem essa finalidade: fazer com que o homem faça o percurso do
seu mundo sombrio, limitado, imperfeito e o mundo das trevas para o
mundo conhecimento perfeito, cognoscível, o mundo da luz.
Do lado oposto da caverna, Platão situa uma fogueira, que representa a
luz de onde se projetam as sombras e alguns homens que carregam objetos
e são desses objetos as sombras que projetam no fundo da caverna e as
vozes desses homens prisioneiros. Maravilhosamente o filosofo vai
destacar que esses homens são representativamente os sofistas e os
políticos atenienses que manipulam as opiniões dos homens comuns e que
produzem um conhecimento ilusionista e sombrio.
Na Alegoria da caverna de Platão, ele procura expor o seu interesse
mais imediato: investigar a nossa natureza, relativamente à educação ou à
sua falta. O filósofo se mostrava inclinado em estabelecer premissas
que definem o percurso pedagógico que eleva a condição do homem da
opinião e do senso comum ao conhecimento fundado em certezas racionais.
Com efeito, a alegoria quer demonstrar um processo de descoberta do
conhecimento e de transformação do homem por meio da educação.
O próprio filósofo procurou estabelecer uma interpretação da
Alegoria, de modo que a condição do homem fosse elevada a um outro nível
de saber, nível esse possibilitado pela educação. Mas sobre esta
exposição de Platão, deixaremos para o Sobre Educação II no artigo posterior.
Referências
PLATÃO. A República. Trad. M. H. R. Pereira. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1993.
JAEGER, Werner Wilhelm. Paidéia : a formação do homem grego. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

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