Leia a íntegra do discurso em que Dilma propõe plebiscito sobre reforma política
O anúncio foi feito em reunião com prefeitos
das 26 capitais e governadores das 27 unidades federativas do país.
Leia abaixo
o discurso de Dilma:
Boa tarde a todos. Vamos dar início a essa
reunião de governadores e prefeitos... Eu queria, primeiro, desejar bom dia a
todos vocês, cumprimentar os queridos governadores e as queridas governadoras,
as caras prefeitas e caros prefeitos. Em primeiro lugar, eu quero agradecer a
presença de vocês e o atendimento imediato a meu convite para debatermos o
momento delicado em que vive o país. Mais do que um debate, estamos aqui para
procurar e evidenciar, e apontar soluções. Buscamos respostas, todas elas
republicanas e participativas aos problemas que inquietam e mobilizam o povo
brasileiro.
Nos últimos anos, o Brasil vem passando por
um inequívoco e ininterrupto processo, talvez o maior processo de mudança da
nossa história. Nós combinamos estabilidade econômica e amplas liberdades
democráticas com o crescimento econômico e geração massiva de empregos. Temos,
possivelmente, a mais baixa taxa de desemprego do mundo. Inovadoras políticas
públicas permitiram a inclusão de 40 milhões de pessoas a um intenso processo
de redução das desigualdades. O país deixou de ser governado apenas para 1/3 da
população e passou a ser governado para toda a população.
Nessas condições, o Brasil criou um amplo
mercado de consumo de massa e avançou na construção da cidadania. O povo está
agora nas ruas, dizendo que deseja que as mudanças continuem, que elas se
ampliem, que elas ocorram ainda mais rápido. Ele está nos dizendo que quer mais
cidadania, quer uma cidadania plena.
As ruas estão nos dizendo que o país quer
serviços públicos de qualidade, quer mecanismos mais eficientes de combate à
corrupção que assegurem o bom uso do dinheiro público, quer uma representação
política permeável à sociedade onde, como já disse antes, o cidadão e não o
poder econômico esteja em primeiro lugar. É muito bom que o povo esteja dizendo
tudo isso em alto e bom som.
Cabe a cada um de nós – presidenta,
ministros, governadores, governadoras, prefeitas, prefeitos –, cabe a cada um
de nós cumprir essa nova e decisiva dimensão da vontade popular. Nós todos
sabemos onde estão os problemas. Nós todos sabemos que podemos construir
soluções. Mas também sabemos das incontáveis dificuldades para resolvê-los. Eu
mesma tenho enfrentado, desde que assumi a Presidência, inúmeras barreiras, mas
a energia que vem das ruas é maior do que qualquer obstáculo. Junto com a
população podemos resolver grandes problemas. Não há por que ficarmos inertes,
acomodados ou divididos.
Por isso, companheiros, companheiras
governadoras, companheiros governadores, prefeitas e prefeitos, eu trago
propostas concretas e disposição política para construirmos pelo menos cinco
pactos em favor do Brasil.
O primeiro pacto é pela responsabilidade fiscal, para
garantir a estabilidade da economia e o controle da inflação. Esse é um pacto
perene de todos nós. Essa é uma dimensão especialmente importante no momento atual,
quando a prolongada crise econômica mundial ainda castiga, com volatilidade,
todas as nações.
O segundo pacto é em torno da construção de uma ampla e
profunda reforma política, que amplie a participação popular e amplie os
horizontes da cidadania. Esse tema, todos nós sabemos, já entrou e saiu da
pauta do país por várias vezes, e é necessário que nós, ao percebermos que, nas
últimas décadas, ele entrou e saiu várias vezes, tenhamos a iniciativa de
romper o impacto. Quero, nesse momento, propor o debate sobre a convocação de
um plebiscito popular que autorize o funcionamento de um processo constituinte
específico para fazer a reforma política que o país tanto necessita. O Brasil
está maduro para avançar e já deixou claro que não quer ficar parado onde está.
Devemos também dar prioridade ao combate à corrupção, de forma ainda mais
contundente do que já vem sendo feito em todas as esferas. Nesse sentido, uma
iniciativa fundamental é uma nova legislação que classifique a corrupção dolosa
como equivalente a crime hediondo, com penas severas, muito mais severas. Além
disso, todas as esferas administrativas, de todos os poderes da República,
devem se esforçar para agilizar a implantação plena da Lei de Acesso à
Informação, que dá ao governante mais instrumentos de combate à corrupção e
contribui para a participação da cidadania.
O terceiro passo é na questão da Saúde. Quero propor aos
senhores e às senhoras acelerar os investimentos já contratados em hospitais,
UPAs e unidades básicas de saúde. Por exemplo, ampliar também a adesão dos
hospitais filantrópicos ao programa que troca dívidas por mais atendimento e
incentivar a ida de médicos para as cidades que mais precisam e as regiões que
mais precisam. Quando não houver a disponibilidade de médicos brasileiros, contrataremos
profissionais estrangeiros para trabalhar com exclusividade no Sistema Único de
Saúde. Neste último aspecto, sei que vamos enfrentar um bom debate democrático.
De início, gostaria de dizer à classe médica brasileira que não se trata, nem
de longe, de uma medida hostil ou desrespeitosa aos nossos profissionais.
Trata-se de uma ação emergencial, localizada, tendo em vista a grande
dificuldade que estamos enfrentando para encontrar médicos, em número
suficiente ou com disposição para trabalhar nas áreas mais remotas do país ou
nas zonas mais pobres das nossas grandes cidades. Sempre ofereceremos primeiro
aos médicos brasileiros as vagas a serem preenchidas. Só depois chamaremos
médicos estrangeiros. Mas é preciso ficar claro que a saúde do cidadão deve
prevalecer sobre quaisquer outros interesses. O Brasil continua sendo um dos
países do mundo que menos emprega médicos estrangeiros. Por exemplo, 37% dos
médicos que trabalham na Inglaterra se graduaram no exterior. Nos Estados
Unidos, são 25%. Na Austrália, 22%. Aqui no Brasil, temos apenas 1,79% de
médicos estrangeiros. Enquanto isso, temos hoje regiões em nosso país em que a
população não tem atendimento médico. Isso não pode continuar. Sabemos mais que
ninguém que não vamos melhorar a saúde pública apenas com a contratação de
médicos, brasileiros e estrangeiros. Por isso, vamos tomar, juntamente com os
senhores, uma série de medidas para melhorar as condições físicas da rede de
atendimento e todo o ambiente de trabalho dos atuais e futuros profissionais.
Ao mesmo tempo, estamos tocando o maior programa da história de ampliação das
vagas em cursos de Medicina e formação de especialistas. Isso vai significar,
entre outras coisas, a criação de 11 mil e 447 novas vagas de graduação e 12
mil e 376 novas vagas de residência para estudantes brasileiros até 2017.
O quarto pacto se propõe a dar um salto de qualidade no
transporte público nas grandes cidades, mudar a matriz desse transporte. Fazer
mais metrôs, VLTs e corredores de ônibus. Avançar mais rápido em direção ao
transporte público de qualidade e acessível. O governo federal já desonerou
impostos, o que permitiu a redução das tarifas de ônibus em 7,23%, e 13,75% na
tarifa do metrô e dos trens. Além disso, mantivemos congeladas as tarifas de
metrô e trens operados pelo governo federal desde 2003. Desoneramos também o
IPI para a compra de ônibus. Estamos dispostos, agora, a ampliar a desoneração
do PIS/Cofins sobre o óleo diesel dos ônibus e a energia elétrica consumida por
metrôs e trens. Esse processo pode ser fortalecido pelos estados e os
municípios com a desoneração de seus impostos. Tenho certeza que as senhoras e
os senhores estarão sensíveis a isso. Além disso, decidi destinar mais R$ 50
bilhões para novos investimentos em obras de mobilidade urbana. Essa decisão é
reflexo do pleito por melhoria do transporte coletivo no nosso país, onde as
grandes cidades crescem e onde, no passado, houve a incorreta opção por não
investir em metrôs. Só muito recentemente, nas últimas décadas, é que o metrô
passou a ser um dos meios de transporte reconhecidos como sendo objeto da
necessidade de investimento. Tenho certeza que nos últimos anos o Brasil tem
tido um grande investimento na área de transporte coletivo urbano e temos muito
orgulho de, junto com os governadores e os prefeitos, participarmos desse
grande esforço.
O nosso pacto precisa, pois, assegurar também uma grande
participação da sociedade na discussão política do transporte, uma maior
transparência e controle social no cálculo das tarifas de ônibus. Para isso,
estou criando o Conselho Nacional de Transporte Público, com participação da
sociedade civil e dos usuários. A criação de Conselho semelhante nos municípios
e regiões metropolitanas onde ainda não existem será extremamente importante.
Concluo com o Pacto da Educação Pública. Nenhuma nação se desenvolve sem
alfabetização na idade certa e sem creches para a população que mais precisa,
sem educação em tempo integral, sem ensino técnico profissionalizante, sem
universidade de excelência, sem pesquisa, ciência e inovação. São condições
essenciais para alcançar essas metas a formação, a valorização e bons salários
para os educadores, e isso exige recursos. Avançamos muito nas últimas décadas,
para reverter o atraso secular da nossa educação, mas agora precisamos – vou
repetir – de mais recursos. Por isso mesmo o meu governo tem lutado, junto ao
Congresso Nacional, para que 100% dos royalties do petróleo e os recursos, 50%
dos recursos do pré-sal, a serem recebidos pelas prefeituras, pelo governo
federal, pelos municípios, e a parte da União, eu repito, sejam investidos na
educação. Confio que os senhores congressistas aprovarão esse projeto que
tramita no Legislativo com urgência constitucional.
Minhas amigas e meus amigos, Eu coordenei e,
nos últimos tempos, dei uma grande ênfase a essa questão da educação. Acredito
que todos nós sabemos que isso transforma, esse esforço na educação, transforma
um país em nação desenvolvida. Não houve nenhum país do mundo que não tivesse
esse esforço concentrado na educação e que tivesse chegado à condição de país
desenvolvido.
Por isso também gostaria de dizer aqui que,
ao longo desse processo, essa tem sido uma questão que eu recebi muita simpatia
de governadores e de prefeitos. Acredito que esse é um esforço que nós devemos
fazer para que haja uma mudança significativa no curto, no médio e no longo
prazos no nosso país. Senhores governadoras, governadores, prefeitos e
prefeitas, Eu condenei e alertei, em rede nacional, na semana passada, que meu
governo não vai transigir na manutenção da lei e da ordem, coibindo a ação de
vândalos arruaceiros que tentam perturbar o caráter pacífico das manifestações.
Eu repito essa disposição perante os senhores
e as senhoras e reafirmo meu compromisso de ajudá-los no que for necessário
para garantirmos paz e tranquilidade às nossas cidades. Mas quero repetir
principalmente que meu governo está ouvindo a voz democrática, as vozes
democráticas que saem e emergem das ruas e que pedem mudanças. É preciso saber
escutar a voz das ruas. Só ela é capaz de nos impulsionar a andar ainda mais
rápido. É preciso que todos, todos mesmo, sem exceção, entendam esses sinais
com humildade e acerto. Isso vale não apenas para nós, líderes de governos, mas
igualmente para os brasileiros e brasileiras que estão em suas casas e também
para aqueles que foram às ruas. Se aproveitarmos bem o impulso dessa nova
energia política, poderemos fazer mais rápido muita coisa. Cabe a nós saber
retirar desse momento mais força para fazermos mais pelo Brasil e muito mais pelos
brasileiros.
Antes de agradecê-los, a vocês a atenção e o
fato de terem comparecido aqui, de forma tão deliberadamente empenhada na
resolução dos problemas do nosso país, eu gostaria de pedir que dois ministros
do meu governo fizessem rápidos esclarecimentos, sobre a questão da saúde,
sobre a questão do transporte urbano coletivo. Desse pacto pela saúde e desse
pacto pela questão da mobilidade urbana e pelo transporte coletivo de massa. E
sugeriria, logo em seguida, que nós começássemos a nossa reunião e o nosso
debate dando a palavra, por um tempo determinado, aos senhores governadores e
prefeitos.
Nós somos no mínimo 54 para falar, 27
governadores e 27 prefeitos. Aliás, 26 prefeitos, porque Brasília não tem
prefeito. Então são 53. E aí nós vamos ter que pensar em um tempo para que
todos falem ou que pelo menos que tenha uma representação por região e pelos
partidos que compõem aqui o grupo.

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