O Ato de reivindicar| É PRÓPRIO DA JUVENTUDE
Filósofos, analistas, jornalistas,
professores, peritos, bloqueiros, autoridades civís e religiosas, até a
pessoa mais simples... todos, ou melhor, a grandíssima maioria dos
brasileiros trazem em seus lábios, nesses momentos, as ondas de
protestos que continuam invadindo o país.
Algo que começou de forma aparentemente simples, agora, vai tomando
proporções incertas, e chegando até mesmo à cidades e povoados
recôndidos da nossa nação.
Numa cidadezinha do interior do Sertão pernambucano, Tabira, há 300
km de Recife, interior de PE - conforme relatou hoje a ZENIT um morador
da cidade, cuja identidade prefere não revelar - os habitantes (quase
todos os moradores?) saíram às ruas para protestar no último fim de
semana. "Admirável e exemplar a forma pacífica da manifestação, de
repente por ser cidade do interior, onde é difícil manter segredo por
mais de 24hs", disse o morador.
Portanto, nessa tentativa comum e lícita de compreender o que
acontece com o Brasil, o ZENIT conversou com o sacerdote Pe. Hélio
Luciano.
ZENIT: Qual é a sua impressão sobre os últimos acontecimentos no Brasil?
Pe. Hélio Luciano: Diante de uma realidade nova sempre existe certa
insegurança em dizer o que está acontecendo e o que pode vir a
acontecer. Não podemos negar que existe uma insatisfação geral, mas não
consigo identificar se esta insatisfação tem algum objeto concreto. Não
que não existam problemas reais – corrupção, miséria, populismo,
violência, falta de saúde pública, copa do mundo, etc. – os problemas
existem. Mas me refiro à concreta identificação dos mesmos e a propostas
de soluções.
Em entrevista, o líder do movimento “Passe Livre” afirma que a única
reivindicação em comum era a redução da tarifa do ônibus em São Paulo.
No entanto, se existia um consenso em relação aos 20 centavos da tarifa
de ônibus, não se pode entender o que reivindicavam os
“#nãosãosó20centavos”.
Basta observar superficialmente as manifestações para encontrar
cartazes contraditórios e, inclusive, alguns cartazes com pedidos
“politicamente incorretos” dentro da sociedade atual (confesso que
alguns me agradaram muito – ou “curti”, como talvez se deva dizer
atualmente).
É próprio da juventude o ato de reivindicar – mas se faz necessário
reivindicar algo. A simples crítica a tudo é o mesmo que nada criticar –
não traz resultados. Podemos citar os movimentos similares que
ocorreram nos últimos anos na Espanha, em Paris, em Nova York – todos
movidos através das redes sociais (e por isso deixaram os governos
atônitos, pois não conheciam a força destas redes), mas que não levaram a
nada. Podemos ver também a chamada “primavera árabe”- que ainda não
descobri se é verdadeira primavera – que ainda tendo derrubado regimes
tirânicos, fora utilizado politicamente para colocar no lugar dos mesmos
regimes ditatoriais e teocêntricos.
Também existe no Brasil uma nostalgia de revolução – crescemos com
nossos pais falando da luta contra a ditadura, das “Diretas Já”, e
alguns até vimos, ainda pequenos, os “Cara Pintada”. Até que ponto foram
essas revoluções que mudaram o País? A Ditadura caiu por conta da
pressão popular ou porque, afastado o risco de nos tornarmos comunistas,
já não havia mais interesse internacional em que a mesma se mantivesse?
As eleições diretas não foram consequência do fim da Ditadura? Os “Cara
Pintada” não foram apenas marionetes nas mãos de quem queria destituir
um Presidente corrupto (e qual deles até hoje não foi?). Além disso, os
políticos de hoje, a quem criticamos com tanta avidez – não são
exatamente aqueles que participaram de todos estes movimentos?
Simplesmente entraram e se adaptaram perfeitamente ao sistema.
Não sei qual o nome que se dará a este movimento atual. Mas,
independentemente do nome, se não se articularem, se não estudarem e
encontrarem suas reais reivindicações, temo que venha a ser um pouco
“mais do mesmo”. Serão nossos pseudo-heróis – feitos heróis pelo mesmo
sistema midiático que mantém a corrupção no Brasil – serão nossos
futuros políticos, com um grande risco de voltar a acontecer o mesmo, ou
seja, também entrarem e também se adaptarem perfeitamente ao atual
sistema que criticam.
Fonte: Zenit.org
(24 de Junho de 2013) © Innovative Media Inc.

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