Os crentes não pensam, só os ateus têm liberdade de pensamento. SERÁ?
1.
A expressão “penso, logo sou ateu” parece aos ateus ser uma
inquestionável evidência. Durante dois mil anos nenhum crente, nenhum
cristão usou da sua razão para pensar livre e inteligentemente. Também
na actualidade não há um crente, um cristão sequer, que ouse pensar com
liberdade e inteligência. Será este um facto tão evidente que não seja
necessário demonstrá-lo? Há cientistas, políticos, economistas,
filósofos, artistas cristãos que têm iluminado a história humana ao
longo dos séculos? Não, afirmam os ateus. O facto de serem cristãos,
crentes num Deus cuja existência não sabem provar acima de toda a
dúvida, envenena toda a sua atividade, o seu pensamento, a sua produção
científica, literária, artística.
2. Recentemente, o cientista cristão mais duramente criticado tem sido Francis Collins, que liderou a equipa que trabalhou no projeto do genoma humano. Os ateus diminuem a inteligência de Collins afirmando que ele foi “apenas” o coordenador da equipa. Até mesmo Richard Dawkins não resistiu a fazer esta afirmação. Num comentário que deixei num blog, ironizei perguntando se a tarefa de Collins enquanto coordenador da equipa de investigadores terá consistido em providenciar para que esta equipa tivesse sandes de queijo e coca cola ou cerveja sempre que necessário, cuidar da temperatura e da limpeza dos laboratórios, ocupar-se da correspondência, atender o telefone… Se Collins é cristão, ele não pode ser inteligente. Se fosse ateu, seria considerado um gênio. Sinceramente, não consigo entender como é possível considerar inteligente uma argumentação destas. O meu problema talvez seja mesmo este: dado que sou crente, não posso de modo algum ser inteligente.
3. Sempre me impressionou o facto de os não crentes aplaudirem repetidamente e com uma, para mim, incondicional veneração, aqueles que consideram serem os grandes pensadores da atualidade, entre os quais se destacam Daniel Dennett, Richard Dawkins, Sam Harris e Christopher Hitchens. A infalibilidade que retiram ao Papa concedem-na a estes autores que cada vez mais me aparecem como sumos sacerdotes de um culto da razão em cujo templo os crentes não têm entrada. As suas obras são objeto de um entusiasmo e de uma ‘rendição’ que faz lembrar a atitude de alguns crentes. E no entanto, se lermos com atenção essas obras não podemos deixar de notar que se resumem a alguns poucos argumentos, repetitivos, apresentados num estilo argumentativo falacioso que vai ao passado das religiões escolher os episódios mais negativos, ignorando o patrimônio das religiões no seu conjunto.
4. Já noutras ocasiões tenho afirmado que com este estilo de argumentação se poderá fundamentar qualquer tese, como a que vem expressa no título da obra mais conhecida de Hitchens: “Como a religião envenena tudo”. Os títulos dos dois últimos capítulos da obra são significativos: “18. Uma tradição melhor: a resistência do racional” e “19. Em conclusão: a necessidade de um novo iluminismo”. Hitchens, tal como Harris e muitos outros, é, porém, um dos melhores exemplos de como se pode envenenar toda a investigação séria. Se eu quisesse provar uma tese semelhante como, por exemplo, “Como a democracia envenena tudo”, não me faltariam exemplos, do passado como do presente, de personagens e regimes políticos que, em nome da liberdade, da democracia e do bem do povo, cometeram as maiores atrocidades. Silenciando tudo o que de positivo a democracia tem permitido quanto à libertação e ao progresso dos povos, eu iria atrair os aplausos de muitas pessoas que estão convencidas de que a liberdade permitida pela democracia é a raiz de todos os males das sociedades atuais – “envenena tudo”. Mas uma tal argumentação não me parece nem racional nem inteligente.
2. Recentemente, o cientista cristão mais duramente criticado tem sido Francis Collins, que liderou a equipa que trabalhou no projeto do genoma humano. Os ateus diminuem a inteligência de Collins afirmando que ele foi “apenas” o coordenador da equipa. Até mesmo Richard Dawkins não resistiu a fazer esta afirmação. Num comentário que deixei num blog, ironizei perguntando se a tarefa de Collins enquanto coordenador da equipa de investigadores terá consistido em providenciar para que esta equipa tivesse sandes de queijo e coca cola ou cerveja sempre que necessário, cuidar da temperatura e da limpeza dos laboratórios, ocupar-se da correspondência, atender o telefone… Se Collins é cristão, ele não pode ser inteligente. Se fosse ateu, seria considerado um gênio. Sinceramente, não consigo entender como é possível considerar inteligente uma argumentação destas. O meu problema talvez seja mesmo este: dado que sou crente, não posso de modo algum ser inteligente.
3. Sempre me impressionou o facto de os não crentes aplaudirem repetidamente e com uma, para mim, incondicional veneração, aqueles que consideram serem os grandes pensadores da atualidade, entre os quais se destacam Daniel Dennett, Richard Dawkins, Sam Harris e Christopher Hitchens. A infalibilidade que retiram ao Papa concedem-na a estes autores que cada vez mais me aparecem como sumos sacerdotes de um culto da razão em cujo templo os crentes não têm entrada. As suas obras são objeto de um entusiasmo e de uma ‘rendição’ que faz lembrar a atitude de alguns crentes. E no entanto, se lermos com atenção essas obras não podemos deixar de notar que se resumem a alguns poucos argumentos, repetitivos, apresentados num estilo argumentativo falacioso que vai ao passado das religiões escolher os episódios mais negativos, ignorando o patrimônio das religiões no seu conjunto.
4. Já noutras ocasiões tenho afirmado que com este estilo de argumentação se poderá fundamentar qualquer tese, como a que vem expressa no título da obra mais conhecida de Hitchens: “Como a religião envenena tudo”. Os títulos dos dois últimos capítulos da obra são significativos: “18. Uma tradição melhor: a resistência do racional” e “19. Em conclusão: a necessidade de um novo iluminismo”. Hitchens, tal como Harris e muitos outros, é, porém, um dos melhores exemplos de como se pode envenenar toda a investigação séria. Se eu quisesse provar uma tese semelhante como, por exemplo, “Como a democracia envenena tudo”, não me faltariam exemplos, do passado como do presente, de personagens e regimes políticos que, em nome da liberdade, da democracia e do bem do povo, cometeram as maiores atrocidades. Silenciando tudo o que de positivo a democracia tem permitido quanto à libertação e ao progresso dos povos, eu iria atrair os aplausos de muitas pessoas que estão convencidas de que a liberdade permitida pela democracia é a raiz de todos os males das sociedades atuais – “envenena tudo”. Mas uma tal argumentação não me parece nem racional nem inteligente.
5.
Anuncia-se a vinda a Portugal de Hitchens, saudada com o mesmo
entusiasmo com que em tempos passados se saudava a União Soviética como
sendo o sol da Humanidade. Pessoalmente, nada tenho contra Hitchens. O
seu tão celebrado livro parece-me tão pobre do ponto de vista
argumentativo que não consigo entender o entusiasmo que esta presença de
Hitchens em Portugal está a gerar em meios ateus. Mas se sou crente,
não sou inteligente, logo é natural que não entenda nem Hitchens nem o
entusiasmo que está a gerar.
6.
Este equívoco ignora completamente o facto de na história do
cristianismo se verificar uma constante discussão sobre os conteúdos da
fé. Os temas vão mudando, mas o debate nunca está encerrado. Nos
primeiros séculos do cristianismo a natureza divina de Jesus e a fixação
do texto bíblico eram apenas alguns dos temas mais debatidos. Nas
universidades da Igreja Católica os debates sucediam-se, como se pode
ver das extensas listas de questões controversas publicadas, por
exemplo, no século XVI. Hoje, continuam a escrever-se textos sobre temas
como o pecado original, o dualismo corpo alma, etc. Afirmar que não há
pensamento crítico entre os crentes, incluindo os cristãos, constitui um
notável desconhecimento da realidade.
7. Por muito que desagrade aos ateus, o facto mais evidente é este: nem os crentes nem os ateus têm o monopólio da inteligência e do pensamento racional. O que não pode ser aceite pelos não crentes, porque isso deixaria sem resposta uma questão incomoda:
Por que razão uma pessoa inteligente deveria acreditar em Deus?
7. Por muito que desagrade aos ateus, o facto mais evidente é este: nem os crentes nem os ateus têm o monopólio da inteligência e do pensamento racional. O que não pode ser aceite pelos não crentes, porque isso deixaria sem resposta uma questão incomoda:
Por que razão uma pessoa inteligente deveria acreditar em Deus?

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