Os eventos da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) que aconteceriam no
Campus Fidei, em Guaratiba, na Zona Oeste do Rio, foram transferidos
para Copacabana, na Zona Sul. A informação foi confirmada na tarde desta
quinta-feira pelo Exército quando um treinamento militar, que
mobilizava 1,5 mil homens e pelo menos um helicóptero, era realizado no
local. Pessoas que circularam pelo Campus Fidei disseram que a grande
quantidade de barro inviabilizou a montagem de equipamentos. Relatos
apontam ainda que há grades tombando e existe a preocupação com a queda
de estruturas.
A transferência dos equipamentos de saúde e
banheiros químicos que já tinham sido instalados em Guaratiba começa a
ser feita nesta quinta-feira, dia 25. Já antevendo a possibilidade de
transferência dos eventos o aluguel da estrutura do palco fora estendido
até domingo.
Durante uma coletiva de imprensa realizada na tarde
desta quinta-feira (25/7), o prefeito Eduardo Paes manifestou o apoio à
decisão dos organizadores: Guaratiba colocaria a segurança de
peregrinos em risco, devido aos alagamentos — afirmou, acrescentando que
os jovens podem dormir na areia aguardando o evento. — Vai todo mundo
poder dormir na praia de Copacabana. Mas as barracas estão vetadas.
O prefeito pediu a compreensão dos moradores de Copacabana que terão
quatro dias seguidos de evento, ressaltando que Guaratiba não foi uma
escolha errônea e que a mudança já estava prevista como plano B caso
chovesse muito — entretanto, lembrou Paes, nesta época do ano não
costuma chover tanto.
Paes garantiu que não foi gasto dinheiro
público na preparação do terreno. Mas a prefeitura viabilizou a drenagem
do rio e também investiu em infraestrutura por meio da Comlurb e da
Guarda Municipal.
Já o ministro da Justiça, Luiz Eduardo Cardozo,
disse, na mesma coletiva, que havia muitos argumentos a favor da
transferência do evento: Havia muitos argumentos técnicos para a mudança. O governo federal continua apoiando o evento.Os organizadores da JMJ convocaram uma coletiva de imprensa para 20h30m para dar os detalhes da mudança.
Moradores e trabalhadores de Guaratiba lamentam mudança
A
notícia surpreendeu as centenas de trabalhadores que se preparavam para
o evento. Num primeiro momento, as informações chegavam em forma de
boato. A decisão só foi oficialmente anunciada após uma reunião entre os
organizadoras. Muitas pessoas custaram a acreditar. Várias choraram por
causa da frustração de ter que interromper os trabalhos. Outras
lamentaram o prejuízo que a mudança na programação irá causar.
Carregando
uma cadeira e um capacete, uma mulher que se identificou como Nancir
deixou às lágrimas a área próxima ao palco montado para receber o Papa.
Ela é uma das prefeitas do Campus Fidei e tinha a função de controlar a
entrada e saída de pessoas.
— É muito fristrante. Uma decepção
muito grande. Agora isso não vai servir para mais nada. É um vazio muito
grande. E amanhã começa a parte mais triste: a desmontagem — disse ela,
que trabalha no Campus Fidei desde o dia 1º de julho.
Marlon
Ribeiro trabalharia em uma das lanchonetes montadas em Guaratiba, de
quinta a domingo. Ele sequer conseguiu entrar no terreno.
— É
constrangedor. Estava contando com o dinheiro, querendo participar da
Jornada. Já perdi um dia de trabalho, enfrentei o frio, e tudo isso sem
nenhuma estrutura.
Outros trabalhadores já estão se deslocando para Copacabana. É o caso de Érico de Oliveira.
— Ainda estou surpreso com a notícia, mas agora é ir para Copacabana — disse.
Moradores
de Guaratiba também se sentem tristes com o cancelamento do evento no
bairro. De acordo com Paulo Teixeira, foram mais de quatro meses de
trabalho diário e transtorno para quem vive próximo ao Campus Fidei.
Além disso, vários de seus vizinhos se prepararam para vender bebidas ou
alugaram suas casas para os visitantes. Agora, vão ficar no prejuízo.
—
Investi R$ 1,5 mil comprando bebidas. Muitos vizinhos meus alugaram
suas casas para receber peregrinos. Agora, quem vai cobrir esse
prejuízo? — reclamou. — É uma vergonha ver essa enorme quantidade de
dinheiro investido para nada e agora jogado fora. Flávio Menezes mora bem ao lado do Campus Fidei. Sua casa chegou a apresentar rachaduras por causa do movimento das máquinas.
—
O lugar escolhido para a montagem do palco, para receber os peregrinos,
era uma mata cheia de árvores e bichos como capivaras. Tudo foi
colocado abaixo. Ainda por cima, caminhões aterraram o local, que virou
um grande lamaçal. É um absurdo.O clima no bairro é de apreensão, frustração e revolta. Álvaro Vieira disse que se sentiu ofendido com a mudança.
—
Espaço tem. As pessoas que não souberam planejar direito para trazer a
Jornada — desabafou o morador, que considerava os eventos extremamente
importantes para Guaratiba.
A ideia foi discutida em uma reunião
na tarde desta quinta-feira entre a organização da Jornada Mundial da
Juventude (JMJ), o governo do estado, a prefeitura do Rio e os
responsáveis pela parte artísticas do evento.
No Campus Fidei, seriam
realizadas a vigília e missa de encerramento no fim de semana. Mais
cedo, segundo a coluna de Ancelmo Gois, integrantes do comitê
organizador da JMJ haviam dito que a realização da celebração em
Guaratiba era impraticável.
O prefeito Eduardo Paes, logo após
receber o Papa Francisco no Palácio da Cidade, havia dito que não tinha
recebido qualquer posição da organização do evento. Mas afirmava que a
única área alternativa a Guaratiba seria mesmo a Praia de Copacabana.
Porém, reiteirou que essa seria uma decisão que caberia ao comitê da
Jornada.
— Para juntar 1,5 milhão de pessoas só se for na areia da
praia. Em Copacabana, nós temos organizado grandes eventos. Guaratiba é
um local de terra. Está chovendo muito. Não tem jeito, vai ter uma
situação de lama — disse o prefeito.
Ele contou ainda que, em tom de brincadeira, o Papa o aconselhou a fazer uma simpatia para o tempo melhorar: pegar 12 ovos às Irmãs Clarissas.
—
O pedido para Santa Clara já é forte. Imagina algo vindo a pedido do
Papa — disse Paes, lembrando também que o espírito da JMJ é de
peregrinação e sacrifícios, como longas caminhadas.
O Campus
Fidei, que é castigado pela chuva desde a noite de segunda-feira, está
repleto de poças d'água e com muita lama. Apesar disso, Duda Magalhães,
diretor da empresa Dream Factory, responsável pela produção e montagem
do espaço, disse nesta quarta-feira que os peregrinos já estão cientes
de que o evento "não é uma visita a um shopping", ao se referir às áreas
alagadas e ao vento frio.


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