Íntegra do Discurso do Papa aos Bispos da América Latina
O Papa Francisco se reuniu na tarde deste domingo com o comitê de coordenação do Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam).
Durante o evento, que aconteceu no auditório do Centro de Estudos de
Sumaré, o Pontífice falou sobre a importância dos missionários no
continente, e disse que o trabalho das pastorais na América Latina ainda
está muito atrasado.
- Peço que não se ofendam, mas creio que estamos muito atrasados -
disse o Santo Padre, que questionou se os fiéis e os agentes das
pastorais se sentem parte da Igreja. A informação é publicada pelo portal do jornal O Globo, 28-07-2013.
Em espanhol, o Papa pediu ainda mais proximidade e encontros entre as
pastorais da América Latina e do Caribe. Ele disse ainda que quando a
Igreja se coloca como 'centro', acaba virando uma Organização Não
Governamental (ONG):
- Gosto de dizer que a posição de um discípulo missionário não é de centro, mas de periferia.
O Papa disse ainda que os missionários são o caminho que Deus quer
para hoje, que é mais importante do que o futuro. O Pontífice falou
ainda sobre as tentações enfrentadas pelos missionários, entre elas as
ideologias na América Latina e no Caribe, e mencionou ideologizações
sociais e psicológicas e grupos agnósticos que propõem "uma
espiritualidade superior":
- Não se trata de sair à caça de demônios, mas de lucidez e sagacidade evangélica. No encerramento de seu pronunciamento, o papa Francisco
volta a dizer que a Igreja está atrasada na América Latina e no Caribe e
pede a ajuda dos religiosos presentes ao encontro para mudar esse
quadro.
Eis a íntegra do discurso.
1. Introdução
Agradeço ao Senhor por esta oportunidade de poder falar com vocês, Irmãos Bispos responsáveis do Celam
no quadriênio 2011-2015. Há 57 anos que o Celam serve as 22
Conferências Episcopais da América Latina e do Caribe, colaborando
solidária e subsidiariamente para promover, incentivar e dinamizar a
colegialidade episcopal e a comunhão entre as Igrejas da Região e seus
Pastores.
Como vocês, também eu sou testemunha do forte impulso do Espírito na V Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe,
em Aparecida no mês de maio de 2007, que continua animando os trabalhos
do Celam para a anelada renovação das Igrejas particulares. Em boa
parte delas, essa renovação já está em andamento. Gostaria de centrar
esta conversação no patrimônio herdado daquele encontro fraterno e que
todos batizamos como Missão Continental.
2. Características peculiares de Aparecida
Existem quatro características típicas da referida V Conferência.
Constituem como que quatro colunas do desenvolvimento de Aparecida que
lhe dão a sua originalidade.
1) Início sem documento
Medellín, Puebla e Santo Domingo
começaram os seus trabalhos com um caminho preparatório que culminou em
uma espécie de Instrumentum laboris, com base no qual se desenrolou a
discussão, a reflexão e a aprovação do documento final. Em vez disso, Aparecida
promoveu a participação das Igrejas particulares como caminho de
preparação que culminou em um documento de síntese. Este documento,
embora tenha sido ponto de referência durante a V Conferência Geral, não
foi assumido como documento de partida. O trabalho inicial foi pôr em
comum as preocupações dos Pastores perante a mudança de época e a
necessidade de recuperar a vida de discípulo e missionário com que
Cristo fundou a Igreja.
2) Ambiente de oração com o Povo de Deus
É importante lembrar o ambiente de oração gerado pela partilha diária
da Eucaristia e de outros momentos litúrgicos, tendo sido sempre
acompanhados pelo Povo de Deus. Além disso, realizando-se os trabalhos
na cripta do Santuário, a "música de fundo" que os acompanhava era
constituída pelos cânticos e as orações dos fiéis.
3) Documento que se prolonga em compromisso, com a
Missão Continental Neste contexto de oração e vivência de fé, surgiu o
desejo de um novo Pentecostes para a Igreja e o compromisso da Missão
Continental. Aparecida não termina com um documento, mas prolonga-se na
Missão Continental.
4) A presença de Nossa Senhora, Mãe da América
É a primeira Conferência do Episcopado da América Latina e do Caribe que se realiza em um Santuário mariano.
3. Dimensões da Missão Continental
A Missão Continental está projetada em duas
dimensões: programática e paradigmática. A missão programática, como o
próprio nome indica, consiste na realização de atos de índole
missionária. A missão paradigmática, por sua vez, implica colocar em
chave missionária a atividade habitual das Igrejas particulares. Em
consequência disso, evidentemente, verifica-se toda uma dinâmica de
reforma das estruturas eclesiais. A "mudança de estruturas" (de caducas a
novas) não é fruto de um estudo de organização do organograma funcional
eclesiástico, de que resultaria uma reorganização estática, mas é
consequência da dinâmica da missão. O que derruba as estruturas caducas,
o que leva a mudar os corações dos cristãos é justamente a
missionariedade. Daqui a importância da missão paradigmática.
A Missão Continental, tanto programática como
paradigmática, exige gerar a consciência de uma Igreja que se organiza
para servir a todos os batizados e homens de boa vontade. O discípulo de
Cristo não é uma pessoa isolada em uma espiritualidade intimista, mas
uma pessoa em comunidade para se dar aos outros. Portanto, a Missão
Continental implica pertença eclesial.
Uma posição como esta, que começa pelo discipulado missionário e
implica entender a identidade do cristão como pertença eclesial, pede
que explicitemos quais são os desafios vigentes da missionariedade
discipular. Me limito a assinalar dois: a renovação interna da Igreja e o
diálogo com o mundo atual.
Renovação interna da Igreja
Aparecida propôs como necessária a Conversão Pastoral. Esta conversão
implica acreditar na Boa Nova, acreditar em Jesus Cristo portador do
Reino de Deus, em sua irrupção no mundo, em sua presença vitoriosa sobre
o mal; acreditar na assistência e guia do Espírito Santo; acreditar na
Igreja, Corpo de Cristo e prolongamento do dinamismo da Encarnação.
Neste sentido, é necessário que nos interroguemos, como Pastores,
sobre o andamento das Igrejas a que presidimos. Estas perguntas servem
de guia para examinar o estado das dioceses quanto à adoção do espírito
de Aparecida, e são perguntas que é conveniente pôr-nos, muitas vezes,
como exame de consciência.
1. Procuramos que o nosso trabalho e o de nossos
presbíteros seja mais pastoral que administrativo? Quem é o principal
beneficiário do trabalho eclesial, a Igreja como organização ou o Povo
de Deus na sua totalidade?
2. Superamos a tentação de tratar de forma reativa
os problemas complexos que surgem? Criamos um hábito proativo?
Promovemos espaços e ocasiões para manifestar a misericórdia de Deus?
Estamos conscientes da responsabilidade de repensar as atitudes
pastorais e o funcionamento das estruturas eclesiais, buscando o bem dos
fiéis e da sociedade?
3. Na prática, fazemos os fiéis leigos participantes
da Missão? Oferecemos a Palavra de Deus e os Sacramentos com
consciência e convicção claras de que o Espírito se manifesta neles?
4. Temos como critério habitual o discernimento
pastoral, servindo-nos dos Conselhos Diocesanos? Tanto estes como os
Conselhos paroquiais de Pastoral e de Assuntos Econômicos são espaços
reais para a participação laical na consulta, organização e planejamento
pastoral? O bom funcionamento dos Conselhos é determinante. Acho que
estamos muito atrasados nisso.
5. Nós, Pastores Bispos e Presbíteros, temos
consciência e convicção da missão dos fiéis e lhes damos a liberdade
para irem discernindo, de acordo com o seu processo de discípulos, a
missão que o Senhor lhes confia? Apoiamo-los e acompanhamos, superando
qualquer tentação de manipulação ou indevida submissão? Estamos sempre
abertos para nos deixarmos interpelar pela busca do bem da Igreja e da
sua Missão no mundo?
6. Os agentes de pastoral e os fiéis em geral
sentem-se parte da Igreja, identificam-se com ela e aproximam-na dos
batizados indiferentes e afastados? Como se pode ver, aqui estão em jogo
atitudes. A Conversão Pastoral diz respeito, principalmente, às
atitudes e a uma reforma de vida. Uma mudança de atitudes é
necessariamente dinâmica: "entra em processo" e só é possível moderá-lo
acompanhando-o e discernindo-o. É importante ter sempre presente que a
bússola, para não se perder nesse caminho, é a identidade católica
concebida como pertença eclesial.
Diálogo com o mundo atual
Faz-nos bem lembrar estas palavras do Concílio Vaticano II:
As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens do
nosso tempo, sobretudo dos pobres e atribulados, são também alegrias e
esperanças, tristezas e angústias dos discípulos de Cristo (cf. GS, 1).
Aqui reside o fundamento do diálogo com o mundo atual. A resposta às
questões existenciais do homem de hoje, especialmente das novas
gerações, atendendo à sua linguagem, entranha uma mudança fecunda que
devemos realizar com a ajuda do Evangelho, do Magistério e da Doutrina Social da Igreja.
Os cenários e areópagos são os mais variados.
Por exemplo, em uma mesma
cidade, existem vários imaginários coletivos que configuram "diferentes
cidades". Se continuarmos apenas com os parâmetros da "cultura de
sempre", fundamentalmente uma cultura de base rural, o resultado acabará
anulando a força do Espírito Santo. Deus está em toda a parte: há que
saber descobri-lo para poder anunciá-lo no idioma dessa cultura; e cada
realidade, cada idioma tem um ritmo diferente.
4. Algumas tentações contra o discipulado missionário
A opção pela missionariedade do discípulo sofrerá tentações. É
importante saber por onde entra o espírito mau, para nos ajudar no
discernimento. Não se trata de sair à caça de demônios, mas simplesmente
de lucidez e prudência evangélicas. Limito-me a mencionar algumas
atitudes que configuram uma Igreja "tentada". Trata-se de conhecer
determinadas propostas atuais que podem mimetizar-se em a dinâmica do
discipulado missionário e deter, até fazê-lo fracassar, o processo de
Conversão Pastoral.
1. A ideologização da mensagem evangélica.
É uma tentação que se verificou na Igreja desde o início: procurar uma
hermenêutica de interpretação evangélica fora da própria mensagem do
Evangelho e fora da Igreja. Um exemplo: a dado momento, Aparecida sofreu
essa tentação sob a forma de assepsia. Foi usado, e está bem, o método
de "ver, julgar, agir" (cf. n.º 19). A tentação se encontraria em optar
por um "ver" totalmente asséptico, um "ver" neutro, o que não é viável. O
ver está sempre condicionado pelo olhar. Não há uma hermenêutica
asséptica. Então a pergunta era: Com que olhar vamos ver a realidade?
Aparecida respondeu: Com o olhar de discípulo. Assim se entendem os
números 20 a 32. Existem outras maneiras de ideologização da mensagem e,
atualmente, aparecem na América Latina e no Caribe propostas desta
índole.
Menciono apenas algumas:
a) O reducionismo socializante. É a ideologização
mais fácil de descobrir. Em alguns momentos, foi muito forte. Trata-se
de uma pretensão interpretativa com base em uma hermenêutica de acordo
com as ciências sociais. Engloba os campos mais variados, desde o
liberalismo de mercado até à categorização marxista.
b) A ideologização psicológica. Trata-se de uma
hermenêutica elitista que, em última análise, reduz o "encontro com
Jesus Cristo" e seu sucessivo desenvolvimento a uma dinâmica de
autoconhecimento. Costuma verificar-se principalmente em cursos de
espiritualidade, retiros espirituais, etc. Acaba por resultar numa
posição imanente autorreferencial. Não tem sabor de transcendência, nem
portanto de missionariedade.
c) A proposta gnóstica. Muito ligada à tentação
anterior. Costuma ocorrer em grupos de elites com uma proposta de
espiritualidade superior, bastante desencarnada, que acaba por
desembocar em posições pastorais de "quaestiones disputatae". Foi o
primeiro desvio da comunidade primitiva e reaparece, ao longo da
história da Igreja, em edições corrigidas e renovadas. Vulgarmente são
denominados "católicos iluminados" (por serem atualmente herdeiros do
Iluminismo).
d) A proposta pelagiana. Aparece fundamentalmente
sob a forma de restauracionismo. Perante os males da Igreja, busca-se
uma solução apenas na disciplina, na restauração de condutas e formas
superadas que, mesmo culturalmente, não possuem capacidade
significativa. Na América Latina, costuma verificar-se em pequenos
grupos, em algumas novas Congregações Religiosas, em tendências para a
"segurança" doutrinal ou disciplinar. Fundamentalmente é estática,
embora possa prometer uma dinâmica para dentro: regride. Procura
"recuperar" o passado perdido.
2. O funcionalismo. A sua ação na
Igreja é paralisante. Mais do que com a rota, se entusiasma com o
"roteiro". A concepção funcionalista não tolera o mistério, aposta na
eficácia. Reduz a realidade da Igreja à estrutura de uma ONG. O que vale
é o resultado palpável e as estatísticas. A partir disso, chega-se a
todas as modalidades empresariais de Igreja. Constitui uma espécie de
"teologia da prosperidade" no organograma da pastoral.
3. O clericalismo é também uma tentação muito atual
na América Latina. Curiosamente, na maioria dos casos, trata-se de uma
cumplicidade viciosa: o sacerdote clericaliza e o leigo lhe pede por
favor que o clericalize, porque, no fundo, lhe resulta mais cômodo. O
fenômeno do clericalismo explica, em grande parte, a falta de maturidade
adulta e de liberdade cristã em boa parte do laicato da América Latina:
ou não cresce (a maioria), ou se abriga sob coberturas de
ideologizações como as indicadas, ou ainda em pertenças parciais e
limitadas.
Em nossas terras, existe uma forma de liberdade laical através de
experiências de povo: o católico como povo. Aqui vê-se uma maior
autonomia, geralmente sadia, que se expressa fundamentalmente na piedade
popular. O capítulo de Aparecida sobre a piedade popular descreve, em
profundidade, essa dimensão. A proposta dos grupos bíblicos, das
comunidades eclesiais de base e dos Conselhos pastorais está na linha de
superação do clericalismo e de um crescimento da responsabilidade
laical. Poderíamos continuar descrevendo outras tentações contra o
discipulado missionário, mas acho que estas são as mais importantes e
com maior força neste momento da América Latina e do Caribe.
5. Algumas orientações eclesiológicas
1. O discipulado-missionário que Aparecida propôs às
Igrejas da América Latina e do Caribe é o caminho que Deus quer para
"hoje". Toda a projeção utópica (para o futuro) ou restauracionista
(para o passado) não é do espírito bom. Deus é real e se manifesta no
"hoje". A sua presença, no passado, se nos oferece como "memória" da
saga de salvação realizada quer em seu povo quer em cada um de nós; no
futuro, se nos oferece como "promessa" e esperança. No passado, Deus
esteve lá e deixou sua marca: a memória nos ajuda encontrá-lo; no
futuro, é apenas promessa... e não está nos mil e um "futuríveis". O
"hoje" é o que mais se parece com a eternidade; mais ainda: o "hoje" é
uma centelha de eternidade. No "hoje", se joga a vida eterna.
O discipulado missionário é vocação: chamada e convite. Acontece em
um "hoje", mas "em tensão". Não existe o discipulado missionário
estático. O discípulo missionário não pode possuir-se a si mesmo; a sua
imanência está em tensão para a transcendência do discipulado e para a
transcendência da missão. Não admite a auto-referencialidade: ou
refere-se a Jesus Cristo ou refere-se às pessoas a quem deve levar o
anúncio dele. Sujeito que se transcende. Sujeito projetado para o
encontro: o encontro com o Mestre (que nos unge discípulos) e o encontro
com os homens que esperam o anúncio.
Por isso, gosto de dizer que a posição do discípulo missionário não é
uma posição de centro, mas de periferias: vive em tensão para as
periferias... incluindo as da eternidade no encontro com Jesus Cristo.
No anúncio evangélico, falar de "periferias existenciais" descentraliza
e, habitualmente, temos medo de sair do centro. O discípulo-missionário é
um descentrado: o centro é Jesus Cristo, que convoca e envia. O
discípulo é enviado para as periferias existenciais.
2. A Igreja é instituição, mas, quando se erige em
"centro", se funcionaliza e, pouco a pouco, se transforma em uma ONG.
Então, a Igreja pretende ter luz própria e deixa de ser aquele
"mysterium lunae" de que nos falavam os Santos Padres. Torna-se cada vez
mais autorreferencial, e se enfraquece a sua necessidade de ser
missionária. De "Instituição" se transforma em "Obra". Deixa de ser
Esposa, para acabar sendo Administradora; de Servidora se transforma em
"Controladora". Aparecida quer uma Igreja Esposa, Mãe, Servidora,
facilitadora da fé e não controladora da fé.
3. Em Aparecida, verificam-se de forma relevante
duas categorias pastorais, que surgem da própria originalidade do
Evangelho e nos podem também servir de orientação para avaliar o modo
como vivemos eclesialmente o discipulado missionário: a proximidade e o encontro.
Nenhuma das duas é nova, antes configuram a maneira como Deus se
revelou na história. É o "Deus próximo" do seu povo, proximidade que
chega ao máximo quando Ele encarna. É o Deus que sai ao encontro do seu
povo. Na América Latina e no Caribe, existem pastorais "distantes",
pastorais disciplinares que privilegiam os princípios, as condutas, os
procedimentos organizacionais... obviamente sem proximidade, sem
ternura, nem carinho.
Ignora-se a "revolução da ternura", que provocou a encarnação do
Verbo. Há pastorais posicionadas com tal dose de distância que são
incapazes de conseguir o encontro: encontro com Jesus Cristo, encontro
com os irmãos. Este tipo de pastoral pode, no máximo, prometer uma
dimensão de proselitismo, mas nunca chegam a conseguir inserção nem
pertença eclesial. A proximidade cria comunhão e pertença, dá lugar ao
encontro. A proximidade toma forma de diálogo e cria uma cultura do
encontro. Uma pedra de toque para aferir a proximidade e a capacidade de
encontro de uma pastoral é a homilia. Como são as nossas homilias?
Estão próximas do exemplo de Nosso Senhor, que "falava como quem tem
autoridade", ou são meramente prescritivas, distantes, abstratas?
4. Quem guia a pastoral, a Missão Continental
(seja programática seja paradigmática), é o Bispo. Ele deve guiar, que
não é o mesmo que comandar. Além de assinalar as grandes figuras do
episcopado latino-americano que todos nós conhecemos, gostaria de
acrescentar aqui algumas linhas sobre o perfil do Bispo, que já disse
aos Núncios na reunião que tivemos em Roma. Os Bispos devem ser
Pastores, próximos das pessoas, pais e irmãos, com grande mansidão:
pacientes e misericordiosos. Homens que amem a pobreza, quer a pobreza
interior como liberdade diante do Senhor, quer a pobreza exterior como
simplicidade e austeridade de vida.
Homens que não tenham "psicologia de príncipes".
Homens que não sejam ambiciosos e que sejam esposos de uma Igreja sem
viver na expectativa de outra. Homens capazes de vigiar sobre o rebanho
que lhes foi confiado e cuidando de tudo aquilo que o mantém unido:
vigiar sobre o seu povo, atento a eventuais perigos que o ameacem, mas
sobretudo para cuidar da esperança: que haja sol e luz nos corações.
Homens capazes de sustentar com amor e paciência os passos de Deus em
seu povo. E o lugar onde o Bispo pode estar com o seu povo é triplo: ou à
frente para indicar o caminho, ou no meio para mantê-lo unido e
neutralizar as debandadas, ou então atrás para evitar que alguém se
desgarre mas também, e fundamentalmente, porque o próprio rebanho tem o
seu olfato para encontrar novos caminhos.
Não quero juntar mais detalhes sobre a pessoa do Bispo, mas
simplesmente acrescentar, incluindo-me a mim mesmo nesta afirmação, que
estamos um pouco atrasados no que a Conversão Pastoral indica. Convém
que nos ajudemos um pouco mais a dar os passos que o Senhor quer que
cumpramos neste "hoje" da América Latina e do Caribe. E seria bom
começar por aqui.
Agradeço-lhes a paciência de me ouvirem. Desculpem a desordem do
discurso e lhes peço, por favor, para tomarmos a sério a nossa vocação
de servidores do povo santo e fiel de Deus, porque é nisso que se exerce
e mostra a autoridade: na capacidade de serviço. Muito obrigado!

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