segunda-feira, maio 16, 2011



A Covardia dos Bons
Por Damião Fernandes

As palavras caminham dentro de nós e passo a passo constroem-se as idéias, os sentimentos. Acredito que as palavras, assim como a água que quando colocada á certa temperatura ferve intensamente, da mesma forma são as palavras. As palavras evidenciam a coragem ou o temor, a bondade ou a maldade. As palavras muitas vezes nos explicam.

Nesses dias tenho pensado sobre o que escrever. Várias foram as sugestões que meus pensamentos me deram: escrever sobre a angústia, a insatisfação, sobre a existência autêntica, sobre a arte de morrer todo dia ou sobre a solidão.

Mas o vento que sopra á inspirar as palavras que ora escrevo, sopra com um ar de urgência e transgreção. Pois pensar é transgredir o supostamente pronto e acabado. Pensar é desacorrentar-se, é libertar-se dos grilhões da covardia que muitas vezes se apresenta sobre a mascara da sensatez. Ver o bem e não fazê-lo é sinal de covardia, já dizia o filósofo antigo Confúcio.

O que é a covardia? O que é ser covarde? Quando eu e você agimos assim? A covardia é o medo de assumir o que somos para não perdermos o que temos. Covarde é todo aquele que substitui o ter pelo ser. Sempre é bom recordar que ter não significa aqui a capacidade de acumular bens materiais, mas ter significa sim a incapacidade do ser humano de sair de si, de desprender-se de seus enganos e acomodações. É própria dos covardes a busca por uma vida cômoda e segura, livre de importunações. Dificilmente eles se revelam como são, mas apenas como querem. Poderíamos dizer que a covardia é a constante negação do ser como ele é. A covardia é um atentado á Ontologia.

Há uma frase de Abraham Lincoln que diz  “Pecar pelo silêncio, quando se deveria protestar, transforma homens em covardes." Quantos homens verdadeiramente bons que não pecam pelo silencio muitas vezes omisso e permissivo. Quantos que se escondem numa desvelada sensatez ou cordialidade e se calam diante de práticas injustas, humilhante ou desleal. Quantos não assumem uma postura covarde diante do que vêem e do que ouvem.

Há um trecho de uma música que diz: “O alimento da audácia dos maus, infelizmente é a covardia dos bons”. Vamos vivendo acreditando que tudo aquilo que nos acontece, as injustiças que sofremos, aquilo que não conquistamos, todo o mal que há no mundo ou até mesmo aqueles que nos acontecem são justificados por um querer Divino. Tudo atribuímos à Deus – até mesmo a origem de nossa covardia - . A covardia não é um atributo de Deus. 

“A audácia do maus, se alimenta da covardia e da omissão do bons” Papa Leão XIII

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