O SONHO E A DESCONTINUIDADE
O tempo cura as dores e as querelas
porque nós mudamos. Não somos os mesmos; nem o ofendido nem o ofensor
são as mesmas pessoas. É como um povo que tivéssemos irritado, e que
reencontrássemos duas gerações depois. Seriam ainda Franceses, mas não
os mesmos Franceses.
Se sonharmos
todas as noites a mesma coisa, ela irá afectar-nos tanto como os
objectos que vemos todos os dias. E se um artesão tivesse a certeza de
poder sonhar todas as noites, durante doze horas, que era Rei, creio que
seria tão feliz como um Rei que sonhasse doze horas, todos os dias, que
era um artesão.
Se sonharmos
todas as noites que somos perseguidos por inimigos e sobressaltados
pelos seus dolorosos fantasmas e se passarmos os dias inteiros em
ocupações diversas como se fizéssemos uma viagem, sofreremos quase tanto
como se isso fosse verdade, e ficaríamos apreensivos com o sono como
ficamos apreensivos com o sonho, temendo entrar no sofrimento real. Com
efeito far-nos-iam mais ou menos o mesmo mal que a realidade nos faz.
Mas
porque os sonhos são todos diferentes, e até um só sonho se vai
diversificando, aquilo que aí vemos afecta-nos menos do que o que vemos
na vigília por causa da continuidade, não é no entanto, o que vemos na
vigília, tão contínuo e igual que não mude, só não muda tão bruscamente,
mas não é raro quando viajamos dizer: " Parece-me que sonho". Porque a
vida é um sonho um pouco menos inconstante.
[Blaise Pascal, Pensées, Fragmento 662, Gallimard, 1977, Paris, pp.406]

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