A CRISE DE IDENTIDADE das UNIVERSIDADES CATÓLICAS
Texto de Jorge Ferraz
Foi amplamente noticiada, no final do mês passado, a polêmica envolvendo críticas à Doutrina da Igreja proferidas por um membro do Corpo Docente da Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Para quem não se lembra (ou não acompanhou):
A polêmica começou depois que uma carta de um aluno seminarista, que não se identificou, foi publicada em um blog religioso. No texto, o autor acusa o professor de Filosofia Francisco Verardi Bocca de dizer blasfêmias e desrespeitar os dogmas da Igreja. O professor teria dito que “a eucaristia é um baseado, que o padre vai passando de mão em mão… É uma droga lícita…”. Em outro trecho, diz: “Esse papa é tão ruim que nem Deus gosta dele”. O post foi publicado no blog fratresinunum.com em 18 de outubro e recebeu quase 60 comentários de apoio.
A
matéria do Estadão disse ainda «que um representante do papa chegou a
pedir esclarecimento da direção da universidade»; a PUC negou. No
entanto, uma nota conjunta sobre o assunto assinada pelo reitor da PUC e
pelo Arcebispo de Curitiba (que não consegui encontrar nem no site da
Universidade e nem no da Arquidiocese) parece ter sido escrita em
resposta a este (não admitido) questionamento vaticano, pois ela diz que
«[a] PUCPR segue integralmente a Constituição Apostólica Ex Corde
Ecclesiae de Sua Santidade o Papa João Paulo II, dada a sua condição
institucional de Pontifícia Universidade Católica». Como praticamente
nenhum jornalista sabe o que é a Ex Corde Ecclesiae (que nem sequer foi citada pela mídia secular, e o foi somente en passantpelo texto original do Fratres in Unum), o destinatário da mensagem me parece claramente ser o Vaticano – embora a Universidade o negue.
Sobre o assunto, a Gazeta do Povo publicou dois textos: um escrito pelo sr. Bortolo Valle, «professor titular do programa de Pós-Graduação em Filosofia da PUCPR», e outro da lavra do sr. Joel Pinheiro, «mestrando em Filosofia» e «editor da revista culturalDicta&Contradicta».
Deste último, destaco: “assim como a instituição reconhece o benefício
de ter professores diversos, eles também deveriam reconhecer o mérito da
instituição, comprometendo-se a respeitar seus valores, ainda que
discordem deles. A ofensa verdadeira não está na manifestação da
descrença, mas no intuito de ridicularizar a crença – intuito que nunca
parece ser grande coisa para quem faz a brincadeira, mas que é percebido
como grave pelos ouvintes afetados”.
- Também em São Paulo há uma Universidade Pontifícia no olho do furacão. Alguns cursos da PUCSP estão em greve desde o último dia 13 de novembro
por conta da «indicação da professora Anna Maria Marques Cintra para
assumir a reitoria, nomeada pelo cardeal dom Odilo Pedro Scherer,
arcebispo de São Paulo e grão-chanceler da universidade». A professora
foi a terceira mais votada nas eleições internas da Universidade; o
Estatuto Universitário prevê que a escolha do reitor é feita pelo
grão-chanceler a partir de uma lista tríplice elaborada pela comunidade
acadêmica. Os grevistas querem que a professora renuncie à reitoria.
Houve recentemente uma encenação, num dos campus da PUC (Perdizes), em protesto contra a eleição da nova reitora. A matéria nos dá alguns importantes detalhes a respeito da tolerância dos grevistas:
- O sacerdote [um boneco de 3m de altura - na verdade é um bispo], que dizia “querer a PUC”, teve partes do corpo mutiladas até perder a cabeça. Morreu ouvindo a frase derradeira: “O senhor também não pode querer ter tudo. Muito menos a PUC”.
- Zé Celso iniciou o espetáculo com frases provocativas: “Fora Anna Cintra!”; “O Vaticano tem que entrar pelo cano! Chega!”.
- “O movimento político da PUC ficou forte e vai tocar o mundo. O papa é um ditador. A Igreja castra e o catolicismo é antropófago”, disse Zé Celso, após o ato.
O Legado d’O Andarilho também publicou o fato, e é deste blog que retiro a foto abaixo, retratando a pacífica e educada manifestação artística na PUC:
Segundo
consta, o cardeal Odilo Scherer garantiu que não volta atrás. Que Santo
Tomás de Aquino interceda pelas Pontifícias Universidades, e conceda
aos que fazem parte dela – administrando, lecionando ou estudando – a
sabedoria necessária para resgatarem a sua identidade católica, tão
esquecida e tão necessária nos tempos modernos.


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