SOBRE A CEGUEIRA| ‘Ele viu
um homem’
Damião Fernandes
A sacralidade do homem não é
simplesmente um status ou um grau de posição a que se chega ou que se
conquista. A sacralidade de cada um e de todos os homens é algo intrínseco á
sua condição humana e inerente á sua criação divina. Cada homem e cada mulher
são sagrados em sí e por sí mesmos. Cada um são entes sagrados pelo simples fato de Deus ternos criados á sua
Imagem e Semelhança.
Então Deus disse: “Façamos o homem [...]” (Gn
1,26). Por uma deliberada ação de Deus, o homem é criado á sua Imagem e
semelhança de amor. É na capacidade de amar e de conhecer o criador que cada
homem e cada Mulher se tornam semelhante
á Deus. É Ele mesmo, o criador, que colocando a mão na massa, participa
ativamente do ato criativo do homem. Deus mesmo é o agente no processo criativo,
concedendo ao Homem qualidades, virtudes, capacidades, dons.
A sacralidade daquele que é a maior obra
da criação de Deus, o homem, é consequência primeiro, da ativa participação
divina no ato criativo do gênero humano. Portanto, toda essa realidade revela a
ontológica condição de divino e de sagrado da Pessoa Humana. Para todos os
outros seres criados, Deus disse: “Faça-se”, enquanto que em relação ao homem,
disse Deus: “Façamos”. Vemos aqui, um envolvimento profundamente maior. Justamente
por isso, o homem é o primeiro de toda Obra da Criação, pois a criação do homem
é profundamente distinta de outras criaturas (Catecismo da Igreja Católica, parágrafo 343; Gn 1,26).
Ao homem é dado o privilégio de ocupar
um lugar único de destaque em toda obra criada. Por causa do olhar onisciente
de amor lançado sobre o homem, Deus quis cria-lo não pensando nas “vantagens”
que esta criação poderia trazer á totalidade da Obra da Criação. O Homem foi o
único ser criado por si mesmo. O “Façamos” no sentido bíblico quer dizer que o
Senhor entranhou-se intimamente na construção humana do homem, colocando nele e
sobre a totalidade do amor e da ternura.
A sacralidade da vida humana reside no
fato de que Deus “amou o homem desde o início e o amará até o fim”. Aqui se
funda a inviolável sacralidade da Pessoa e vida humana. Quem poderá violar
aquilo que o amor criativo de Deus já redimiu desde o início? O que poderá ser
capaz de destruir no homem sua identidade de ser sagrado e divinizado?
A sacralidade da pessoa humana é
inviolável, mesmo quando outros olhares nos desqualificam e nos ignoram. A
sacralidade da Pessoa humana está muito além dos gestos de preconceito, desprezos
momentâneos, de violência ou falsos juízos construídos e alimentados sobre ele.
A minha e a sua sacralidade está fundamentada em alicerce sólido e
indestrutível, a saber, o amor incondicional e onisciente de Deus. É este amor
eterno que legitima a minha e sua eterna e inviolável sacralidade. Nem mesmo
uma possível deficiência física – que no Antigo Testamento era vista como um
castigo de Deus, portanto, uma condição de impureza que legitimava a exclusão
social do doente ou daquele que estava deficiente.
Quando tomamos a passagem de João 9,
1-40, que relata a experiência daquele cego de nascença, que Jesus manda-o
lavar-se na piscina de Siloé, percebemos aqui Jesus - o novo Homem - atualizar o ato criativo de
Deus, devolvendo ao cego – á Pessoa Humana -
a sua dignidade violada e ferida. Jesus, não somente restitui a sua
visão, mas a sua profunda identidade ontológica como legítima obra prima da
Criação. Portanto, também original possuidor de uma sacralidade que deverá ser
eternamente inviolável.
Basta vermos como começa a narrativa
bíblica logo no versículo primeiro do Evangelho de João 9 : “Ao passar,
ele viu um homem, cego de nascença”. O Cristo é aquele vê sempre em primeiro
plano o Homem e a sua sacralidade existencial e depois, somente bem depois,
enxerga a sua condição histórico-circunstancial. Afirma o poeta francês Antoine de Saint-Exupery: “ O essencial
é invisível para os olhos”. Aquilo, que nenhum dos transeuntes foram capazes de
enxergar no cotidiano daquele homem, somente o Cristo conseguiu: “Ao passar Ele (O Cristo) viu um Homem”.
Nós muitas vezes, observamos tudo em relação aos Outros: Enxergamos a marca da
roupa, o estar bem ou mal vestido, as deficiências físicas e/ou morais, os
pecados e as fraquezas, os cumprimentos ou não das normas e das regras, mas
somos incapazes de assim como o Cristo, vermos o Homem e a sua sacralidade. O
nosso olhar está cego.
Ver o Homem e restaurar sua sacralidade
inviolável foi a primeira etapa do processo que desencadeou na cura de seus
olhos. Creio que até mesmo uma “sagrada visão” sobre sí mesmo, sobre o “ser Filho”, precisava antes ser
restaurada, pois “os olhos são a janela da alma”. Somente depois de restaurar o
Homem e sua linda e bendita sacralidade é que - aí sim – Jesus ocupa-se com a
Cura física e circunstâncial.
Assim narra o texto bíblico:
“Tendo
dito isso, cuspiu na terra, fez lama com a saliva, aplicou-a sobre os olhos do cego e lhe disse: “Vai lavar-te na
piscina de Siloé”. (Jo 9, 6-7)
REFERÊNCIAS
Bíblia de Jerusalém. Tradução do texto em língua portuguesa
diretamente dos originais. São Paulo: Paulinas, 1987.
Bíblia Sagrada. Tradução dos
originais mediante a versão dos monges
de Maredsous. 58ª ed. São Paulo: Ave Maria, 1987.
Catecismo da Igreja Católica. 3ª ed.
Petrópolis: Vozes, São Paulo: Paulinas, Loyola, Ave Maria,1993.
COMBLIM, José. Antropologia Cristã. 2 ed. Petrópolis: Vozes, 1990.

Um comentário:
Extraordinário. Bendito seja Deus!
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