Sem ajuda federal, Haddad recua e sofre derrota política
Fonte: Folha de São Paulo
Desgastado nas ruas e encurralado pelo próprio partido, anunciou ao lado
do governador Geraldo Alckmin (PSDB) que o preço da passagem voltaria
aos antigos R$ 3 no início da noite de ontem.
Foi sua primeira grande derrota política no comando da cidade. Segundo
dirigentes do PT, Haddad sai do episódio desgastado com o eleitorado,
com a presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula, fiador de sua
eleição.
No PSDB, o recuo de Alckmin também desagradou. Tucanos dizem que, ao
diminuir a tarifa, ele passa a imagem de que faltou planejamento ou
vontade política para segurar o reajuste anteriormente.
Às 11h30, na primeira entrevista do dia, Haddad disse que revogar o
aumento afetaria investimentos da prefeitura e só traria benefícios de
curto prazo. "A coisa mais fácil do mundo é agradar no curto prazo,
tomar uma decisão de caráter populista sem explicar para a sociedade as
implicações."
Às 18h, quando posou ao lado de Alckmin para decretar o fim do aumento
visivelmente contrariado, mudou o discurso. "É um gesto de aproximação,
de manutenção do espírito de democracia, de convívio pacífico."
Manifestantes ateiam fogo em mural da Copa, na esquina da Paulista com a Consolação, centro de SP
Entre a primeira e a última fala, a crise política que engolira prefeito
e governador desde o início dos protestos chegara ao ápice para o
petista.
Desde a semana passada, Haddad é pressionado por dirigentes do PT a
revogar o aumento. A pressão se agravou na tarde de terça, quando se
encontrou com Dilma e Lula.
Segundo petistas, a reunião foi tensa. Lula e Dilma teriam dito a Haddad
que, diante do desgaste político imposto a ele --e ao partido--, o
melhor seria recuar. O prefeito então teria argumentado que, se arcasse
com o prejuízo da revogação, sua capacidade de investimento iria
despencar.
Em resposta, a presidente deixou implícito que já havia feito o que podia para ajudar.
| Editoria de arte/Folhapress | |
Ontem, o embate com o PT e o Planalto se agravou. Pela manhã, Haddad
voltou a dizer que a única possibilidade de reduzir tarifa sem cortar
investimento seria com o projeto de desoneração do diesel para o
transporte público.
A resposta veio poucas horas depois. À tarde, o ministro da Fazenda,
Guido Mantega, chamou a imprensa para dizer que o governo federal não
tinha mais "condições de fazer novas reduções".
Sem apoio de dirigentes do PT, e com as rusgas com a presidente
expostas, Haddad foi obrigado a recuar. Telefonou para Alckmin por volta
das 16h e seguiu para o Palácio dos Bandeirantes. Às 18h, os dois
anunciaram a revogação do aumento para passagens de ônibus, trens e
metrô.
A estratégia também foi criticada por petistas. Para eles, Haddad tentou
dividir o desgaste com o tucano, mas acabou passando uma imagem de
submissão a Alckmin.
TUCANOS
Entre os tucanos, também houve críticas a Alckmin. Uma ala do PSDB diz
que ele passa a imagem de que ficou "refém" dos protestos e, ao recuar,
abre precedente perigoso a um ano das eleições.
Para esse grupo, a partir de agora, sempre que for obrigado a tomar uma
medida impopular, Alckmin será "chantageado" por protestos.
Há ainda críticas à justificativa de que o dinheiro para cobrir a redução da tarifa sairá do caixa de investimentos.
Alckmin teria dado munição a quem engrossou os protestos exigindo
melhorias no sistema de transporte. "Mudança estrutural se faz com
investimento. Ele cai em contradição", diz um dirigente.
A atuação do governador na área da segurança também sai desgastada. Nas
ruas, a PM foi criticada num primeiro momento pela truculência e,
depois, acusada de ser omissa ao demorar para conter a onda de saques.
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